30/08/2006

TIRAS DE BOLSO

EDITORA LANÇA POCKETS DE PIRATAS, GERALDÃO E PATO

A editora gaúcha L&PM tinha uma tradição de publicar quadrinhos nos anos 80. Muitos dos álbuns eram com personagens nacionais. A década de 90 indicava que empresa não ia mais apostar no filão. Só que a aceitação da coleção pocket -edições em formato de livro de bolso- estimulou a editora a investir novamente em autores brasileiros (como mostrado em postagem do dia 26 de junho). Nesta virada de semana, chegaram às livrarias três títulos: "Geraldão - Edipão, Surfistão & Gravidão" (R$ 9), "Piratas do Tietê 2 - Histórias de Pavio Curto" (R$ 9) e "Pagando o Pato" (R$ 8).
 
O Pato, de Ciça, foi uma das tiras mais politizadas do país nos anos 70 e 80. A autora fazia dos animais uma metáfora do regime militar brasileiro. As formigas, por exemplo, tinham uma rainha, que sempre usava um porta-voz para se comunicar com os "reles" súditos (= o povo). É um importante registro de época.
 
A ditadura datou muitas das histórias do Pato. Mas Ciça soube se reciclar. Incluiu temas mais "democráticos" nas tiras, que são publicadas atualmente no "Jornal do Brasil", do Rio de Janeiro. Os personagens falam agora sobre os sem-terra, inflação, corrupção. É dessa fase o material da L&PM. A paulistana Ciça -ou Cecília Whitaker Vicente de Azevedo Alves Pinto- publicou uma outra coletânea de seus personagens em 1986. Saiu pela Circo Editorial. Era uma edição maior e mais completa do que o livro de bolso da L&PM. A capa, curiosamente, era a mesma.
 
"Geraldão - Edipão, Surfistão & Gravidão" mostra tiras do personagem-título, que saem na "Folha de S.Paulo" desde os anos 80. A edição traz histórias de Geraldão e de outras duas criações de Glauco: Casal Neuras e Van Grogue. Não são muitas tiras. Mas são suficientes para mostrar como o cartunista ajudou a tornar mais adulto o humor diário nos cadernos de cultura dos jornais brasileiros, em especial o da Folha.
 
Uma prova disso é a cueca de Geraldão. Explico. O leitor vai reparar que, neste primeiro número, o personagem com complexo de Édipo segura a cueca com uma das mãos. Ela ameaça, mas nunca cai. Anos depois, num contexto mais "liberal", criador e criatura assumiram a queda da peça íntima. Hoje, o Geraldão é publicado diariamente com tudo à mostra. Vale um estudo: observar a evolução de Geraldão sob a ótica da liberdade de expressão. O que mudou com o passar dos anos? Os meios de comunicação ficaram mais ousados no trato com as tiras ou a sociedade passou a aceitar melhor determinadas condutas?Ou as duas coisas? Geraldão é reflexo de tudo isso, independentemente da respostas.
 
A idéia do estudo vale também para Laerte e seus "Piratas do Tietê 2 - Histórias de Pavio Curto". A exemplo do número anterior, lançado em junho, é uma coletânea de histórias que saíram na "Folha de S.Paulo". Ao lado de "Chiclete com Banana", de Angeli, foi por anos uma das tiras mais urbanas do país. Serviu para influenciar muitas das tiras publicadas atualmente.
 
Piratas são de uma fase de Laerte em que ele impunha um humor mais agressivo. E violento, afinal, eram piratas. Também vale como comparação para as histórias que ele cria hoje na Folha. Possuem o mesmo rótulo no título: "Piratas do Tietê". Mas os piratas sumiram. Há muito tempo. Restou um humor diferente, mais introspectivo, mais filosófico, quase um novo gênero de tira. Os velhos personagens ficaram só no pocket.
 
A L&PM pretende publicar outras obras nacionais ainda neste semestre. A maioria é de Glauco. A editora também editou álbuns com tiras estrangeiras, caso de Recruta Zero, Hagar e Garfield.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h07
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23/08/2006

GEMMA BOVERY

AUTORA INGLESA FAZ LITERATURA E(M) QUADRINHOS

A fronteira que separa quadrinhos e literatura sempre foi tênue. Há quem defenda que não existe diferença entre os dois. Outros, mais radicais, propõem que os quadrinhos são a literatura definitiva, modernizada para uma nova época, mais dependente do elemento visual na composição do texto. De uns anos para cá, surgiram pesquisas –poucas ainda, é verdade- mais conciliatórias. Uma delas, de autoria de Daniele Barbieri (“El lenguaje del cómic”), defende que os quadrinhos já compõem uma linguagem autônoma. Mas não deixam de receber influência de outros “ambientes” (como o autor chama), como a literatura, o teatro e o cinema.

