23/06/2006

UM SUPER-HOMEM, TRÊS HISTÓRIAS

O lançamento do filme do Super-Homem -que estréia no mês que vem- vai motivar uma série de lançamentos sobre o personagem. Hoje (23.06), começou a maratona. Três álbuns chegaram às bancas de uma só vez: "Superman: Identidade Secreta", "Superman: entre a Foice e o Martelo"  e "Superman: Dia do Juízo Final". Os três títulos -todos da Panini- são edições encadernadas de minisséries já lançadas no Brasil.

"Superman: Identidade Secreta" venceu o Prêmio HQMix deste ano na categoria melhor minissérie (ao lado, a imagem da capa do encadernado). A história tenta levar ao leitor a seguinte pergunta: o que você faria se fosse o Super-Homem? A resposta é dado pelo olhar de um jovem, chamado Clark Kent (o alter ego do homem de aço). Ele é alvo de chacota dos colegas e da família por causa do nome. Até que, um dia, descobre ter todos os poderes do herói de Krypton.
 
É ficção, claro, mas o tom é de realismo, uma característica do autor, Kurt Busiek (o mesmo de "Marvels" e da série "Astro City"). O escritor recentemente assumiu o texto de uma das revistas mensais do herói nos Estados Unidos. Tenta fazer o mesmo: dar mais realismo e introspecção ao personagem, sem se esquecer dos elementos míticos que o tornaram uma das figuras mais populares do planeta. A arte de Stuart Immonen -que já trabalhou com o personagem por muitos anos, tanto escrevendo quanto suas aventuras- só reforçam o ar realismo de "Identidade Secreta".
 
A realidade -aqui, trata-se da realidade geopolítica- é também o foco principal de "Superman: entre a Foice e o Martelo". A história parte de uma premissa: e se o foguete que trouxe o homem de aço de Krypton tivesse caído na antiga União Soviética? Que impacto teria na configuração política mundial? Para o escritor Mark Millar, o regime comunista ganharia uma arma militar mais eficaz do que a bomba de hidrogênio. Millar, com a trama, reinterpreta a Guerra Fria, alterando o peso da balança para o lado soviético.
 
Millar tem a tendência de colocar elementos geopolíticos em suas criações. Fez o mesmo em "Os Supremos", sucesso de vendas nos Estados Unidos. Na nova fase, publicada no Brasil na revista "Marvel Millenium - Homem-Aranha", os heróis da revista intervêm em nações "problemáticas". Na prática, cumprem os interesses políticos dos Estados Unidos, uma clara crítica à invasão do Iraque. Em outro título escrito por ele (mas não criado por ele), "Authority", o grupo de heróis tenta minimizar a miséria de nações além da linha de pobreza, passando por cima dos americanos (outra crítica, agora ao que os Estados Unidos não fazem). É dentro desse prisma que deve ser lido "entre a Foice e o Martelo".
 
"Superman: Dia do Juízo Final" é a menos conhecida das três minisséries. É uma obra (mais uma) que faz referência à morte do Super-Homem, que foi extremamente popular nos anos 90 (numa luta contra Apocalypse, o herói de Krypton perde a vida; a "morte" durou poucos meses e foi uma das melhores estratégias de marketing da história dos quadrinhos). "Dia do Juízo Final" traz a volta (mais uma) dos dois "assassinos" do homem de aço: Apocalypse e o escritor/desenhista Dan Jurgens, o escritor/desenhista da aventura que mostrava o herói sendo morto. A idéia funcionou na primeira vez. A chama da novidade já tinha se apagado quando esta minissérie saiu nos Estados Unidos. A editora demorou para perceber isso.
 
A editora Panini promete mais histórias do homem de aço. Em "Grandes Clássicos DC", deve reunir outra minissérie, "As Quatro Estações", que mantém o clima da série de TV "Smallville". Foi assinada por consultor dos quatro primeiros anos do seriado, Jeph Loeb. Deve sair também material escrito pelo cultuado escritor britânico Alan Moore. As duas histórias estã entre mais lembradas do homem de aço.
 
