31/12/2007

Brat Pack faz crítica a heróis e a editoras que os publicam

 

 

 

 

 

 

 

Capa da minissérie já dá o tom da crítica ao universo dos super-heróis norte-americanos

 

 

 

 

 

 

 

O 12º número de "Watchmen", lançado nos Estados Unidos em 1987 pela DC Comics, encerrava a minissérie, mas não a proposta por ela representada.

O tratamento ultra-realista dos super-heróis inspirou outras tramas nos anos seguintes.

Uma delas é "Brat Pack", que começou a ser vendida no Brasil em novembro (HQM, R$ 29,90, 186 págs.) e que este blog resenha com atraso.

O álbum, escrito e desenhado por Rick Veitch no começo dos anos 1990, não faz uma cópia de "Watchmen". A obra dá alguns passos além. Critica não só a estrutura dos super-heróis norte americanos como também a indústria que os publica.

A trama é centrada na atuação dos chamados "sidekicks", os parceiros mirins dos grandes e populares heróis.

O que mais se destaca é Chippy, o "menino sensacional", versão de Robin no fictício mundo criado por Veitch.

Quem usa a máscara, o minúsculo calção de Chippy é o que menos importa. Se o dono do uniforme morre, como ocorre no início da história, outro garoto é selecionado para tomar o lugar.

Mas o novo usuário do uniforme tem de concordar com o modus operandi de seu parceiro, Doninha Noturna, o Batman de "Brat Pack" (expressão que é traduzida como "bando de pirrralhos" no álbum).

Uma das atribuições é ser parceiro também sexual do herói, rótulo que persegue a dupla Batman e Robin até hoje, principalmente em piadas.

Seguramente existe aí uma das várias cutucadas de Veitch na DC Comics.

Anos antes, ele tinha saído da editora ao ver recusada uma de suas histórias, um encontro entre o personagem Monstro do Pântano com Jesus Cristo.

A própria morte do primeiro Chippy é outra crítica à editora.

A DC Comics havia feito uma votação para decidir se o segundo Robin, Jason Todd, deveria morrer. Os leitores decidiram pela morte. No álbum de Veitch, votação parecida é feita por um programa de rádio.

A bronca de Rick Veitch com a DC Comics terminou em lua de mel. Hoje, ele faz novos trabalhos para a editora, mas nenhum tão ácido como "Brat Pack".

A obra foi publicada num momento em que a indústria norte-americana de quadrinhos estava em crise editorial e criativa.

O álbum aproveita e escancara essa crise, percebida com mais facilidade hoje por causa do distanciamento histórico.

Essa interpretação é reforçada pelo prefácio de Neil Gaiman, autor da série "Sandman". Gaiman faz um esclarecedor texto nas páginas inicias da obra.

Começaria por esse texto. Ajuda a entender melhor o destrutivo universo criado por Veitch.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h21
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27/12/2007

Adaptação de Irmãos Grimm tira ar de ingenuidade dos contos

 

 

 

 

 

 

 

Capa do álbum, que mostra 14 versões em quadrinhos de contos dos Irmãos Grimm

 

 

 

 

 

 

Não deixa de ser curioso. Um ano marcado pela revitalização das adaptações literárias em quadrinhos termina com mais um lançamento do gênero.
 
"Irmãos Grimm em Quadrinhos" (Desiderata, R$ 24,90) traz 14 contos inspirados nos textos dos alemães Jacob (1785-1863) e Willhelm Grimm (1786-1859).
 
Os dois irmãos transformaram em contos literários as várias narrativas orais populares que ouviam no início do século 19.
 
Várias são famosas até hoje e devem ser as primeiras a serem reconhecidas pelo leitor do álbum em quadrinhos, caso de "A Bela Adormecida" e "Chapeuzinho Vermelho", para ficar em dois exemplos.
 
A obra da Desiderata -que traz também outros contos desconhecidos do grande público- parte do princípio de como tais narrativas seriam se contadas na linguagem dos quadrinhos.
 
