28/10/2006

ITEM DE COLECIONADOR

"BATMAN: SILÊNCIO" E "LJA/VINGADORES" TÊM EDIÇÃO DE LUXO

A Panini testa um novo formato, o das edições feitas para colecionador. Mais caras, capa dura, acabamento de luxo, muito material extra, tiragem reduzida. Os dois primeiros encadernados nesse formato começaram a ser vendidos nesta semana e reeditam duas séries já publicadas pela editora: a comentada "Batman: Silêncio" e o histórico encontro entre Liga da Justiça (da DC) e Vingadores (da concorrente Marvel).

A reunião entre as duas superequipes não é o primeiro encontro de personagens da Marvel e da DC. Mas é um dos mais bem realizados. A história imaginada pelo roteirista Kurt Busiek conseguiu colocar em bom termo uma série de problemas que naturalmente permeiam uma aventura assim. Por exemplo: qual formação dos grupos deve ser usada (já que houve várias delas)? Simples: todas. É só adicionar um cubo cósmico na aventura, artefato que possui poderes ilimitados, inclusive o de alterar a realidade espaço/tempo.

A estratégia de usar o cubo permitiu que várias versões das equipes e dos heróis se alternassem na condução da parte final da trama. É um dos grandes acertos da história, porque usa e abusa da memória do fã de quadrinhos de super-heróis, o real leitor do superencontro. É um show de referências cronológicas, desenhadas por um George Pérez inspirado. O ilustrador de "Crise nas Infinitas Terras" tem currículo o mérito de ter feito a arte tanto da revista dos "Vingadores" quanto da "Liga da Justiça".

É Pérez o outro destaque da edição. Não só pela arte da história principal mas também pela ilustração de parte dos extras. O álbum mostra os esboços dele para o primeiro encontro, história que nunca foi publicada. Os motivos da não-edição também são explicados nos extras. Teria sido por um diz-que-diz entre os todo-poderosos das duas editoras: Jim Shooter, da Marvel, e Dick Giordado, da DC. A reunião original tinha sido imaginada na primeira metade dos anos 80.

O segundo encadernado –ou edição definitiva, como aparece na capa- mostra a polêmica série "Silêncio", publicada originalmente em doze partes (saíram pela primeira vez no Brasil na revista "Batman", também da Panini). A história é escrita por Jeph Loeb, autor que faz parte do restrito grupo do "ame-o ou deixe-o": há quem goste muito do estilo dele, há quem desteste (difícil encontrar um meio-termo).

Loeb repete a fórmula que usou em minisséries anteriores do homem-morcego, como "O Longo Dia das Bruxas"). Há um mistério, que só se resolve na última edição. Para quem já leu as aventuras anteriores de Loeb, vai haver um inevitável ar de "déjà vu". Mas nada disso depõe contra a história, nem contra a arte de Jim Lee (também inspirado).

"Silêncio" ficou marcada por mostrar mudanças marcantes na vida de Batman. Ele assume um romance com a Mulher-Gato, revela a ela sua identidade secreta, ganha um novo inimigo (que dá título ao encadernado), tem indícios de que Jason, o segundo Robin, pode não estar morto. Há ainda uma luta memorável entre o homem-morcego e Super-Homem, dominado por Hera Venenosa. Loeb consegue, com tudo isso, deixar aquela sensação de querer saber o que virá no próximo capítulo (um bom medidor da qualidade de uma história).

As duas edições são caras. "Batman: Silêncio" custa R$ 79 e "LJA/Vingadores", R$ 69. Mas são obras feitas para quem paga para ter uma material como esse (é uma estratégia bem semelhante à usada pela editora Opera Graphica). Por isso, os encadernados são vendidos apenas em lojas especializadas em quadrinhos, pela internet ou em algumas bancas de grande porte.

A Panini informou que pode publicar futuramente uma versão mais simples das duas obras, mantendo o mesmo material. Mas vai depender das vendas dos dois encadernados.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h12
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15/10/2006

O COMPLÔ

LANÇADO NO BRASIL O ÚLTIMO TRABALHO DE WILL EISNER

"É meu desejo que, talvez, este trabalho fixe outro prego no caixão dessa fraude tenebrosa e vampiresca".

A frase acima é de Will Eisner e está no prefácio de "O Complô – A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião", última graphic novel dele, inédita no Brasil (Companhia das Letras, R$ 36). A fraude a que Eisner se refere é a criação de um documento para difamar o povo judeu (que realmente existiu). O texto defendia que os judeus se articulavam secretamente para tomar o poder de forma ditatorial.

O documento do início do século, comprovou-se definitivamente em 1999, era um plágio de outra obra, "O Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu", escrito anos antes pelo francês Maurice Joly. O plágio era para afastar idéias liberais do governo russo. Eisner reconta a história, etapa por etapa, até trazê-la ao século 21. Lendo o assunto em perspectiva, fica claro que a cada vez que a autoria dos Protocolos era questionada, novas edições surgiam e mais gente tomava contato com o texto (que se tornava ainda mais popular).

