20/11/2006

Álbum reúne histórias de Alan Moore dos anos 80 (algumas inéditas)

O inglês Alan Moore chegou num ponto em que apenas a presença do nome dele na capa de uma revista já causa euforia entre os leitores de quadrinhos. Apesar disso, ainda há material inédito do escritor no Brasil. São aventuras de super-heróis da metade dos anos 80 feitas para a editora DC Comics. Essas e outras reedições clássicas do período foram reunidas numa obra única, que começa a ser vendida nesta semana ("Grandes Clássicos DC 9 – Alan Moore", Panini, R$ 36,90).

O título se baseia no original: "The DC Universe Stories of Alan Moore". Para o leitor brasileiro, é como se fossem descobertos arquivos secretos do escritor, há muito escondidos. Duvido que muita gente saiba que Moore escreveu histórias do Vigilante, da Tropa dos Lanternas Verdes, do Arqueiro Verde, dos Omega Men. São aventuras que não justificariam uma edição em português, não fosse o fato de terem sido escritas por Moore.

Só a curiosidade da existência delas já justificaria a obra e garantiria a tal euforia para as vendas. Mas o título vai além. Publica duas das histórias mais lembradas entre os leitores de Batman e Super-Homem, já editadas e reeditadas no Brasil: "A Piada Mortal" e "O que aconteceu com o homem de aço?"

"A Piada Mortal" é uma das mais importantes aventuras de Batman. O homem morcego tem de enfrentar um Coringa bem mais violento do que de costume. Num dos ataques, o vilão deixa a Batmoça paralítica após disparar contra ela, que é filha do Comissário Gordon. O Coringa ainda se dá ao luxo de fotografá-la enquanto ela agoniza. A história é desenhada por Brian Bolland, que também faz a capa deste álbum especial (imagem acima).

Com relação ao Super-Homem, Moore teve uma oportunidade de ouro, daquelas raríssimas de acontecer. O escritor e desenhista John Byrne iria assumir as revistas do homem de aço no fim de 1986. O personagem seria reformulado após a megassérie "Crise nas Infinitas Terras" e ganharia uma nova origem. As edições do mês de setembro seriam as últimas do momento cronológico pré-Crise. O autor inglês teve carta branca para fazer a derradeira aventura do Super-Homem, em duas partes (que saíram nas duas revistas do herói, "Superman" e "Action Comics").

Foi assim que surgiu "O que aconteceu com o homem de aço", que mata alguns coadjuvantes, dá rumo a outros e redefine o futuro do herói, ao lado de Lois Lane. Tudo podia. Nada disso teria importância cronológica para as edições seguintes. Um achado, que coube a Curt Swan ilustrar (o desenhista foi um dos mais famosos a trabalhar com o herói).

"Grandes Clássicos DC – Alan Moore" tem outras histórias que já tiveram versão nacional, como o encontro de Super-Homem com o Monstro do Pântano e o confronto do homem de aço com Mongul. Parte das aventuras tem um texto introdutório de editores ou desenhistas que dividiram o processo de criação com o polêmico escritor. Mas não estranhe: Moore é mencionado, elogiado, mas não foi ouvido. O motivo é simples: ele tem uma briga de longa data com a editora por causa de direitos autorais de "Watchmen" e de "V de Vingança". A DC soube com o álbum aproveitar o prestígio conquistado por Alan Moore. Mais uma vez.

Escrito por PAULO RAMOS às 07h32
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08/11/2006

"O Fotógrafo": álbum faz jornalismo em quadrinhos

Dos lançamentos da última Fest Comix (feira de quadrinhos que terminou domingo em São Paulo), um merece um olhar mais atento: "O Fotógrafo - Uma História no Afeganistão" (Conrad; R$ 46), obra que chega nesta semana às livrarias e bancas de grande porte. O álbum amadurece um gênero que tem (ou tinha) em Joe Sacco o seu principal representante: o jornalismo gráfico.
 
O nome é um trocadilho do termo graphic novel (ou romance gráfico). A invenção é do escritor Sid Jacobson, autor da versão quadrinizada do relatório da Comissão de Ataques Terroristas nos Estados Unidos, lançada neste ano. "É uma história de investigação", disse. "É jornalismo gráfico".
 
O termo -na falta de outro- rotula bem a síntese entre jornalismo e quadrinhos. Ou entre fotojornalismo e quadrinhos, caso de "O Fotógrafo". As páginas do álbum intercalam imagens desenhadas com fotos registradas por Didier Lefèvre durante visita ao Afeganistão em 1986 (imagem ao lado).
 
Lefèvre viajou para acompanhar o Movimento dos Médicos sem Fronteiras, grupo especializado em atender pessoas em regiões de conflito ou de difícil acesso. O convite (ele diz na obra que foi uma "encomenda") era para registrar uma caravana de médicos que ia para o norte do Afeganistão. O roteiro: chegar a um hospital de guerra e, depois, construir outro um pouco mais à frente. Era uma época de guerra no país.
 
A expedição partia do zero, assim como o olhar de Lefèvre. Tudo era novidade, tudo era diferente, tudo era motivo de registro pela lente de sua câmera. A forma como conseguiu a primeira roupa, uma espécie de beca, é narrada em detalhes. Clique. A compra de burros tem de obedecer a um certo ritual de cumprimentos, com panos cobrindo as mãos, algo inimaginável para nós, ocidentais. Clique. As conversas e impressões que têm são relatadas em primeira pessoa. E fotografadas, claro. Clique.
 
A câmera não registrou tudo. É aí que entram os desenhos do ilustrador Emmanuel Guibert. Ele preenche os buracos narrativos e transforma em palavras o relato de Lefèvre. O resultado é uma das obras mais criativas do ano, uma mescla bem-sucedida de fotos e arte.
 
O leitor desavisado vai ter dificuldades para saber quem é quem antes de ler a obra. A capa não explica quem é o fotógrafo e quem é o desenhista. Também não há informação clara sobre a história em si, resultado de um ensaio fotojornalístico verídico. Quem sana essas lacunas é a jornalista Simone Rocha, que há nove anos trabalha com o grupo dos Médicos Sem Fronteiras. Ela assina a introdução do álbum e acrescenta vários detalhes, interessantes de ter antes de se aventurar nessa instigante viagem pelo Afeganistão.
 
Comece pela introdução de Simone. Depois, aproveite o passeio promovido pelas lentes de Didier Lefèvre.

Escrito por PAULO RAMOS às 07h37
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