O resultado ficou a cargo dos 17 autores nacionais que participaram do projeto, entre eles S. Lobo, editor da obra e da área de quadrinhos da Desiderata.
 
A maioria vem de trabalhos alternativos, feitos em publicações independentes ou na internet.
 
Essa opção editorial tirou da obra o ar infantil, o que torna o trabalho ainda mais interessante.
 
As histórias têm um traço mais pessoal (underground, em alguns casos), uso de palavrões (pouquíssimos) e cenas de nudez (poucas também).
 
E não espere ver nas adaptações o ar ingênuo das animações feitas por Walt Disney.
 
A irmãs malvadas de "A Gata Borralheira" têm de cortar partes dos pés para fazê-los entrar no sapatinho deixado para trás após o baile com o príncipe.
 
Outro exemplo. "Rapunzel" fica menstruada, é mantida presa numa torre pela madrasta e, lá, é mostrada nua ao lado do amado.
 
Mais do que uma adaptação, a obra é um convite aos adultos de hoje relembrarem, com outro enfoque, os contos até então pueris que viram ou leram quando crianças.
 
"Irmãos Grimm em Quadrinhos" é o terceiro álbum em quadrinhos da editora carioca lançado no último trimestre.
 
A Desiderata tinha programado para 2008 outros trabalhos na área (leia mais aqui).
 
Não se sabe ainda se a negociação com a Ediouro, que finaliza a compra da Desiderata, vai interferir nessa política (leia aqui).
 
O Blog antecipou algumas imagens de "Irmãos Grimm em Quadrinhos" quando noticiou o lançamento em novembro (na época, a informação é que seriam 18 contos, e não 14).
 
Veja as imagens neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h41
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26/12/2007

Álbum torna mais acessível passagem da família real pelo Brasil

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "D. João Carioca", obra que começou a ser vendida neste mês

 

 

 

 

 

 

Há um inegável lado estratégico no álbum "D. João Carioca - A Corte Portuguesa Chega ao Brasil (1808-1821)", lançado neste neste mês (Cia. das Letras, R$ 33).

A obra em quadrinhos começa a ser vendida a poucos dias do ano que marca os dois séculos da vinda da família real portuguesa, no início do século 19.
 
Fugindo das invasões francesas, o príncipe Dom João vê na vinda ao Brasil a saída para manter a realeza.
 
Esse lado estratégico do álbum, no entanto, não tira o valor do álbum, de 95 páginas. Ou os valores do álbum.
 
O primeiro mérito da obra é saber contar esse capítulo da história brasileira de um modo que se torna acessível aos mais jovens e conteudisticamente interessante aos adultos.
 
O texto de Lilia Moritz Schwarcz, especialista no tema, dá a profundidade necessária a quem quer se iniciar no assunto, mas sem perder o humor.
 
Isso dá leveza à leitura, o outro ponto positivo da obra.
 
A evolução cronológica dos fatos é narrada com pitadas de diálogos cômicos, evidentemente ficcionais.
 
O uso do humor foi uma boa saída encontrada por Schwarcz para ilustrar cada um dos eventos históricos, difíceis de serem conduzidos na linguagem dos quadrinhos com cem por cento de precisão.
 
Nesse ponto, seguramente contribuíram no processo de construção da narrativa real os desenhos de Spacca, premiado em quatro categorias do Troféu HQMix de 2006 pela biografia de Santos-Dumont (leia aqui).
 
O traço dele casa com a proposta leve de leitura, sem dela tirar o necessário tom factual.
 
O desenhista usou fotos e pinturas -citadas ao lado dos quadrinhos em que aparecem- para compor os personagens e cenários representados em "D. João Carioca".
 
As páginas finais do álbum mostram um pouco desse trabalho de pesquisa, tão interessante quanto a leitura da obra em si.
 
É de se lamentar apenas a não-inclusão de reproduções das pinturas que serviram de referência.
 
Esse método de Spacca, na verdade, não é novo.
 
Ele também usou referências em pintura para narrar a biografia do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), personagem que aparece rapidamente neste "D. João Carioca".
 
