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29/12/2006
Lançado último número de Incal
Incal é um clássico do quadrinho moderno. A ficção científica de Alexandro Jodorowsky e Moebius se tornou um marco, influenciando a estética de outras produções em quadrinhos e cinematográficas. Mesmo assim, custou a ganhar uma edição nacional. Os brasileiros só tiveram acesso à série neste ano. E, agora, finalmente podem ler o desfecho da saga, lançado nesta semana ("Incal - Volume Três", Devir, R$ 42).
A ficção científica é difícil de ser lida, até mesmo para quem acompanhou os dois volumes anteriores. Há muitos detalhes, informações, filosofia, termos intencionalmente futuristas. Em linhas bem gerais, mostra a luta de um grupo de rebeldes contra um império das sombras, que pode destruir o universo. O grande aliado dos rebeldes é um artefato superpoderoso chamado Incal.
A importância e a qualidade da obra francesa são inegáveis. Na pior das hipóteses, é um dos melhores desenhos de Moebius (detalhista e figurinista nato). Mas, após a leitura dos três volumes, fica a impressão de que o ar inovador talvez não seja tão inovador assim. A série influenciou muitas outros trabalhos, mas também foi influenciada.
É possível perceber alguns toques do filme "Guerra nas Estrelas", de George Lucas, lançado no fim dos anos 70 ("Incal" estreou no número 58 da revista "Metal Hurlant", em 1980). Vejamos. Na série francesa, o bem é representado pela luz; o mal, pela escuridão (assim como o lado negro da força, imaginado por Lucas). Em ambas as séries, há um grupo de rebeldes que luta contra um Império galáctico do mal. Há uma "estrela bélica", espécie de meganave, a exemplo da "Estrela da Morte" de Star Wars, que deve ser destruída.
Pode-se fazer mais analogias, até com outras obras de ficção científica. Rende até um promissor estudo de intertextualidade. Mas nada disso desmerece a obra, é bom que fique claro. Nem os autores. O diretor de cinema Jodorowsky teve publicada no Brasil entre o fim de 2005 e o começo deste ano a série "Bórgia", feita em parceria com Milo Manara.
Moebius também continua na ativa. Por mais que o autor admita na introdução de Incal que teve influência do desenho norte-americano neste capítulo final, foi ele que teve um papel um importante no quadrinho dos Estados Unidos. Ele era o ilustrador de maior destaque da "Metal Hurlant", que foi a base da versão americana da revista, a "Heavy Metal".
"Incal" merece leitura, nem que seja para ter contato com um dos clássicos dos quadrinhos. Mas fica a dica: leia antes os dois primeiros números, lançados pela Devir neste ano. Do contrário, você dificilmente vai entender esta terceira edição, principalmente a referência da página final.
Escrito por PAULO RAMOS às 13h51
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16/12/2006
Personagens criados há 110 anos ganham álbum de luxo

Os irmãos Hans e Fritz têm quase 110 anos de idade. As travessuras deles começaram a ser publicadas em 1897 nos Estados Unidos. Nesse tempo todo, a dupla criada por Rudolph Dirks nunca teve no Brasil uma edição tão luxuosa como a que começa a ser vendida nesta virada de semana. "Os Sobrinhos do Capitão – Piores, Impossível – 1936 a 1938" (Opera Graphica, R$ 74) é um álbum de capa dura, com quase cem páginas, que reedita histórias da década de 30 no formato como foram veiculadas originalmente (na horizontal).
A edição lembra, muito, a dedicada a Recruta Zero, lançada no começo de outubro (leia na postagem de 05.10). São obras pensadas para colecionador, o verdadeiro público-alvo desse tipo de material mais histórico. E história, diga-se, é o que não falta a Hans e Fritz, garotos especializados em criar travessuras da pior qualidade. Os bastidores da produção começam nos primórdios dos quadrinhos e passam por uma acirrada disputa editorial.
Hans e Fritz foram inspirados em Max und Moritz, história alemã produzida na segunda metade do século 19 (teve uma versão nacional, traduzida por Olavo Bilac, leia na postagem abaixo). O nome alemão não foi por acaso (a tira se chamava "Katzenjammer Kids"). As histórias começaram a ser publicadas no jornal "New York Journal", do magnata Willian Randolph Hearst (a fonte inspiradora de de Orson Welles para o filme "Cidadão Kane").
Para a história da história em quadrinhos, esse material teve a importância de consolidar a nova linguagem que surgia, com a narrativa em seqüência, o aprimoramento dos balões, linhas cinéticas e metáforas visuais.