Um álbum - que começa a ser vendido hoje nas livrarias e lojas especializadas em quadrinhos- reforça ao extremo o ponto de vista de Barbieri. “Gemma Bovery” (Conrad, R$ 38,90) é uma história em quadrinhos contada na linguagem da literatura. Aquela linha que separa os dois ambientes se torna fina demais, a ponto de a pessoa se questionar o que está lendo. Há o texto, tal qual um romance. Só que a narrativa é cortada por alguns quadros (com personagens e balões), que acrescentam informações à narrativa.

“Lobo Alpha”, um álbum brasileiro lançado neste ano, usou o mesmo recurso (ver postagem do dia 14 de junho). Foi feito por dois autores. Helena Gomes escrevia a história que, em determinados momentos, tinha cortes visuais, desenhados por Alexandre Barbosa. “Gemma Bovery” vai além. A estratégia de intercalar ora literatura, ora quadrinhos, é feita em todas as páginas. E mais de uma vez.

 

A inglesa Posy Simmonds, autora de “Gemma Bovery”, consegue questionar a fronteira existente entre as duas linguagens ao mesmo tempo em que brinca com ela, como se a dominasse por completo. A mescla é intencional e faz parte também da composição da história. Há uma intertextualidade (uso explícito ou implícito de elementos de um texto em outro) declarada com o romance “Madame Bovary”, do francês Gustave Flaubert. As semelhanças começam com a proximidade sonora entre os nomes: Gemma Bovery/Emma Bovary. A protagonista do álbum de Simmonds vive em Bailleville e é casada com Charlie Bovery. No romance de Flaubert, a protagonista mora em Yonville e é casada com Charles Bovary, representado como um homem ingênuo e ao mesmo tempo ridículo. Algo semelhante ocorre em “Gemma Bovery”.

 

Os nomes são as semelhanças mais superficiais e intencionalmente óbvias. A intertextualidade avança e se aprofunda na trama do romance de Flaubert, obra tida como marco a literatura realista. É exatamente o tom realista, que ridiculariza para o leitor elementos do mundo real, que pauta também o trabalho de Simmonds. As duas protagonistas vivem a mesma historia, só que em momentos históricos diferentes. Ambas estão desgostosas da vida que levam, bem como do marido. As duas, Gemma e Emma, mantêm casos extraconjugais e, por causa deles, contraem dívidas, que não podem pagar.

 

Em determinado momento, os personagens fazem a mesma pergunta que o leitor tem em mente: as duas protagonistas teriam também o mesmo fim? Gemma é alertada por um amigo das semelhanças, tanto que ganha dele, de presente, um exemplar de “Madame Bovary”, explicitando para quem lê o último resquício de intertextualidade. Falar mais pode estragar o desfecho da trama. Das duas tramas, para quem não leu a obra clássica de Flaubert.

 

Posy Simmonds –ou Rosemary Elizabeth Simmonds- atualmente faz uma tira no jornal inglês “The Guardian”. Começou a carreira no fim dos anos 60 e tem, desde então, acumulado prêmios e diversificado a carreira. Parte do que se lê em “Gemma Bovery” advém da experiência com livros infantis. Mas não se engane. O álbum lançado hoje de pueril não tem nada. A obra faz um convite ao leitor adulto para que acione todas as informações que guarda na mente sobre duas linguagens que ele supostamente conhece, a dos quadrinhos e a literária. E faz a pessoa questionar esses conhecimentos. Será literatura? Serão quadrinhos? Seriam as duas linguagens? É a fronteira que separa os dois ambientes em xeque.

A editora Conrad colocou em seu site o primeiro capítulo de “Gemma Bovery”. Para ler, clique aqui

Escrito por PAULO RAMOS às 09h26
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19/08/2006

CAIM

ÁLBUM ARGENTINO TRAZ DESENHOS DE EDUARDO RISSO

Este ano se torna definitivamente um dos mais ecléticos em termos de lançamentos de quadrinhos. As editoras nacionais não miram mais seus alvos apenas nos Estados Unidos e Japão. Estão de olho em outros mercados também. Nesta virada de semana, chega às bancas um álbum argentino, "Caim" (Mythos, R$ 19,90). A edição é escrita por Ricardo Barreiro e desenhada pelo premiado Eduardo Risso.
 