Debret também migrou para o Brasil, mas em 1815, alguns anos depois da família real portuguesa.
 
O resultado foi mostrado em "Debret em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil", álbum lançado há exatamente um ano, também pelo Cia. das Letras (leia mais aqui).
 
Talvez o mérito final de "D. João Carioca" seja sua difusão. A história da vinda dele e da coroa portuguesa ao Brasil, na forma de quadrinhos, tem grande chance de chegar a um público maior, de diferentes faixas etárias.
 
Em livro, teria o mesmo potencial de difusão? Dificilmente.
 
Para encerrar, apenas um registro: Lailson Cavalcanti também quadrinizou a vinda da família real ao Brasil.
 
O resultado foi publicado ao longo do ano na revista "Nossa História". Leia mais aqui.
 
Post postagem: os leitores deste blog me lembram de outro lançamento deste ano que abordou o assunto: "Ponha-se na Rua!", de André Diniz e Tiburcio. Só não o mencionei por puro esquecimento. Leia mais sobre a obra aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h07
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20/12/2007

Quem te viu, quem te vê. Super-Homem era outro há 70 anos

Há um inegável valor histórico no livro "Superman Crônicas", que começou a ser vendido nesta semana (Panini, R$ 56).
 
A obra não só traz as primeiras histórias de Super-Homem mas também mostra como se deu o surgimento do gênero super-heróis.
 
Heróis com uniformes não era algo inédito em 1938, ano em foi publicada a primeira aventura do homem de aço.
 
Alguns anos antes, o "Fantasma" já perambulava com máscara e um calção por cima do traje que usava para combater o mal.
 
Mas foi com o herói de roupa azul, vermelha e amarela que os superseres surgiram nos quadrinhos.
 
Super-Homem é um fruto da imaginação dos jovens Joe Shuster (1914-1992) e Jerry Siegel (1914-1996).
 
A criação da dupla se tornou tão popular que seria até redundante lembrar que o personagem é o único sobrevivente do extinto planeta Krypton.
 
Enviado à Terra em um foguete, que cai especificamente nos Estados Unidos, ele cresce com habilidades físicas muito acima das dos demais habitantes.
 
A origem é contada logo nas primeiras páginas da história de estréia, publicada na revista "Action Comics" número um, de julho de 1938. É também a que abre "Superman Crônicas".
 
Nessa época, os autores diziam que ele não tinha sido adotado. Foi descoberto dormindo dentro do foguete e conduzido a um orfanato. Adulto, tornou-se o repórter Clark Kent.
 
Essa não é a única diferença em relação ao Super-Homem que se lê hoje. E não só nos superpoderes, que, no fim da década de 1930, eram sensivelmente menores (ele tinha força acima da média e dava enormes saltos, nem sequer voava).
 
O personagem de Shuster e Siegel era caracterizado como um ser obsessivamente preocupado em ajudar pessoas comuns -e não em enfrentar supervilões-, sem medir esforços para isso.
 
O modus operandi do herói, para se ter uma idéia, era se disfarçar de outra pessoa. 
 
Nestas primeiras histórias, ele se torna mineiro, jogador de futebol americano, prisioneiro, personagem de circo, soldado.
 
A vida de soldado é mais um elemento da obsessão dele em levar malfeitores à cadeia.
 
O herói se alistou para acompanhar um produtor de munições, que fazia fortuna com uma guerra. Era a forma que encontrou de convencê-lo a abandonar a atividade.
 
Outro dado que certamente causa estranhamento quando lido hoje é o comportamento ético do super-herói.
 
Ele manifesta atitudes agressivas e diz frases ora debochadas, ora violentas, sem a tradicional preocupação com o bem-estar dos outros.
 
Um caso, para ilustrar. Ao ameaçar um capanga, dobra uma barra de aço e diz:
 
"Está vendo como dobro sem esforço esta barra de ferro em minhas mãos? Ela poderia facilmente ser seu pescoço."
 
