16/07/2006

SEMANA ABARROTADA DE LANÇAMENTOS

Esta semana começa com uma série de lançamentos, todos de destaque. É raro haver tantas obras relevantes chegando de uma só vez às bancas e livrarias. Os títulos vão desde clássicos dos quadrinhos, como Tintin, até histórias nacionais, caso de Ozzy, do cartunista Angeli. Confira:

O Cetro de Ottokar / O Caranguejo das Pinças de Ouro (R$ 34,50 cada um) – São dois álbuns com aventuras de Tintin, relançados pela Companhia das Letras (a informação tinha sido antecipada em postagem do dia 23 de maio). A editora pretende republicar em ordem cronológica todas as histórias do jovem repórter, criado por Herge em 1929. Em dezembro, programou mais três volumes: "A Estrela Misteriosa", O Segredo do Licorne" e "O Tesouro de Rackham, o Terrível". Entre os lançamentos, destaque para o encontro de Tintin com o Capitão Haddock, em "O Caranguejo das Pinças de Ouro".

Ozzy 1 – Caramba! Mas que garoto Rabugento! / Ozzy 2 Tirex e mais uma cambada de bichos de estimação (R$ 24 cada um) – Outros dois lançamentos da Companhia das Letras, que confirma o interesse da editora na publicação de quadrinhos nacionais (a exemplo do premiado "Santô e os Pais da Aviação", de Spacca). Ozzy é a versão infantil dos tipos urbanos criados por Angeli. O visual do personagem comprova. As histórias foram publicadas na "Folha de S.Paulo" entre 1993 e 1999 e eram voltadas para crianças. Talvez por isso, Angeli usa e abusa dos recursos gráficos. É um dos trabalhos dele mais criativos em termos visuais. Dois novos números foram programados para novembro.

Adolf – Volume 2 (R$ 27,90) – Continuação da história criada por Osamu Tezuka, tido como o pai dos quadrinhos japoneses. Conta a trajetória de três pessoas chamadas Adolf (um deles o próprio Hitler). A trama é vivida e narrada pelo repórter Sohei Toge. É por meio dele que Tezuka mostra o desenrolar do mistério que envolve os bastidores do partido nazista. É um dos trabalhos mais autores do artista japonês. Um exercício de como fazer uma boa quadrinhos. O primeiro volume foi lançado no começo de maio (ver postagem do dia 03.05). A edição é da Conrad.

Nausicaa do Vale do Vento – Volume 1 (R$ 29,90) – Outro mangá lançado pela Conrad, editora que tem se especializado no gênero. A história, um conto fantástico, em si já se sustenta. Mas o destaque da obra é o autor, Hayao Miyazaki. É o mesmo do desenho japonês "A Viagem de Chihiro", muito conhecido aqui no Brasil.

Y – O Último Homem (R$ 56) – Todos os homens do mundo morrem na mesma hora. Sobram apenas as mulheres e o escapista Yorick Brown, o único representante do sexo masculino. A trama parte dessa premissa e mescla elementos de histórias sobre o fim do mundo com algo do seriado "Lost". Há um mistério, resta desvendá-lo. Brian K. Vaughan cria um roteiro intrigante neste primeiro arco, publicado originalmente na Vertigo (selo adulto da DC Comics). O escritor iria se superar, anos depois, com Ex-Machina, lançado pela Panini. A versão nacional de "Y- O Último Homem" tem acabamento de luxo (capa dura, papel especial), política adotada pela Opera Graphica para suas edições.

Os Maiores Clássicos do Quarteto Fantástico – Volume 2 (R$ 24,90) – Mostra nove histórias do grupo criado por Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel Comics. Reúne a fase desenvolvida pelo escritor e desenhista John Byrne, nos anos 80. Era a época áurea de Byrne nos quadrinhos norte-americanos. Anos depois, foi convidado a reescrever a origem do Super-Homem para a concorrente DC Comics. No Quarteto, criou uma das melhores fases dos heróis. Esta edição da Panini tinha sido agendada para o primeiro trimestre e foi reprogramada para junho. Chega às bancas neste começo de julho.

XIII – Número 2 (R$ 22,90) – Dá seqüência à história do Agente XIII, desmemoriado e perseguido. Tem um pouco de "O Fugitivo", tem outro tanto de "A identidade Bourne". Esta edição reúne os números três e quatro da revista, publicada pela francesa Dargaud (leia na postagem do dia 28 de junho). Ao lado de "Aldebaran", do brasileiro Leo, é o segundo título europeu da Panini. A editora italiana está em franca expansão. Anunciou hoje que fechou contrato com a Virgin Comics, com sede na Índia. O acordo deve trazer ao Brasil mais títulos fora do circuito Estados Unidos/Japão.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h12
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12/07/2006

A ESTRATÉGIA PARA MANTER O RISO DENTRO DA CRISE

Há um lado positivo no atraso do lançamento de dois dos títulos da editora Panini. Ambos chegaram às bancas no mesmo dia (hoje), o que permite ao leitor fazer uma ordem de leitura diferente da programada inicialmente. É mais lógico acompanhar primeiro "Não acredito que não é a Liga da Justiça" (DC Especial 10, R$ 14,90, anunciada para junho) e, na seqüência, "Contagem regressiva para crise infinita – Edição Especial" (R$ 8,90, programada inicialmente para maio). O contrário pode matar algumas surpresas.

