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29/09/2006
NEKOMAJIN
MANGÁ DE TORIYAMA SATIRIZA DRAGON BALL (DE TORIYAMA)
Akira Toriyama fez uma dupla volta ao passado em "Nekomajin", mangá que chegou às bancas nesta semana (Conrad, R$ 24,90). O desenhista japonês resgatou o humor simples e ingênuo que fazia em seus primeiros trabalhos. E trouxe de volta os personagens de Dragon Ball, sua criação mais conhecida. A curiosidade é que Toryiama satiriza o próprio Toryiama, o que dá um tom de non-sense à edição.
Dragon Ball está presente na obra de duas formas. A primeira é nas referências explícitas. Estão lá Son Goku, Majin Buu, Freeza e Vegeta (personagens de Dragon Ball). É tão assumida a relação de intertextualidade que o escritor-desenhista se dirige em vários momentos ao leitor novato, que nunca ouviu falar da série, e provoca: se você não está entendendo nada é porque não leu Dragon Ball (veja algo assim na imagem abaixo).
A outra semelhança está na essência da história, lançada entre 1999 e 2005. Uma raça diferente de gatos, conhecida como Nekomajin, possui dons mágicos e a prática das artes marciais. O personagem-título vira um supersayajin e domina o golpe do Nekohamehá (paródia ao Kamehamehá de Son Goku, protagonista de Dragon Ball). Outro ponto em comum é a passagem de tempo. Há uma espécie de Nekomajin Z. Os anos avançam porque Nekomajin dormiu muito (mais de três décadas).
O método de fazer os anos passarem é ironia pura. É algo aparentemente ingênuo e bobo. Mas o humor vem exatamente disso, algo difícil de ser feito. Muito é centrado nos diálogos do personagem Nekomajin, grande, gordo, folgado e com o dom de falar a frase errada para a pessoa errada na hora errada. É daí que vem a graça e boa parte do interesse pelo mangá, algo que o autor fazia muito em "Dr. Slump", série que desenhou no começo dos anos 80 (parte das histórias saiu no Brasil).
Ao reencontrar um amigo de infância, tão reconhudo quanto ele, Nekomajin comenta: "você tá gordo, hein?". No começo da história, ele "toma emprestada" a moto de um homem. O dono pede o veículo de volta. E tem de ouvir: "se gostou tanto, posso vender baratinho para você". Outra situação é quando vai enfrentar um dos vilões, numa daquelas cenas clássicas de luta de Dragon Ball. No momento de maior tensão, Nakomajin solta um pum. Desmonta o vilão, que perde toda a vontade de lutar. É o protótipo do "sem-noção".
O interessante seria (re)ler Dragon Ball antes de partir para Nekomajin, lançado nesta semana. Mas não é algo obrigatório. Pelo contrário. Para quem nunca leu mangá, é um bom começo. Vai ver uma história engraçadíssima, com diálogos impertinentes, daqueles que só crianças fazem. E vai ver um afiado Akira Toryiama extraindo as últimas gotas de sua maior criação. Para os fãs de Dragon Ball, não haveria apêndice melhor.
Escrito por PAULO RAMOS às 13h59
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20/09/2006
NÍQUEL NÁUSEA
FERNANDO GONSALES LANÇA NOVA COLETÂNEA DE TIRAS

Até uns dez, quinze anos atrás, qual era a trajetória de publicação de uma tira? Ela saía primeiro nos cadernos de cultura dos jornais e, depois de um tempo, o material era compilado numa revista ou álbum. Hoje, é fato, a internet mudou parte dessa relação. Mesmo assim, alguns autores não deixam de lado o esquema tradicional. Um deles é Fernando Gonsales, que lança mais uma coletânea de tiras.
"Níquel Náusea - Tédio no Chiqueiro" (Devir, R$ 26) começa a ser vendido hoje. O álbum reúne 225 tiras, que saíram há sete anos no jornal "Folha de S.Paulo". O desenhista conta que a publicação segue uma ordem cronológica. Começa onde terminou o álbum anterior. Só elimina as que "não funcionam mais". "As que eu não gosto eu tiro", diz. Em alguns casos, teve de fazer sutis adaptações para atualizar informações do texto.
Gonsales vê diferença na leitura das tiras nos jornais e nas compilações. Nestas, o leitor acompanha tudo de uma só vez, o que pode chamar a atenção para estratégias repetidas para provocar o humor (algo que passaria despercebido na leitura diária). "No álbum, as fórmulas ficam mais evidentes. A sensação é de repetição. Às vezes, tem de dar uma editada [para afastar um tira da outra]".