Quadrinho seguinte, dizendo o que faria com o vilão se este não embarcasse num navio no dia seguinte:
 
"Se não encontrá-lo a bordo quando ele zarpar, juro que vou segui-lo para qualquer buraco em que se esconda e arrancarei seu coração cruel com minhas próprias mãos."
 
Para registro: o super-herói o seguiu mesmo assim.
 
Esse tom persiste em todas as histórias dessa fase, em maior ou menor grau. Mas funcionou.
 
O herói ganhou popularidade a ponto de conquistar uma revista própria, em julho de 1939 (também presente em "Superman Crônicas"), que recontou a origem do herói, agora adotado pelos Kent.
 
O livro da Panini, produzido em capa dura e papel especial, traz as primeiras 15 histórias do herói, publicadas de julho de 1938 a julho do ano seguinte.
 
A edição traz ainda uma reprodução da primeira revista do herói publicada no Brasil em novembro de 1947 pela Ebal (Editora Brasil-América Ltda.).
 
Embora o nome da revista fosse em inglês, nas páginas internas o personagem teve o nome traduzido para Super-Homem. E Lois Lane era Miriam Lane.
 
As primeiras histórias do Super-Homem já foram publicadas por outras editoras, como a L&PM.
 
Mas nenhuma das obras teve um tratamento editorial que fizesse jus à importância do material, como faz agora a Panini com Super-Homem e como fez com Batman, em obra similar lançada em setembro (leia mais aqui). 

Escrito por PAULO RAMOS às 19h09
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19/12/2007

Livro analisa tiras cômicas como um dos gêneros do jornalismo

Há diferentes perspectivas teóricas para pesquisar os gêneros dos quadrinhos, nem todas coincidentes.

Uma delas, mais rara, é a que vincula as diferentes formas de produção quadrinística à área jornalística.

É com esse olhar que o professor universitário Marcos Nicolau enxerga as tiras no livro "Tirinhas – A Síntese Criativa de um Gênero Jornalístico".

A obra começou a ser vendida nesta semana (Marca de Fantasia, R$ 11).

O teor jornalístico das tiras, para ele, não se resume ao fato de serem publicadas em jornal.

Seria mais que isso. No entender do autor, os cem anos de produção delas permitem afirmar constituam um dos gêneros do jornalismo.

A fundamentação é feita na primeira parte do livro, a mais importante das 68 páginas da obra. Nicolau aproxima as tiras –ou tirinhas, como ele prefere- de outras produções rotuladas de jornalísticas, mas que não seguem à risca os manuais de redação.

É o caso das crônicas, que possuem uma liberdade de conteúdo e de estética próprias, algumas vezes com função de entretenimento.

Para Nicolau, o mesmo ocorreria com a tira cômica.

No entender dele, "ela traz em seu texto muito da literariedade encontrada na crônica e da denúncia ou crítica apresentada pelo artigo."

Esse diálogo com o cotidiano seria um dos elementos que aproximariam as tiras do jornalismo. Tal qual o cronista, o desenhista faria por meio dos quadrinhos um olhar próprio da sociedade moderna.

Nicolau consegue fundamentar essa premissa com propriedade, inclusive teórica.

É uma contribuição científica inovadora, posto que caminha na contramão do pouco que se estudou sobre o assunto no país.

Por isso mesmo, a aplicação das idéias teóricas no corpus de análise teria uma responsabilidade ainda maior de comprovar a premissa ao leitor.

Mas não é o que ocorre. O autor se restringiu a uma descrição rápida das características de algumas tiras, como "Hagar, o Horrível", "Calvin e Haroldo", "Rango" e "Mafalda".

Sem essa aplicação mais aprofundada, fica difícil convencer o leitor de que uma tira como "Níquel Náusea", outro exemplo citado na obra, seja jornalística.

Marcos Nicolau abre uma discussão pertinente não só sobre as tiras como também sobre o diálogo entre os quadrinhos e o jornalismo, ainda pouco explorado academicamente.

Mas é um início de discussão. Que venham outros estudos.