O ar de mistério marca as duas edições. Ou melhor: as capas das duas obras. Na edição especial de crise infinita (imagem da capa ao lado), Batman segura nos braços um dos personagens da DC Comics, morto. Muita gente sabe quem é desde o ano passado, quando a história saiu nos Estados Unidos. Uma segunda versão da capa –que aparece no fim da edição brasileira- revelava o segredo. A informação migrou pelos sites da internet. O máximo que se pode dizer, sem matar o suspense, é que é um herói muito querido entre os brasileiros e que aparece no outro lançamento. Por isso, a sugestão de leitura de começar pela outra revista.

"Não acredito que não é a Liga da Justiça" mostra, na capa, a sombra de um personagem. Quem é fica claro no fim da primeira história (a trama toda se desenrola em seis partes). Na verdade, é uma brincadeira feita pelos autores Keith Giffen e J.M. de Matteis. Mais uma brincadeira. Os dois estiveram à frente das demais histórias da versão cômica da Liga da Justiça, o principal grupo de heróis da editora. A farra começou na segunda metade dos anos 80. Giffen contou, numa de suas entrevistas, que adorava infernizar o editor da revista, Andrew Helfer. Pedia que ele o deixasse escrever o título. Helfer, a certa altura, teria dito: você os quer? Então fique com eles! Foi assim que começou algo invovador nas histórias de super-heróis: injetou humor e deboche às aventuras.

O escracho era total. Tudo era motivo de piada. Um dos vilões se chamava "Manga Khan", referência a um dos vilões de Jornada nas Estrelas e aos mangás japoneses. Ajax, herói marciano representado até então de forma séria e sisuda, virou um viciado por biscoitos. O ápice estava na trica Guy Gardner/Besouro Azul/Gladiador Dourado. As melhores tiradas envolviam os três. Como Giffen, à época, tinha dificuldade em desenvolver os diálogos, deixou o caro para de Matteis. Matteis só tinha feito histórias sérias e introspectivas até então, como a minissérie "Moonshadow". Revelou-se um afiado criador de falas.

As histórias dessa Liga da Justiça forma publicadas no Brasil pela editora Abril. O primeiro arco foi reeditado pela Mythos há pouco tempo. A vertente cômica durou quase meia década, até que a editora resolveu tornar o super-grupo sério novamente. Giffen e de Matteis só retornaram aos personagens em 2004, na minissérie "Já fomos a Liga da Justiça", já publicada pela Panini (que acertou ao apelidar o grupo de Superamiguinhos). Voltam à carga neste especial, melhor que o anterior, que coloca os personagens no inferno. Volta também o desenhista que acompanhou a dupla, Kevin Maguire. Ele tem o talento de desenhar a expressão humana. É sua marca registrada e o que faz melhor. O estilo, já nos anos 80, encaixou como uma luva nas loucuras de Giffen e nos diálogos de de Matteis. A história ganha uma expressividade, como poucas vezes se viu nos quadrinhos. Observar os rostos acrescenta –e muito- à comicidade da história. Pode ser impressão, pode ser o formato americano, mas parece que aprimou o traço.

Giffen e de Matteis publicaram essa despedida do grupo sabendo que viria após as mudanças iniciadas em contagem regressiva. Contornaram o problema de duas formas, uma no primeiro quadrinho, outra no último. No primeiro, aparece escrito "Tempos atrás, em uma década muito, muito distante...". No último, uma piada envolvendo dois personagens importantes de contagem regressiva, seguido da risada "Bwa-há-há-há-há", marca registrada das histórias. Leia-se: nada disso vai acontecer, como o leitor, de antemão, já sabe.

O fã de quadrinhos de super-heróis têm a chance de contornar o problema e manter o suspense. Ao fim de contagem regressiva, o leitor verá que o riso das histórias da Liga não será mais o mesmo.

"Contagem regressiva para crise infinita – Edição especial" é um prelúdio. Faz parte de uma bem planejada estratégia da DC Comics de reformular o rumo de seus personagens. O que chama a atenção é que o projeto foi meticulosamente detalhado. Dan Didio, o responsável pelas publicações da editora, sabia exatamente aonde queria chegar. Foi deixando pistas nas revistas regulares nos dois últimos anos. A edição nacional da Panini supera a americana ao compilar todas as dicas deixadas. Didio soube recriar algo que muitos dos títulos da DC haviam perdido (e que faz parte do gênero super-heróis): aquele gostinho de saber o que vai acontecer depois. Não é por acaso que a capa mantém o suspense sobre quem é o herói morto.