Em 1913, Dirks iniciou uma disputa judicial pelos direitos de publicação dos personagens. Em 1914, conseguiu o direito de editá-los no jornal concorrente "New York World". A decisão judicial criou o editor que Otacílio d`Assunção definiu muito bem como "universos paralelos". A série sairia nos dois jornais, mas Hearst ficaria com o nome. Dirks trocou o título para "Hans e Fritz" e, depois, para "The Captain nad the Kids", cuja tradução é o rótulo mais conhecido aqui no Brasil
O leitor, então, vive algo que hoje seria inimaginável: ele lê os mesmos personagens, produzidos por desenhistas diferentes, em jornais concorrentes.
No "New York Journal", a série passou a ser produzida por Harold Knerr, que a desenhou até sua morte, em 1949. Teve vários sucessores e até hoje é publicada. É o material mais conhecido no Brasil por estar vinculado à companhia King Features Syndicate, com quem a Opera Graphica mantém contrato. É de uma das fases de Knerr o material lançado neste fim de semana.
O leitor mais antigo vai estranhar a tradução. Tentanto ser fiel ao original, que dá aos personagens um sotaque germânico, as falas dos garotos e do Capitão (a principal vítima das travessuras das duas pestes) foram representadas com caracteres que lembram um português germanizado. Algo como "seis fezes seis son sessenta e seis". O recurso já foi feito em outras edições brasileiras, diz a introdução do álbum, mas teria sido abandonado. A última edição de "Os Sobrinhos do Capitão", de 200, da mesma Opera Graphica, não se vale dessa caracterização.
Apesar da estranheza na fala dos personagens, este álbum recupera histórias de personagens cuja trajetória está umbilicalmente associada ao surgimento dos quadrinhos. Só por isso, já valeria o tratamento de luxo. Ler Hans e Fritz é compreender a história da história em quadrinhos.
Leia mais na postagem abaixo.
Escrito por PAULO RAMOS às 12h36
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Juca e Chico na tradução de Olavo Bilac
Hans e Fritz, os protagonistas de "Os Sobrinhos do Capitão", foram inspirados em Max und Moritz, do alemão Wilhelm Busch (1832-1908), um dos pioneiros da linguagem dos quadrinhos. A obra era algo parecido com o que hoje entendemos por livro infantil. Havia uma narrativa, ilustrada por imagens dos garotos travessos.
No Brasil, a história foi traduzida pelo poeta Olavo Bilac, que batizou a dupla de Juca e Chico. O livro se chamou "Juca e Chico – História de Dois Meninos em Sete Travessuras" (capa ao lado). Na derradeira traquinagem, os garotos fazem buracos em sacos de trigo. São descobertos e colocados moinho, que os tritura vivos. Ambos, evidentemente, morrem e viram comida para dois gansos esfomeados. É a lição de moral para as crianças nunca aprontarem, mas levada às últimas conseqüências.
A cena final foi traduzida assim por Olavo Bilac (o texto é da 11ª edição, editada pela Livraria Francisco Alves; mantenho a grafia original):
"Ai de ti, ó súcia arteira! / Vai ser esta a derradeira! / Também, por que é que nos sacos / Foram abrir dois buracos?... / Aí vem o dono do trigo, / E leva os sacos consigo. / Porém, mal começa a andar, / Começa o trigo a escapar... / E êle: "Oh, diabo! Êste saco / Deve ter algum buraco! / E violta-se: e num instante / Apanha os dois em flagrante. / Olá! Que boa colheita! / Não me escapais desta feita! / Lá vão êles, a caminho / Da morte... isto é: do moinho. / - Mestre moleiro, bom-dia! Tragolhe a mercadoria / Mais cara que há no mercado! / Quero isto já bem passado! / Quero já isto bem moído! / - Pois não! Já vai ser servido! / Raque... raque... a trabalhar, / Põe-se o moinho a rodar... / E aí tendes os dois meninos, / Em grãos tão finos, tão finos, / Que são logo deovrados... / - E os dois gansos esfaimados / Nunca em tôda a sua vida / Viram tão boa comida!"
Escrito por PAULO RAMOS às 12h30
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07/12/2006
Álbum traz uma das melhores histórias de Astro City
Há um outro ponto de vista neste novo passeio por Astro City. O enfoque está num ex-criminoso, e não nos super-heróis que circulam pela fictícia cidade criada pelo escritor Kurt Busiek. Essa mudança na escolha do personagem central é o grande acerto de "Astro City - O Anjo Caído", álbum que começou a ser vendido nesta semana (Devir, R$ 46). Tornou a história bem mais intimista. A trama reflete na pele de metal do protagonista uma sociedade que não é preparada para recuperar quem passou pela prisão.
O álbum reúne sete histórias inéditas de Astro City. A edição é quase igual ao encadernado norte-americano, lançado em 2000. "Quase" porque o formato é um pouco menor. É uma das melhores -senão a melhor- seqüência da premiada série de Busiek, uma declarada homenagem às revistas de super-heróis. E um ótimo do ponto de partida para quem nunca visitou a cidade.