Gonsales mantém uma página virtual com histórias de Níquel Náusea e companhia. Não é um autor avesso a novidades. Mas seu humor é daqueles tradicionais, bem aos moldes das tiras norte-americanas mais clássicas. "As tiras nacionais caminham para uma coisa mais introspectiva, mais pessoal. Acho que o legal é a diversidade. As tiras americanas têm uma maneira rígida de ser. É mais ou menos o que eu sigo", diz.
A tira cômica possui uma estratégia própria para provocar o humor. A exemplo de uma piada, tem de criar um desfecho inesperado. A surpresa provoca o riso. Gonsales diz que não se espelha numa piada para criar a dose diária de Níquel Náusea. "Às vezes nem é uma piada. Mas é uma situação minimamente engraçada".
Gonsales sabe o que cria. Talvez seja o desenhista brasileiro que mais domina o chamado "mundo animal", tema da maioria das tiras que cria. É veterinário formado pela Universidade de São Paulo. Foi nas aulas da USP que ensaiou os primeiros desenhos. Chegou a trabalhar na área. Um ano. Largou por causa das ilustrações. A primeira tira de Níquel Náusea saiu na Folha de S.Paulo em 1985, quando Gonsales venceu um concurso de novos talentos promovido pelo jornal paulista. Está lá desde então.
Este "Tédio no Chiqueiro" é o sexto álbum de Níquel Náusea lançado pela editora Devir. O primeiro foi "Com Mil Demônios!". Depois, vieram "Botando os Bofes de Fora", "Nem Tudo Que Balança Cai", "Vá Pentear Macacos" e "A Perereca da Vizinha".
Para encerrar: a tira abaixo e também a que abre a postagem fazem parte do álbum lançado hoje.
Escrito por PAULO RAMOS às 06h33
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15/09/2006
INCAL 2
SAI 2º VOLUME DA SÉRIE CRIADA POR JODOROWSKY E MOEBIUS
Há algo diferente neste segundo número de Incal, obra de Alexandro Jodorowsky e Moebius que começa a ser vendida hoje ("Incal, volume 2 – O que está embaixo & o que está em cima", Devir, R$ 45). O tom é de uma filosofia espacial futurista, se é que o termo existe. Os protagonistas da série deixam de se preocupar apenas com o futuro do planeta, foco do primeiro álbum. A preocupação, agora, é com o destino da galáxia. O Sol está prestes a ser condenado. E a entidade política Assembléia Humana sofre um golpe de Estado.
Na introdução do álbum, o escritor Jodorowsky conta que a idéia era essa mesmo. Como um novelo sendo desenrolado, parte de uma ponta e vai puxando o fio, até ele envolver todo o espaço. "O que tentei fazer com o Incal –ou, melhor, o que eu fiz, já que a série terminou- foi criar uma história de ficção-científica que começa com um pequeno e aparentemente insignificante evento, que se desenvolve até adquirir enormes proporções cósmicas. O isolado, e quase particular, conflito do início se transforma numa rebelião planetária, que, em seguida, vira uma guerra galática e isso tudo termina com o destino do universo sendo colocado em perigo!"
A mudança constante no tom da história também foi previamente pensada. "Isso ocorre porque acredito que a vida é feita de uma série de mudanças e evoluções perpétuas". Há a transposição da trama para a galáxia (o que não deixa de ser uma mudança). Mas há outras. Duas dessas metamorfoses são visuais. A cor acompanha o momento da história escrito por Jodorowsky. O mérito da idéia, no entanto, é de Moebius, desenhista que criou um estilo de arte, detalhada e com idéias vanguardistas, que é seguido na Europa até hoje.
A outra alteração visual está na figura do protagonista Jonh Difool. Ele continua um "detetive particular de classe R", como no primeiro volume, lançado no começo de março deste ano (ver postagem do dia 09.05). Mas seu corpo muda e se torna altivo, belo e elegante quando ele entra em contato com o Incal, entidade poderosa da qual Difool é um dos guardiões e hospedeiro. Nesta edição, é revelado o motivo de ser ele o escolhido para a função.
"Incal" foi publicado originalmente em capítulos na francesa "Metal Hurlant". A primeira história saiu em 1980, no número 58 da revista alternativa, que inspirou a criação da norte-americana "Heavy Metal". Foi na revista francesa que começou a adquirir o prestígio que envolve a série até hoje. É tida como um dos clássicos dos quadrinhos, por mérito e por influência a outras obras, européias e não-européias, que foram criadas nas décadas seguintes.