Nota: a obra é vendida somente no site da Marca de Fantasia. Para acessar, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h16
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Morre Borges de Barros, a voz do Dr. Smith

Esta notícia não tem muito a ver com quadrinhos, mas merece registro.

Soube hoje, com atraso, da morte de Borges de Barros. 
 
O nome dele talvez seja desconhecido da maioria. Mas a voz dele, ao contrário, ficou marcada na memória da geração que hoje passou dos trinta anos.
 
Borges de Barros foi o dublador do medroso Dr. Smith, da série "Perdidos no Espaço", exibida no Brasil na segunda metade da década de 1960.
 
Na época, o ator do personagem, Jonatahn Harris, também falecido, disse ser do brasileiro sua melhor interpretação fora dos Estados Unidos.
 
São dele bordões como "nada tema, com Smith não há problema" e "oh, dor!"
 
Mais do que sincronizar sua voz à do ator estrangeiro, Barros interpretava o personagem. Invariavelmente, somava algo a quem dublava, algo que era muito comum nas dublagens da época, em especial da empresa AIC-SP.
 
Foi assim também com o Pingüim do seriado Batman com Adam West, com o Moe de Os Três Patetas, com as inúmeras pontas que fez em filmes e outras séries.
 
Borges de Barros -que também atuou por décadas nas diferentes versões da "Praça é Nossa"- se diferenciou também por outro motivo: foi um dos felizardos de sua geração que teve a dublagem preservada.
 
As versões em DVD de "Perdidos no Espaço" e algumas de "Os Três Patetas" mantiveram a dublagem original. As exibições de "Batman" também têm feito isso.
 
Mas isso, inexplicavelmente, não é regra.
 
Ou a dublagem foi inexplicavelmente perdida (caso de Agente 86) ou, pior, a empresa opta por redublar os episódios para dar um ar de atualidade, ineditismo ou para contornar o uso de expressões da época (caso da trilogia "De Volta para o Futuro").
 
Há casos também de empresas que ignoraram a dublagem -que existe- e lançaram DVDs com legendas (vide "Esquadrão Classe A").
 
Na verdade, os motivos são inexplicáveis. Na prática, servem apenas para matar o talento de um grupo de atores que tem seu trabalho eliminado da memória cultural brasileira.
 
Só o fato de não haver uma cultura de preservação dessas dublagens é prova disso.
 
Borges de Barros pode ter seu trabalho (re)visto nos DVDs de "Perdidos no Espaço" e de alguns de "Os Três Patetas".
 
Seria no mínimo justo com a memória cultural do país se o mesmo pudesse ser dito de outros dubladores da época.
 
Em tempo: segundo o site "RetroTV", especializado em seriados, Borges de Barros morreu no último dia 12, de parada cardíaca durante sessão de hemodiálise. Tinha 87 anos.
 
Ironicamente, Barros morreu 34 dias depois de Helena Samara, que também dublou "Perdidos no Espaço". Ela fazia a voz de Maureen Robinson.
 
Samara também dublou Vilma Flintstone, Endora de "A Feiticeira" e a Bruxa do 71, do seriado "Chaves". 

Escrito por PAULO RAMOS às 19h31
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14/12/2007

O Primeiro Dia: uma reflexão sobre a guerra na visão de um brasileiro

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capa da obra, escrita e desenhada por Eloar Guazzelli
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
  
Não é na primeira leitura que as histórias do gaúcho Eloar Guazzelli dizem a que vieram. É preciso um segundo contato para deixar as idéias amadurecerem.
 
A mensagem, quando revelada, dá um tapa na cara no leitor, como se o estivesse alertando para as fraquezas, passividades e contradições que compõem a sociedade moderna.
 
"O Primeiro Dia", álbum que ele lança neste sábado em São Paulo (Editora Casa 21, R$ 25), é recheado dessas situações.
 
A obra traz 12 histórias curtas, publicadas pelo autor em momentos diferentes da carreira.
 
Um fio une os 12 contos: a relação (in)direta dos homens diante da guerra, seja qual guerra for.
 
Esse ponto de união entre as narrativas, no entanto, não é tão nítido. Falta ao livro uma introdução.
 