Para quem conhece o histórico de Eisner, é fácil perceber o interesse dele no assunto. O escritor-desenhista é judeu e sentiu na pele o preconceito instigado pelos Protocolos de Sião. A influência chegou até Hitler, que os usou para fundamentar seu projeto anti-semita. Eisner pretende, com o álbum, mostrar todos os detalhes da criação do livro para, depois, desmontá-lo para uma nova geração, ainda vítima do impacto cultural da obra.

É um dos trabalhos mais autorais de Eisner, resultado de pesquisa ampla pesquisa feita em seus últimos anos de vida. É como se fosse um último grito de basta do autor, que morreu dias depois de concluir o prefácio do álbum (o prefácio é de dezembro de 2004; Eisner faleceu em 3 de janeiro de 2005, aos 87 anos). O criador de Spirit, que influenciou e ensinou gerações e gerações de quadrinistas desde os anos 40, dá sua lição final. A "aula" pode ser resumida nas páginas iniciais de "O Complô":

"Sempre que um grupo de pessoas é ensinado a odiar outro grupo, inventa-se uma mentira para insuflar o ódio e justificar um complô. É fácil encontrar o alvo, porque o inimigo é sempre o outro."

Pra pensar...

Escrito por PAULO RAMOS às 18h23
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13/10/2006

TOP COW

PANINI LANÇA 4 SÉRIES DA EDITORA (RISING STARS ENTRE ELAS)

A Panini adotou uma política clara de diversificação de seus títulos. A nova aposta foi lançada nesta semana. São quatro minisséries da norte-americana Top Cow, editora criada pelo desenhista Marc Silvestri em 1992. O destaque é "Rising Stars" (capa dupla acima), do escritor J. Michael Straczynski.
 
"Rising Stars" (R$ 6,50) chegou às bancas nesta sexta-feira. É uma minissérie em cinco partes. O primeiro número traz material inédito. São apenas histórias curtas, que servem de prelúdio para a obra. Usar material novo -pelo menos neste início- foi a forma encontrada para atrair quem já teve contato com a série. Os oito primeiros capítulos do título foram publicados no Brasil há um ano e meio, num encadernado lançado pela Mythos (que, curiosamente, reedita o material agora para a Panini).
 
A série começa com um misteiroso clarão, que passou pela pequena cidade de Pederson. O fenômeno afetou a gestação de 113 crianças, que adquiriram poderes especiais. Todas são mantidas sob atento controle do governo (algo que o escritor retomou em Poder Supremo, da Marvel). As crianças cresceram e se adaptaram aos poderes, cada uma a seu modo. Até que os seres especiais começam a ser assassinados. É o mote da elogiada série, lançada no fim dos anos 90.
 
Uma curiosidade. A premissa de "Rising Stars" foi repetida anos depois no seriado "Smallville". No lugar de um clarão, há a chuva de meteoros que trouxe de Krypton o bebê Kal-El (o Super-Homem). Os meteoros conferiram poderes especiais aos moradores de Pequenópolis/Smallville.
 
Straczynski escreve outro título da Top Cow, também lançado nesta sexta-feira. "Midnight Nation" (R$ 6,50, capa ao lado) traz a segunda parceria do escritor com o desenhista Gary Frank (ambos trabalharam juntos em Poder Supremo e, agora, em Esquadrão Supremo). O mistério envolve o tenente David Grey. Ele é abatido por uma estranha entidade e fica no que é chamado de "plano intermediário", uma região entre a vida e a morte. Este início de série (são seis edições) mostra como ele chegou nesse plano de existência e, principalmente, começa a traçar as pistas do que ele tem de fazer para sair de lá.
 
Gary Frank assina o texto da terceira minissérie da Top Cow, "Kin - O Povo Perdido" (R$ 5,90), que começou a ser vendida na quarta-feira. O governo norte-americano (ele, de novo) descobre que o homem de neanderthal não está extinto, como se imaginava. Seria um povo altamente desenvolvido, a ponto de viver à margem dos demais seres humanos por séculos. São dois números, cada um com três histórias da série.
 
O último lançamento da Top Cow também será publicado em duas partes e é escrito por Warren Ellis. "Down - No Submundo do Crime" (R$ 5,50, capa ao lado) mostra a tarefa da policial Deanna Ransome: ela tem de se infiltrar numa facção criminosa e levar o líder de volta às autoridades. De volta porque o tal líder já foi um policial que também tinha a missão de se infiltrar na gangue. A diferença é que preferiu o mundo do crime.
 
A Top Cow foi criada em 1992 pelo desenhista Marc Silvestri. Ele e um grupo de artistas debandou da Marvel para criar a editora Image. Na época, Silvestri criou o título "Cyberforce", publicado no Brasil pela editora Globo na década de 90. Com o passar dos anos, a Top Cow passou a investir em tramas mais adultas. São dessa  fase as quatro minisséries que chegam nesta semana às bancas. É algo bem próximo ao que a Marvel fez e faz no selo Marvel Max.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h08
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05/10/2006

RECRUTA ZERO - ANO UM

ÁLBUM DE LUXO REÚNE PRIMEIRAS TIRAS DO PERSONAGEM

Edição de luxo, capa dura, 160 páginas, tamanho gigante (o mesmo de Príncipe Valente). Recebeu tratamento VIP o álbum "Recruta Zero - Ano Um", que começa a ser vendido hoje (Opera Graphica, R$ 79, capa acima).
 