A dúvida é saber quando os títulos vão chegar às bancas. A editora Panini tem sistematicamente atrasado os lançamentos de obras especiais. A empresa anuncia as edições, não lança e não explica ao leitor e à imprensa o que acontece.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h33
[comente] [ link ]

04/06/2006

A INGENUIDADE TRAVESSA DE LULUZINHA

As gerações mais novas talvez só conheçam Luluzinha pelos desenhos animados. Há muito mais sobre a personagem. Nos Estados Unidos, a menina de vestido vermelho foi popular por décadas. Ela teve também uma forte influência na cultura brasileira, desde que começou a ser publicada pela editora de O Cruzeiro (nas décadas de 50 e 60). Foi tema de música escrita por Roberto e Erasmo Carlos, inspirou duas de nossas gírias: clube da luluzinha e clube do bolinha (referência a outro famoso personagem da turma).

A gíria brasileira (leia mais na postagem abaixo) é uma ótima síntese de uma das histórias mais recorrentes da personagem: as brigas entre meninos e meninas. De um lado, ela e as amigas (o tal clube da luluzinha). De outro, Bolinha e os colegas (o clube do bolinha). Entre eles, a disputa para ver quem se saía melhor. Uma dessas aventuras, "A Guerra das Bolas de Neve", integra "Luluzinha Vai às Compras" (Devir, R$ 21), que começa a ser vendido hoje. O álbum reúne histórias clássicas da personagem, publicadas originalmente na revista "Marge's Little Lulu" na segunda metade dos anos 40. Trata-se de uma compilação dos números seis a oito.

O "Marge" do título é a forma abreviada de Marjorie Henderson Buell, cartunista que criou a personagem em 1935. A primeira aparição foi na revista "The Saturday Evening Post", em substituição a outra criança, Pinduca. Luluzinha foi ganhando um destaque cada vez até que, em 1945 ganhou revista própria. É dos primeiros anos de publicação o material do ábum lançado hoje.

A revista "Marge's Little Lulu" foi editada até 1984. A longevidade não se deveu à autora, mas a John Stanley. Foi ele que desenvolveu a Luluzinha como a conhecemos hoje. É dele também a criação dos outros personagens da turma. Se Marge concebeu a idéia e as aventuras iniciais, foi Stanley quem deu a eles alma e carisma (apesar de o título da revista levar o nome da cartunista). Foi um processo semelhante ao que ocorreu com as criações da Disney. Walt Disney levou fama, mas o responsável por todo o trabalho com Tio Patinhas, Pato Donald e outros foi Carl Barks (ver postagem do dia primeiro de junho).

"Luluzinha Vai às Compras" ajuda a entender por que a personagem e sua turma se tornaram tão populares. As histórias conseguem retratar as crianças como realmente são: ingênuas e, ao mesmo tempo, travessas. São as mesmas características que tornaram o seriado "Chaves", exibido desde os anos 80 no SBT, um fenômeno para mais de uma geração (e um incômodo para a concorrência em qualquer horário em que Silvio Santos decide exibir a série).

Há quem se lembre de Luluzinha (e Bolinha, não menos popular) pelas revistas da editora Abril das décadas de 70 e 80. É outro elemento de nostalgia que envolve a personagem. O álbum é uma oportunidade para adultos a relembrarem e a entenderem melhor. E para os mais novos terem contato com essa menina, que já tem 71 anos de história.

Leia algumas curiosidades sobre Luluzinha na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h44
[comente] [ link ]

A FESTA DO BOLINHA

Valeria um estudo a influência de Luluzinha na cultura brasileira. Na postagem anterior, mencionamos a gíria, baseada nela e em Bolinha. Já aparece nos (poucos) dicionários de gíria que existem no país. Um deles, o "Dicionário de Gíria - O Equipamento Lingüístico Falado do Brasileiro" (de J. B. Serra e Gurgel), define os verbetes da seguinte maneira:

Clube da luluzinha - reunião só de mulheres. "No clube da luluzinha, sapatona não entra".