O prelúdio terá seqüência em quatro minisséries: Vilões Unidos, Dia de Vingança, Guerra Rann-Thanagar e Projeto OMAC. Vão ser publicados em seis partes num título só, "Contagem regressiva para crise infinita", prometido para este mês. Depois, vem o filé mignon: "Crise Infinita". É uma continuação de "Crise nas infinitas terras", que revolucionou os personagens da editora nos anos 80. Esta nova crise resgata elementos da anterior e funciona como uma seqüência. Não é tão revolucionária quanto a anterior, mas vai deixar um rastro de mudanças e de mortes pelo caminho. Como uma boa crise tem de ser. Muitas das mudanças ainda estão ocorrendo nos Estados Unidos.

Para quem não acompanha as histórias de super-heróis, os títulos lançados hoje são um bom começo. Para quem gosta, são histórias para ler e reler. Para manter o mistério, é melhor começar com a Liga. Ria muito. Porque, depois, a graça não será a mesma. A sensação é a de festa de despedida. Pena.

P.S.: a edição de crise infinita tem desenhos de dois brasileiros, Ivan Reis e Ed Benes.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h31
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05/07/2006

ÁLBUM TRAZ ÚLTIMAS HISTÓRIAS INÉDITAS DE SIN CITY

Três histórias da cidade do pecado de Frank Miller  continuavam inéditas no Brasil. Continuavam. Elas fazem parte do álbum "Sin City - Balas, Garotas & Bebidas" (editora Devir, R$ 38), que chega até o fim da semana às livrarias e lojas especializadas em quadrinhos. São 11 contos curtos. Mostram cenas de  vários dos personagens da série, como Marv, Dwight e as prostitutas armadas e sensuais.
 
Não é necessário ter lido toda a série para entender essas histórias curtas, publicadas originalmente em revistas da editora norte-americana Dark Horse. Mas ter acompanhado a obra de Miller ajuda a compreender melhor os 11 contos. Eles seguem o mesmo mecanismo que o criador de "Cavaleiro das Trevas" criou ao longo dos outros seis volumes de Sin City (também reeditados pela Devir). Miller entrelaça uma narrativa com outra. Uma cena perpassa a cena de outra história. E vice-versa. O leitor, às vezes, nem se dá conta disso. É o mesmo que fez Quentin Tarantino em "Pulp Fiction". Tarantino faz nas telas o que Miller impõe no papel.
 
"Impõe" é o termo apropriado. O texto do escritor Frank Miller ganha força nas mãos do desenhista Frank Miller. Acumular as duas funções faz com que ele coloque os personagens e as situações exatamente onde quer. É um difícil exercício de criatividade. Ele se impôs (a palavra, de novo) uma limitação: o uso do branco e do preto, recurso que domina como poucos.
 
A cor é usada poquíssimas vezes, nunca de forma ingênua. Como sua ausência é a regra, quando surge na página ganha impacto, a ponto de compor o enredo, tornando-se tão relevante quanto o personagem (a exemplo do que fez em "O Assassino Amarelo"). O azul vira elemento narrativo em "Olhos Azuis" e "Contramão" (duas das histórias inéditas); o vermelho, em "A Dama de Vermelho"; o rosa, em "A Garotinha do Papai".
 
O leitor antigo, que já acompanhou a maioria das histórias pela editora Pandora, pode estranhar o título "A Garotinha do Papai". Na Pandora, era "A Filhinha do Papai". Outra mudança ocorre no conto "Noite de Paz", rebatizado de "Noite Silenciosa". Mudanças sutis, conseqüência da nova tradução, que não comprometem a obra.
 
O filme "Sin City - A Cidade do Pecado", de Robert Rodriguez e do próprio Miller, deu um destaque natural a um dos 11 contos do álbum. É "O Cliente Tem sempre Razão". A história de três páginas foi vivida na tela pelo ator Josh Hartnett. Uma mulher paga um assassino para matá-la. Ele usa a estratégia da sedução para que a vítima sinta o menos possível. No Brasil, o conto teve pouco destaque na primeira que foi publicado. Foi diluído na revista "A Dama de Vermelho", também com histórias curtas de Sin City.
 
O álbum lançado nesta semana encerra a reedição de Sin City no Brasil. Não há mais material inédito, pelo menos por enquanto. Mas fica faltando, pela Devir, uma história: "Misericórdia", lançada em "Sem Perdão", outra revista com histórias curtas da cidade do pecado, editada pela Pandora. É possível encontrar algum exemplar nas lojas especializadas em quadrinhos.
 
O Blog dos Quadrinhos havia noticiado este lançamento em postagem do dia 7 de junho. Lá, há uma prévia do conto "Contramão", um dos três inéditos. Veja e repare como a cor ganha força no meio do preto e do branco.

Escrito por PAULO RAMOS às 12h43
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