A história toda é uma grande metáfora, presente em cada detalhe da trajetória do personagem central. A metáfora mor remonta aos princípios cristãos. O Homem-Blindado de Aço -codinome do protagonista- é o anjo caído do título. Ele enfrenta a difícil tarefa de se regenerar. Cumpriu pena, largou os crimes, não consegue se recolocar no mercado. Vive à margem da sociedade. Seu passado e sua pele depõem contra ele.
Os demais anjos continuam nas alturas, sobrevoando Astro City, e são chamados de super-heróis. O ex-presidiário quer ser como eles, alcançar a redenção. Mas permanece no solo, junto com todos os outros, trilhando o árduo caminho em busca da salvação (que nem ele sabe exatamente qual é).
A pele de metal, aliás, é um achado narrativo. Ela é a síntese de todos os fracassos vividos por Carl Donewicz, nome “real” do personagem. Reflete o rosto de medo das pessoas quando o vêem. Não permite a ele nem lavar pratos em bares e lanchonetes de quinta categoria. O sabão faz a louça escorregar pelas mãos metalizadas. Há um início de ferrugem na região da barriga (detalhe sutil, mas casa perfeitamente com o perfil representado).
O rosto e, principalmente, o olhar triste e distante, terminam por confirmar visualmente o estado de submissão em que se encontra. Os traços faciais foram baseados no falecido ator Robert Mitchum (a semelhança é gritante, como mostra a imagem ao lado). Há um agradecimento de Alex Ross a ele, escondido na página sete. Ross é o autor das capas e da elaboração visual dos super-habitantes de Astro City. É com base em Ross que o desenhista Brent Anderson faz a arte da série, publicada originalmente nos Estados Unidos.
Resta ao Homem-Blindado de Aço (uma mistura de Luke Cage com Colossus, dos X-Men, ambos da editora Marvel) investigar outros vilões, que são misteriosamente assassinados. É por meio desse "trabalho" que ele encontra sua redenção. Falar mais estragaria a história. Mas, no fim, o leitor vai se questionar quem é herói e quem é vilão. E vai ficar com ódio dos heróis.
Nota: Frank Miller faz um mea-culpa na introdução do álbum. Ele diz que estava errado quando afirmou que o gênero super-heróis havia morrido. A afirmação foi feita com base em "Cavaleiro das Trevas" e "Watchmen", que teriam "enterrado" esse tipo de história.
Veja mais imagens do álbum aqui.
Escrito por PAULO RAMOS às 07h03
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01/12/2006
Paulo Caruso lança coletânea de Avenida Brasil
Os irmãos Chico e Paulo Caruso são parecidos em tudo. A começar pela aparência. Gêmeos, é difícil saber quem é um, quem é outro. Os dois tocam música, nem todos sabem. O lado mais conhecido deles é o artístico. Mais semelhanças. Chico faz charges para "O Globo". Paulo, para o "Jornal do Brasil". Um cria desenhos de humor para a TV Globo. Outro, para a TV Cultura. Chico Caruso lançou no começo do mês uma coletânea de trabalhos sobre o primeiro mandato do governo Lula. Saiu pela Devir. E não que é o irmão também lança uma reunião de histórias de humor sobre Lula? E pela mesma editora? E no mesmo mês?
"Avenida Brasil – Se meu rolls-royce falasse" (R$ 46) começou a ser vendido nesta semana. Mostra a leitura crítica e bem-humorada de Paulo Caruso sobre os quatro anos de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência. É ele o personagem central das histórias da Avenida Brasil, que ele publica há 25 anos no país. No álbum, há material feito para as revistas "IstoÉ" e para o fluminense "Jornal do Brasil", por onde sua avenida atualmente.
O paulistano Caruso explica que a avenida (inicialmente era um bar, o Bar Brasil) é uma metáfora do país. Foi uma estratégia criada para driblar a censura, ainda na época da ditadura. É uma forma de colocar os personagens do mundo político num cenário que não chame tanta atenção. Funcionou. Mesmo com a abertura política, continuou com o mesmo processo de criação.
A grande metáfora deste álbum tem muito de real. Tivemos –e temos- um presidente, ex-operário, que chegou ao Planalto conduzido num rolls-royce. A coletânea começa com essa idéia e, depois, migra para outros fatos políticos que marcaram a primeira gestão do governo Lula. Vai desde a posse e a expulsão de Heloísa Helena e Babá do PT até a eleição e a nova composição da Câmara dos Deputados (com Clodovil). Há também os coadjuvantes. Anthony Garotinho está impagável.
Difícil rotular Avenida Brasil. É charge sem ser charge, é quadrinhos, é caricatura. Não importa. É, acima de tudo, um retrato visual da história contemporânea do país.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h18
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