Clube do bolinha - reunião só de homens. "Isto aqui é o clube do bolinha".

Na música, há uma canção escrita por Roberto e Erasmo Carlos com os personagens. A letra, para quem nunca ouviu:

Eu ontem fui a uma festa na casa do Bolinha
Confesso não gostei dos modos da Glorinha
Toda assanhada, nunca vi igual
Trocava mil beijocas com o Raposo no quintal
Porém pouco durou, aquela paixão
Pois Bolinha com ciúmes, formou a confusão
Aninha tropeçou e os copos derrubou
E a casa do Bolinha num inferno se tornou
Bolinha provou, que é ciumento pra xuxu
E... Que não gosta da Lulu
Bobinha, que por ele ainda chora
Com tanto pão, dando bola no salão
Luluzinha foi gostar, logo de um bolão.

Escrito por PAULO RAMOS às 21h40
[comente] [ link ]

02/06/2006

A VIOLÊNCIA MUDA NOS QUADRINHOS

Poucas vezes uma história em quadrinhos foi tão contundente na forma de mostrar a violência. "O Messias", lançado nesta semana (Opera Graphica, R$ 29), opta por não usar diálogos. Há apenas uma ou outra onomatopéia . O resultado é um silêncio ensurdecedor. O mundo do crime do morro carioca tem, obrigatoriamente, de ser visto e percebido.
 
Construir um álbum com mais de cem páginas só com imagens não é tarefa das mais simples. Três desenhistas desistiram do projeto. Coube ao baiano Flávio Luiz o desafio de transformar em imagens as idéias de Gonçalo Junior, autor do roteiro. O jornalista e pesquisador Gonçalo Júnior (o mesmo do livro "A Guerra dos Gibis", da Companhia das Letras) já usou o recurso em outra criação, "Claustrofobia", em parceria com Julio Shimamoto. Mas, em "O Messias", o uso do silêncio ganha mais sentido. Funciona como metáfora do medo vivido na periferia carioca, dominada por outras leis: a das drogas, a das balas, a do silêncio.
 
O álbum foi passado à imprensa como sendo uma obra que, de certa forma, antecipava a onda de ataques do PCC, o Primeiro Comando da Capital, feita no mês passado em São Paulo. Há certamente a coincidência do silêncio, do medo e da violência. Mas as semelhanças residem em outra obra, "Cidade de Deus", de Paulo Lins. É quase automática a analogia quando vemos, n´"O Messias" o crescimento de um jovem e sua inserção no mundo do tráfico carioca.
 
A comparação não tira o vanguardismo da leitura que Gonçalo fez da violência atual. Ele conta que teve a idéia em 1997. Só se tornou real a partir de 2002, quando a história começou a ser desenhada. Ficou pronta no ano passado.
 
"O Messias" surge num momento em que o quadrinho nacional trilha uma nova caminhada, e a passos largos. O álbum se soma a uma série de outros lançamentos de qualidade: "Lusíadas 2500", de Lailson, "Morte e Vida Severina", adaptado por Leuguim, "Santô e os Pais da Aviação", biografia feita por Spacca, "Passos Perdidos, História Desenhada: a Presença Judaica em Pernambuco no Século XX", ligada a um grupo de docentes da Universidade Federal de Pernambuco.
 
"Cidade de Deus" ajudou a consolidar um novo momento do cinema brasileiro. "O Messias" certamente vai contribuir para este novo quadrinho nacional que (res)surge. A comparação é mesmo com a obra de Paulo Lins.
 
Leia entrevista com Gonçalo Junior nas postagens abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h08
[comente] [ link ]

[ ver mensagens anteriores ]