O leitor vai comprar a obra por causa da arte de Risso. Ele é o chamariz do título e o que levou a editora Mythos a publicar no Brasil um título argentino (em tese, de pouco apelo comercial). Apesar de ter ilustrado histórias na Argentina por quase duas décadas, fez fama nos Estados Unidos. O sucesso veio com a série "100 Balas", publicada por aqui pela Opera Graphica. O trabalho rendeu a ele, em 2001, o prestigiado prêmio Eisner na categoria de melhor desenhista. Risso ainda trabalha na revista.
 
O mesmo leitor que levar para casa o álbum por causa da arte vai ler a história de um menino, abandonado ainda bebê. Como o abandono não deve ter ocorrido por um bom motivo, foi batizado de Caim pelas pessoas que o acharam (referência ao personagem bíblico). O tempo tornou o garoto um hábil ladrão, atividade que o leva a um reformatório (onde permaneceria até atingir a maioridade). A vida do confinamento e a uma rebelião fazem o menino tornar-se homem e querer vingança daqueles que o trataram mal.
 
Aparentemente, é mais uma história de vingança como tantas outras. Mas só aparentemente. É uma história de Ricardo Barreiro, o que significa muito. O roteirista pode ser desconhecido dos brasileiros, mas é muito (re)conhecido na Argentina e Europa. Começou a mexer com quadrinhos na década de 70. Em 78, a ditadura o levou ao exílio. Morou na Espanha, França, Itália, sempre trabalhando na área. Voltou a produzir quadrinhos na Argentina na década de 80 na revista "Fierro" (espécie de "Heavy Metal" ou "Metal Hurlant"). Foi lá que surgiram em 1988 os capítulos de "Caim", agora compilados neste álbum.
 
Barreiro e Risso tiveram outra parceria, também na "Fierro": "Parche Chas". Sabe-se pouco da obra. Mas, do pouco que se sabe, é possível que seja superior a "Caim". Agradou tanto que os autores fizeram uma continuação. Talvez os dois fizessem outros projetos juntos. O tempo se encarregou de pôr fim à parceria. Barreiro morreu em 1999, aos 49 anos.
 
O sucesso de Risso fez o mercado internacional voltar os olhos para tudo o que o desenhista fez. Suas obras foram compiladas e lançadas para o mundo. Esta edição que a Mythos publica não vem da Argentina, vem da SAF (Strip Art Features), empresa criada em 1972 e que, hoje, tem sede na Eslovênia. A aceitação de "Caim" pode abrir espaço para outros materias de Risso, como "Parche Chas". E, quem sabe, seja o início de um intercâmbio tardio entre os países integrantes do Mercosul. Intercâmbio que tem muito material para se pautar. Material bom, mesmo sem o questionável aval do mercado norte-americano.

Escrito por PAULO RAMOS às 09h17
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12/08/2006

CONTAGEM REGRESSIVA PARA CRISE INFINITA

Uma das primeiras medidas de Dan Didio ao assumir o comando editorial da DC Comics foi marcar uma reunião com seus escritores de maior destaque. O encontro teria juntado Geoff Johns (Flash e Sociedade da Justiça), Judd Winick (Arqueiro Verde e, naquela época, Lanterna Verde), Greg Rucka (Batman, Gotham City Contra o Crime) e Jeph Loeb (do popular Superman & Batman). Perguntou a eles: que história vocês gostariam de contar. Não se sabe exatamente de quem foi a idéia, mas foi nesse encontro que começou o projeto "Crise Infinita", megassaga que o leitor brasileiro começa a tomar contato. A minissérie que serve de prelúdio para a grande crise chega às bancas nesta virada de semana ("Contagem Regressiva para Crise Infinita", Panini, R$ 8,90).
 
Da concepção à saga final foram três anos. A partir de 2002 (nos Estados Unidos), os escritores começaram a inserir dicas nas histórias que produziam. Patrocinaram a morte de personagens centrais (Donna Troy, que volta agora, e Besouro Azul), o surgimento de novos heróis (como um clone de Metamorfo, para citar um caso), o afastamento intencional de criações secundárias (Sasha Bordeaux, que manteve um relacionamento com Bruce Wayne/Batman), carregaram em presságios do tipo "haverá um crise" e "o futuro será turbulento". Tudo ficava aparentemente solto na cabeça do leitor. O tecido, agora, começa a ganhar costura.
 