O Blog dos Quadrinhos havia antecipado o lançamento na postagem do dia 11 de maio. A edição vai mostrar o primeiro ano de publicação do personagem, criado por Mort Walker. Vai da tira inaugural, de 11 de setembro de 1950, até o ano seguinte, quando ele entra no Exército (Zero era universitário nas primeiras histórias).
 
As tiras já tinham saído no Brasil em outras compilações. A diferença desta edição é que mostra o material na íntegra. As demais haviam feito apenas uma seleção de parte do acervo. A obra traz ainda páginas dominicais de Zero, publicadas entre julho de 1952 a julho de 1953, e textos com curiosidades sobre o recruta folgado e sempre com sono.
 
Abaixo, dois momentos da fase inicial de Zero: como universitário, antes de se tornar recruta do Exército, e com a farda que veste até hoje.

  

Escrito por PAULO RAMOS às 16h08
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02/10/2006

FLAVIO COLIN

TIRA DE LAERTE FEZ HOMENAGEM A DESENHISTA EM 2002

O lançamento de "O Curupira" (ver postagem abaixo) serve como uma última reverência a Flavio Colin. Última, mas não a única. O cartunista Laerte fez uma curta homenagem ao desenhista. Talvez tenha sido a mais curta homenagem. Foi em forma de tira, só que nada cômica. Foi publicada no jornal "Folha de S.Paulo" do dia 15 de agosto de 2002, dois dias depois da morte de Colin. O Blog dos Quadrinhos reproduziu a tira, que fala por si.
 
 

Escrito por PAULO RAMOS às 19h10
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O CURUPIRA

ÁLBUM É O ÚLTIMO TRABALHO INÉDITO DE FLAVIO COLIN

Pode haver vários motivos para ler "O Curupira", álbum que  chega hoje às lojas especializadas em quadrinhos (editora Pixel, R$ 29,90; nas livrarias, demora um pouco mais para chegar). Mas um se sobrepõe aos demais: é o último trabalho inédito de Flavio Colin. Isso dá à obra um tom de despedida, de saudosismo e de reavalização do papel do quadrinho nacional, a grande bandeira defendida pelo desenhista, morto em 13 de agosto de 2002.
 
Colin era um radical. O adjetivo não tem um verniz pejorativo. O radicalismo era a manifestação de um objetivo: valorizar a produção nacional. Chegou a criar na década de 80 um personagem chamado Copyright Kid, caubói que lutaria contra o sistema de venda de tiras estrangeiras aos grandes jornais a preços baixos. Como competir? É aí que entraria o Copyright Kid.
 
O tema acompanhou a carreira de Colin. Dois casos ilustram a premissa. Na década de 60, ele e um grupo de desenhistas quase aprovaram uma lei que previa dois terços de reserva para o quadrinho nacional. Ficou no quase. Outro exemplo é um "causo" sobre o artista carioca. Ele se negava a fazer a arte para personagens estrangeiros, principalmente se fossem super-heróis. Podia ser o Super-Homem. Quem ganharia a briga seria o seu brasileiro Copyright Kid.
 
"O Curupira" tem muito de Colin. Não no traço, evidentemente, nem na lenda folclórica que inspirou a história (a tradição oral brasileira conta que o curupira é um índio que tem os pés virados para trás). O ilustrador colocou na criatura sua voz de protesto e de defesa dos temas nacionais. O Curupira deste álbum lançado hoje é um ferrenho defensor das nossas florestas. Expulsa caçadores de animais (só caça se for um, e pra comer!), luta contra a poluição dos rios, inibe a extração ilegal, lamenta a mata queimada (veja na imagem ao lado).
 
O tema da preservação cai como uma luva para o leitor infantil, provável público imaginado por Colin. Mas é um puxão de orelha danado nos mais grandinhos. Duplo puxão, aliás. Faz rever a preservação ambiental e discute o papel do Brasil nesse processo. Coisa de artista do porte dele. Mesmo morto, ainda fala. E incomoda.
 
A arte de Colin, neste trabalho derradeiro, é a mesma de outras obras. Julio Shimamoto, em citação na introdução do álbum, é preciso na definição do peculiar traço do desenhista. "O traço dele era uma simbiose rara, ficava a meio caminho do humor e do drama". "O Curupira" é um caso assim. O desenho caricato e único é lido da maneira mais séria possível. Pena que a fonte esgotou.
 
Nota: o tema ambiental abordado em "O Curupira" já foi trabalhado por Colin em outras obras. Duas foram lançadas pela editora Opera Graphica poucos meses após sua morte: "Filho do urso e outras histórias" (2002; a edição traz um texto sobre Colin, escrito pelo jornalista Gonçalo Junior, que merece leitura) e "Mapinguari e outras histórias" (2003). Os dois álbuns ainda são encontrados em lojas especializadas em quadrinhos.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h02
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