O que faz esse papel é a última capa, que traz um texto explicativo de Guazzelli.
 
Nele, o escritor e desenhista, de 45 anos, explica que a obra se trata de uma reflexão sobre o mundo em que sua filha viverá.
 
Ao contrário dos anos 1960, ele não vê mobilização nos dias de hoje.
 
"Eu escrevi só pata que minha filha um dia venha a saber que seu pai não estava distraído", diz ele, no texto.
 
"Mas sinceramente o que eu espero é que ela venha a descobrir que eu estava enganado."
 
Quem já ouviu Guazzelli falar uma única vez (geralmente empolgado) sabe que esse discurso politizado é parte integrante de seu DNA.
 
Assim como também o é a tendência de fazer mais de uma atividade ao mesmo tempo.
 
Ele lançou em outubro outro álbum, "O Relógio Insano", publicação independente editada pelos mesmos responsáveis pela revista mineira "Graffiti 76% Quadrinhos" (leia mais aqui).
 
Nos primeiros meses do ano que vem, ele lança um livro da coleção "Cidades Ilustradas", também da Editora Casa 21. Ele desenhou Florianópolis.
 
Fora esses e outros trabalhos, alguns deles premiados em salões de humor, ele ainda dedica tempo a um mestrado, feito na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo).
 
A pesquisa é sobre o desenhista Renato Canini, que desenhou histórias do Zé Carioca para a Editora Abril nos anos 1970.
 
Guazzelli qualificou a pesquisa nesta sexta-feira. A qualificação é uma espécie de preliminar da defesa, que ainda não tem data marcada.
 
"O Primeiro Dia" é uma obra de reflexão, que exige um tempo de leitura mais lento.
 
O convite ao pensar começa já na capa, que mostra um Mickey Mouse acorrentado, vagando solitariamente pelo deserto.
 
É uma imagem instigante. Como a obra.
 
Serviço: o lançamento do álbum vai ser neste sábado, a partir das 19h, na HQMix Livraria (Praça Roosevelt, 142, no centro de São Paulo).

Escrito por PAULO RAMOS às 20h17
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12/12/2007

Odisséia Cósmica: uma época em que uma minissérie era especial

Há um conjunto de elementos que tornam clássica uma história de super-heróis e que a creditam a uma reedição.
 
A minissérie "Odisséia Cósmica" conta com pontos suficientes para justificar seu relançamento.
 
A versão encadernada com as quatro partes da obra começou a ser vendida neste mês ("Grandes Clássicos DC" 12, Panini, R$ 25,90).
 
O primeiro ponto de destaque é a minissérie em si, publicada nos Estados Unidos entre novembro de 1988 e fevereiro do ano seguinte.
 
Era um momento em que as histórias publicadas fora das revistas mensais tinham um ar especial, não só no tratamento editorial.
 
Uma minissérie, nessa época, era sinal de que a trama trazia algo realmente acima da média.
 
Isso atraía, de antemão, uma atenção a mais ao material.
 
O "algo a mais" de "Odisséia Cósmica" era a reunião de alguns heróis tradicionais da editora DC Comics -caso de Batman e Super-Homem- com personagens criados por Jack Kirby (1917-1994).
 
Kirby tinha feito fama na concorrente Marvel. Foi o co-criador de parte dos heróis da editora.
 
De mudança para a DC, teve carta branca para constituir um grupo próprio de seres, entre eles o vilão Darkseid, governante ditatorial do planeta Apokolips.
 
Até a virada para este século, parecia haver um cuidado maior no uso de Darkseid. Ele só aparecia quando a trama era realmente importante.
 
Ter o vilão em "Odisséia Cósmica" aumentava o grau de importância da minissérie, que contava ainda com outros atrativos.
 
Um deles estava na presença de Jim Starlin, outro autor que tinha trocado de editora. 
 
Na Marvel, ele fez fama como autor de sagas interplanetárias. Trouxe para a série da DC muito dessa experiência.
 