A saga tem um mérito: foi planejada. Esse foi o grande acerto da DC Comics. As mudanças desta crise não ocorreriam só para criar um megaevento que aumentasse as vendas. Ocorreriam a partir da proposta de criar uma boa história. Começaria com a edição solo "Dia de Julgamento" (que traz a morte de Donna Troy). Depois, viriam a minissérie "Crise de Identidade" (de Brad Meltzer) e os prelúdios nas edições mensais até a publicação de "Contagem Regressiva para Crise Infinita - Edição Especial", em que as várias pontas começavam a ser ligadas (ver postage do dia 12 de julho). Essa edição daria vida a quatro novas minisséries,  que aparariam o terreno até "Crise Infinita".
 
O que sai agora no Brasil são exatatamente as quatro minisséries. Elas saíram originalmente em seis números mensais e foram publicadas simultaneamente. A Panini optou por reunir todas numa grande minissérie, também em seis edições. "Vilões Unidos" mostra a estratégia de Lex Luthor de reunir os supervilões para acabar com os heróis. "Dia de Julgamento" trabalha os personagens místicos e mágicos da editora. Espectro, um dos seres mais poderosos da franquia, fica fora de controle. "Guerra Rann/Thanagar" mostra o que o título diz: uma guerra entre os dois planetas. Aborda o filão espacial da DC Comics e tem como destaque os desenhos do brasileiro Ivan Reis (o ilustrador parece cada vez mais seguro e à vontade na função de ilustrar as estrelas da editora). A quarta minissérie é o destaque. "Projeto OMAC" coloca o foco na agência de espionagem Xeque-Mate, que já tinha trabalhado para o lado do "bem" e agora ganha ares mais negros. Foi o chefe da agência que assassinou o Besouro Azul (história já mostrada no Brasil na edição especial de Crise Infinita). A trama começa nos momentos seguintes ao assassinato.
 
A vantagem de OMAC em relação às outras três minis é o texto de Greg Rucka, um dos participantes da reunião com Didio. Ele não é tão festejado pelos leitores quanto seus colegas, mas, de todos, é o que mais sabe conduzir uma história. Ele mescla momentos emocionais (sabe usar muito bem a técnica do silêncio) com diálogos nem um pouco superficiais. Rucka parece se sentir em casa com enredos de suspense ou mistério. Basta ver o que fez com "Gotham City contra o Crime" (a Panini já publicou dois volumes da premiada série sobre os detetives de Gotham City). Em OMAC, o mistério é a essência da trama.
 
Batman criou uma espécie de satélite -o OMAC-, que observa todos os superseres do planeta. O Xeque-Mate consegue controlar o sistema e passa a ter acesso a todas as informações, bem como as identidades secretas dos heróis. O olho do OMAC vê tudo sem que ninguém o veja. A referência é ao Big Brother? Não, a referência é à obra que inspirou o reallity show, "1984", de George Orwell, em que o governo consegue ter controle sobre todos com o auxílio do Grande Irmão. Não é por acaso que Batman se refere ao equipamento como "irmão" (veja na imagem ao lado).
 
A DC Comics já errou muito criando megaeventos para vender revistas. O Batman tendo a coluna quebrada pelo vilão Bane e passando o manto para um susbtituto, Azrael, é apenas um dos exemplos. No fim, tudo voltava ao que era antes. A fórmula foi tão usada que se desgastou. "Crise Infinita" mostra um amadurecimento editorial. É um projeto planejado, inspirado nos acertos do megaevento que mais funcionou na história da editora, "Crise nas Infinitas Terras" (lançado na década de 80 e ainda superior a este publicado agora). E aí que a DC acerta. Mudanças são lentas e graduais, e não abruptas, como a rival Marvel vem fazendo (recentemente, o Homem-Aranha revelou sua identidade secreta ao mundo). A Marvel repete, hoje, os erros da DC no passado.
 
Post postagem: os colegas do HQManiacs descobriram um site em que é possível ler, de graça, o primeiro número da minissérie "52", que deu seqüência aos eventos de "Crise Infinita" (o projeto crise ainda não terminou nos Estados Unidos). Vale conferir, mas aviso antes: vai estragar muitas surpresas para quem não acompanhou Crise. Para acessar, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h55
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