Este segundo volume de Incal é uma leitura difícil, até para quem já teve contato com o primeiro volume. É preciso ler de maneira mais pausada, para absorver e relacionar todas as informações. Mas isso não desmerece a obra em nada. É só um elemento a mais a justificar sua importância.
Escrito por PAULO RAMOS às 08h37
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08/09/2006
LAMPIÃO X LANCELOTE
LIVRO MISTURA CORDEL COM ARTE FEITA EM CARIMBO
Há uma fronteira que separa os quadrinhos das outras formas de arte. Mas é uma fronteira tênue, sujeita à turbulência criativa dos ilustradores. Um caso assim é "Lampião & Lancelote", inusitado encontro idealizado pelo artista plástico Fernando Vilela (Cosac Naify, R$ 49). Não é uma história em quadrinhos propriamente dita. Também não é uma obra literária. É um pouco das duas linguagens, e, ao mesmo tempo, nenhuma das duas.
"A obra se aproxima dos quadrinhos porque é uma narrativa", diz Vilela. "Mas acho que ´livro ilustrado´ é o nome mais adequado". A falta de um rótulo é sentida nas livrarias também. É vendida nas mais diferentes seções, de histórias em quadrinhos a literatura infanto-juvenil.
O que torna o livro tão peculiar? É o método usado pelo artista plástico paulistano, que já tem um histórico de exposições de arte no Brasil e no exterior. Ele ilustra a obra com imagens feitas a partir de carimbos, criados por ele mesmo. "Vou desenhando carimbando", brinca. A brincadeira, no entanto, resume todo o método artesanal de criação. Faz o desenho numa borracha. Depois, coloca uma almofada no contorno e está feito o carimbo. "Para cada desenho, faço várias gravuras dessa".
Cada página é um show de carimbos sobrepostos. Como na cena da luta entre o cangaceiro Lampião e Lancelote, personagem mítico da Távola Redonda (veja na imagem ao lado). O resultado final ofusca a leitura, dada a plasticidade das ilustrações. A cor, outro elemento que ganha sentido na obra, é usada para marcar os mundos dos dois protagonistas. O preto e o prata predominam nas imagens de Lancelote (simbolizam o metal); o preto e o cobre representam a vida de Lampião (a cor alude as moedas de ouro, usadas por ele). Na imagem da luta, confundem-se, como num palco de guerra.
A idéia de um encontro entre os dois personagens surgiu há dois anos e meio. Vilela tem trabalhado no projeto desde então. Parte do tempo foi investido no processo de ilustração. Outra parte, em pesquisa. Estudou cordéis e obras literárias sobre as duas figuras. As leituras influenciaram no texto que acompanha os desenhos. Fez a primeira e a última parte da narrativa em forma de cordel. Só o miolo é em prosa. "O que predomina é o cordel, já que o duelo se passa no Nordeste".
É a primeira obra completa de Fernando Vilela. Até então, havia feito ilustrações para livros de outros autores. Já tem programado um segundo encontro de Lampião. Só não revela com quem será. Essa obra, a exemplo de "Lampião & Lancelote", pode não ser uma história em quadrinhos. Mas é dos quadrinhos que vêm parte da influência de seu trabalho. Já leu tudo o que foi publicado de Frank Miller. E admite que há algo de Bill Sienkiewcz. Fazer quadrinhos? "Acho que um dia vou fazer", diz.
Leia na postagem abaixo um trecho da obra e outras imagens do livro ilustrado.
Nota: Fernando Vilela mantém uma página na internet. Lá, há outras imagens da obra e alguns de seus trabalhos em artes plásticas. O endereço é
Escrito por PAULO RAMOS às 08h37
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LAMPIÃO X LANCELOTE: TRECHO DA OBRA
O texto e as imagens a seguir são criação do artista plástico Fernando Vilela. Fazem parte do livro ilustrado "Lampião & Lancelote" (leia na postagem acima).

Meu povo peço licença / Para lhes apresentar / O primeiro personagem / Que vai desfilar / Bom e nobre cavaleiro / Valoroso e altaneiro / Passa a vida a galopar

Agora eu lhes apresento / Um grande cangaceiro / Nascido em nosso país / Leal e bom companheiro / Para uns foi criminoso / Para outros justiceiro
Escrito por PAULO RAMOS às 08h33
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