"Odisséia Cósmica" mostra a necessidade de reunir super-seres para impedir o avanço de formas de vida (ou de antivida, como é chamada na trama).
 
A tal forma cósmica pretende destruir a Via Láctea detonando estrategicamente quatro planetas, entre eles a Terra. Duplas são formadas para impedir que isso aconteça.
 
Apesar de todo o esforço, um dos planetas é destruído. O motivo é a arrogância de um dos heróis. É o ponto alto da história.
 
No fundo, Starlin abordava a humanidade dos personagens envolvidos na trama. O espaço e a trama cósmica eram apenas o pano de fundo para isso.
 
O atrativo final de "Odisséia Cósmica" é o traço de Mike Mignola, que, anos depois, criou o personagem Hellboy.
 
O traço dele já era inovador naquela época e deu à trama um ar de modernidade, que destacou ainda mais a minissérie.
 
O primeiro contato do leitor brasileiro com "Odisséia Cósmica" foi entre agosto e setembro de 1990. A minissérie foi publicada pela Editora Abril em quatro partes quinzenais.
 
A releitura da obra, que teve nova tradução, revela diálogos desnecessários e estereotipados, camuflados pela realidade das histórias de então.
 
Há também uma boa dose de inverossimilhança, como a escolha de Batman -que não tem poderes- para salvar o universo. 
 
Nessa hora, seres bem mais poderosos seriam escalação óbvia.
 
Nada disso, no entanto, tira a importância da minissérie.
 
Não é excepcional, é fato. Mas já era clássica quando foi lançada pela primeira vez.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h01
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07/12/2007

Especial mostra trajetória do vilão que rouba a cena na série Preacher

O escritor Garth Ennis foi inteligente na construção da série Preacher.

Ele deixou para revelar momentos marcantes da vida dos ricos personagens secundários em edições especiais.

Foram seis especiais. Um deles, "Preacher Especial - Guerra de um Homem Só", trazia como protagonista o cativante vilão Herr Starr.

É essa história que começou a ser vendida nesta semana (Pixel, R$ 10,90).

Herr Starr, a exemplo dos demais coadjuvantes, rouba a cena em vários momentos.

O rosto troncudo e sério dele contrasta com suas bizarras fantasias sexuais (como transar enquanto a mulher fica com a cabeça numa privada).

Essa mistura antagônica é o que molda o personagem e que o torna tão peculiar e surpreendentemente divertido aos olhos do leitor.

A história deste especial, desenhado por Peter Snejbjerg, se passa num momento anterior à continuidade da série, também publicada pela Pixel (o último encadernado foi lançado em agosto).

A revista mostra as primeiras mortes feitas por Starr como funcionário do governo até sua entrada no Graal, entidade secreta que mantém há séculos a linhagem divina.

A entrada dele no Graal foi conquistada por meio de uma sucessão de assassinatos.

Um caso: ele tem de matar uma pessoa e fazer com que outras duas não desconfiem.

Saída encontrada por Herr Starr: mata os três numa explosão, que vitimou 205 pessoas ao todo. Com tantos corpos, ninguém suspeitaria das mortes do trio.

Quem acompanha as aventuras de Preacher –um pastor renegado que sai à caça de Deus- vai enxergar no especial o mesmo espírito sádico e politicamente incorreto da série da Vertigo, um dos selos da editora norte-americana DC Comics.

O senão da revista são problemas de revisão.

A apresentação da história diz que o especial foi lançado nos Estados Unidos em 1988.

Preacher começou a ser publicado em 1995, como diz a própria edição nas páginas finais.

É nestas que ocorre outro descuido. No fim da edição, aparece a capa de "Cassidy – Sangue & Uísque", o segundo da coleção "Preacher Especial", lançado pela Pixel em julho.

Na página seguinte, um texto apresenta o especial sobre o vampiro Cassidy, anunciado na "história a seguir". O que vem depois são os créditos da edição.

Não são problemas que comprometem a leitura da história principal. Mas o leitor poderia ficar sem eles.

Escrito por PAULO RAMOS às 00h51
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