29/11/2007

Fun Home: o lado real, porém surreal, da vida em família

É inevitável a sensação de que os quadrinhos chegaram a um outro patamar após a leitura de "Fun Home - Uma Tragicomédia em Família", lançado neste mês (Conrad, R$ 42,90).
 
Com verniz literário, o livro narra as memórias familiares da autora, a norte-americana Alison Bechdel, hoje com 47 anos.
 
O foco é o relacionamento com o pai, Bruce Bechdel, já falecido.
 
Não é possível medir o grau de fidelidade aos eventos descritos nas 240 páginas do trabalho, vencedor de um Eisner Awards, espécie de Oscar da indústria norte-americana de quadrinhos.
 
Fiel ou não, o espírito da obra é ser autobiográfico. E o que é mostrado foge muito ao núcleo familiar convencional.
 
Nas suas lembranças, Alison vai construindo narrativamente uma figura paterna introspectiva (Bruce quase não ri em toda a obra) e problemática.
 
Ele encapsula diferentes níveis de estranhamento. Um deles é profissional.
 
O pai é professor de inglês e dono de uma agência funerária, ganha por herança.
 
O nome do livro vem desse lado mórbido. "Fun Home" é uma brincadeira com a expressão "Funeral Home", nome dado às casas funerárias.
 
Mais do que dono, é ele quem prepara os corpos dos cadáveres a serem enterrados.
 
Outro nível de estranhamento é de ordem pessoal. Casado, mantém relações homossexuais com outros homens.
 
O lado gay, aos olhos dos filhos, era mantido às escuras.
 
Ou quase às escuras. Havia pistas. Uma estava na fixação do pai por decoração.
 
A família não só acompanhava as decorações dele como também era instigada a ajudar.
 
O perfil problemático o acompanhou até a morte, segundo o relato de Alison.
 
Ela levanta a possbilidade de ele ter se suicidado no atropelamento que o matou.
 
Foi nesse ambiente quase surreal que Alison cresceu.
 
Na reavaliação da vida do pai, a autora vê traços da vida dele em sua própria trajetória.
 
Uma semelhança é o lesbianismo, que assumiu à família quando estava na faculdade.
 
A revelação também teve cores surreais. Após contar à mãe, ouviu dela que o pai também teve casos homossexuais no passado.
 
Bechdel, a filha, é uma autora de tiras que teve em "Fun Home" o ponto alto da carreira, iniciada na primeira metade dos anos 1980.
 
O livro -lançado com todo o jeitão de livro- se alinha com outros trabalhos em quadrinhos incluídos na seleta lista de obras aceitas e citadas pela mídia e pelos chamados formadores de opinião, como "Maus", de Art Spiegelman.
 
Não por acaso que foi listada pela revista "Time" em 2006 como livro do ano.
 
Também não é coincidência o espaço que conseguiu na capa de hoje do caderno "Ilustrada" da "Folha de S.Paulo", com direito até a entrevista com a autora (leia aqui).
 
Os quadrinhos geralmente conseguem bons resultados quando deixam de lado o real e dialogam com o ficcional.
 
"Fun Home - Uma Tragicomédia em Família" é mais um (bom) exemplo disso.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h20
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27/11/2007

Convidados especiais marcam segundo volume de Piratas do Tietê

 
Nem só piratas circulavam pelas águas do paulistano rio Tietê.
 
Batman, Fantasma e até mesmo o poeta português Fernando Pessoa passaram por lá.
  
Pelo menos nas histórias imaginadas pelo cartunista Laerte Coutinho.
 
Os inusitados encontros pautam o segundo volume de "Piratas do Tietê - A Saga Completa", que começou a ser vendido neste finzinho de mês (Devir, R$ 52, 112 págs.).
 
Cada encontro é antecedido por um texto curto, em que Laerte traz algum bastidor da história.
 
Na que mostra Batman, ele diz que "adora" o herói. A justificativa faz sentido.
 
Na história, o Homem-Morcego resolve integrar a trupe de piratas e passa a viver do mesmo modo que os amalucados personagens.
 
No final, ele revela "o segredo do morcego", que evidentemente, não será revelado aqui. Mas explica a justificativa do autor.
 
O encontro com Fernando Pessoa é, talvez, uma das histórias mais divertidas dos Piratas.
 
Eles tentam matar o poeta, que declama um de seus poemas. 
 
Nunca conseguem. O poeta é imortal.
 
A participação de Fantasma se deu numa história em três partes. Foi uma "experiência", segundo Laerte, de que os leitores gostaram.
 
O álbum traz também duas curiosidades: o texto da peça teatral "Piratas do Tietê - O Filme", encenada em São Paulo, e oito quadrinhos do storyboard do desenho animado dos personagens, ainda em processo de produção.
 
A coleção, que terá mais um volume, reedita em formato de luxo as histórias longas dos sádicos personagens de Laerte, criados em 1986.
 
Este número traz histórias publicadas em 1987, 1989 e 1990 nas revistas "Circo", "Chiclete com Banana" e "Piratas do Tietê" (que trazia as narrativas no formato horizontal).
 
A editoria de humor do UOL preparou um álbum com algumas imagens da obra. Para acessar, clique aqui.
 
Saiba mais sobre a primeira edição aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h20
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