25/05/2006
CORTO MALTESE - SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO
25/05/2006
CORTO MALTESE - SOB O SIGNO DE CAPRICÓRNIO
Os heróis de quadrinhos criados na Itália têm a tendência de serem corajosos, prestativos ao extremo, contestadores, irresistíveis para as mulheres. De onde vem o esterótipo é difícil dizer. Pode-se afirmar, no entanto, que Corto Maltese não só reúne todos os atributos como também contribuiu para popularizar os rótulos heróicos na Europa.
Isso já era claro na primeira aventura, "Corto Maltese - A Balada do Mar Salgado", lançada no começo do ano pela editora Pixel. A segunda história chegou às bancas e lojas especializadas nesta semana. Em "Corto Maltese - Sob o Signo de Capricórnio", o herói navegante ajuda um jovem (veja aí o elemento "prestativo ao extremo") a encontrar a irmã e a desvendar um mistério. Para o leitor brasileiro, a história tem um sabor especial. A maior parte se passa na Bahia. O autor, Hugo Pratt, trabalha com os detalhes. Detalhes verbais, criando diálogos longos e cheios de minúcias. Detalhes visuais, desenhando cenários carregados de informação (e que, geralmente, passam despercebidos pelo leitor médio).
Trabalhar com os detalhes é algo coerente com a vida do autor. Era um homem culto. Muito disso foi conseqüência das viagens que fez. E como fez: nasceu na Itália, passou parte da infância na Etiópia, viveu e desenhou na Argentina (lá criou Sargento Kirk), namorou o Brasil mais de uma vez (teve até filha aqui), estabeleceu-se novamente na Itália. As histórias que cria são a representação, em desenhos, do que viu em suas empreitadas.
Um exemplo -um bom exemplo, a propósito- está nesta edição de Corto Maltese. Logo no início, o personagem participa de uma sessão de umbanda. É o nosso umbanda, bem brasileiro. Está representado com fidelidade, tanto nos diálogos, como nas imagens (de novo, os detalhes: as roupas dos nativos são minuciosamente caracterizadas).
Hugo Pratt morreu vítima de tumor no estômago em agosto de 1995. Na mesma data, morria Corto Maltese. Outro autor não poderia dar continuidade à obra. Pratt era Maltese. E vice-versa. O especialista em quadrinhos Álvaro de Moya confirma a relação criador/criatura com muita propriedade na introdução deste segundo volume. Vale ler tanto quanto a história.
18/05/2006
MAS ELE DIZ QUE ME AMA
Esconder-se atrás de um nome foi a forma que autora encontrou para relatar o conturbado relacionamento mantido com Brian (o nome também é fictício). De início, era um homem amoroso e atencioso. Tudo ia bem, a ponto de ela concordar em dividir com o namorado a criação dos quatro filhos dele: Tom, Lizzie, Megan e Jim. Brian era viúvo. O trato com as crianças tomou tempo que ela não tinha. Abriu mão de parte do horário dedicado à sua empresa. Fazia as vezes de babá, enquanto Brian trabalhava. Ou viajava. O relacionamento começava a ficar estranho.
O relato de Rosalind mostra como se deu a virada. De uma hora para outra, ela passava de namorada/amante a serviçal. Era estimulada –por ele- a abandonar as amizades, a família, a empresa. “Somos um só”, dizia. Era ridicularizada, o humor do namorado variava abruptamente. Não sabia mais onde pisava. Resistiu e se negou (idéia que o título em português resume com precisão).
É essa a mensagem que Rosalind (nome fictício que aqui cria ares de real) quis passar no álbum. Trata-se de um alerta às outras pessoas, principalmente as mulheres, sobre o dia-a-dia de um relacionamento abusivo. De mulher inteligente e bem-sucedida, passou a ser submissa e apagada. Vivia para ele, não com ele.
Como ela mudou de vida, a ponto de escrever um álbum em quadrinhos, é o mote de toda a obra. Um fator ajudou na composição da história. A cada abuso, ela desenhava a cena na forma de uma história em quadrinhos. O título reúne o material que ela compôs ao longo dos anos. O traço é simples (mas, isso, é o que menos importa na leitura da obra). 20 páginas foram feitas por outro profissional. Fica difícil, na leitura, saber quem desenhou o quê.
A situação era tão massacrante para ela que, em algumas páginas, Rosalind se desenhou como uma criança. Via-se inferiorizada, como um ser humano menor.
É comum ouvir pessoas dizerem que os quadrinhos são uma forma de arte menor. Os defensores dos quadrinhos têm sempre na manga um seleto grupo de histórias para citar sempre que ouvem a crítica (“Maus”, trabalhos jornalísticos de Joe Sacco, qualquer álbum de Will Eisner). O relato (real, não custa lembrar) de “Mas Ele Diz que me Ama” deveria estar no topo da lista.
A autora mantém um site com informações sobre abuso. Para acessar, clique aqui. Leia mais sobre relacionamento abusivo no Brasil na postagem abaixo.
09/05/2006
INCAL É PUBLICADO PELA PRIMEIRA VEZ NO BRASIL
Há algumas histórias que ganham fama não por um motivo apenas. Os motivos são plurais. "Incal", lançado nesta semana (Devir), é um caso assim. Tornou-se um marco da ficção científica em quadrinhos. Reúne reputação, criadores consagrados (Alexandro Jodorowsky e Moebius), enredo e personagens inovadores. Apesar disso, a obra nunca tinha saído no Brasil. O que chegou por aqui foram edições européias, a maioria editada em Portugal.O que tornou a história tão (re)conhecida? O momento histórico ajudou. A ficção científica foi publicada em capítulos na revista francesa Metal Hurlant (estreou no número 58, em 1980). A publicação era tida como um produto de vanguarda, que contava com artistas inovadores na temática e no estilo. Parte do prestígio veio daí.
A outra parte é mérito dos autores. Moebius era o desenhista de mais destaque da revista (que influenciou a criação de uma versão americana, a Heavy Metal). Possui um estilo detalhista, mas sem perder de vista o lado expressivo dos personagens. Tem ainda o curioso dom de criar figurinos, característica que contribui -e muito- para a composição de obras de ficção científica (caso de Incal). São dele os figurinos de filmes como Alien e Duna.
Moebius -conta o escritor Alexandro Jodorowski, o mesmo de Bórgia- foi a escolha lógica para dar vida ao mundo de Incal. O escritor relata, na introdução da obra, o peculiar processo de criação de ambos. Ele imaginava a história, mas não colocava as idéias no papel. Recitava o enredo (fazia até mímicas), enquanto Moebius desenhava, sempre numa velocidade acima do normal. Ficavam horas nisso, até chegar a um resultado final. Os diálogos vinham depois, elaborados em comum acordo.
Foi assim que contaram a história de John Difool, um detetive particular de "classe R". Uma entidade, o Incal, cruza o destino do detetive. Caberia a ele, junto com o Incal, dar um novo destino ao planeta. O cenário futurista criado por Moebius é uma atração à parte. Pode-se ler a história e, depois, voltar a leitura, apenas para perceber os detalhes visuais idealizados por Jean Giraud (nome de Moebius).
O material da Metal Hurlat foi compilado em seis álbuns. Os dois primeiros, O Incal Negro e O Incal Luminoso, compõem a edição da Devir. Um segundo volume está programado para agosto.
03/05/2006
TRÊS ADOLFS POR UM TEZUKA
É um Tezuka diferente. O trabalho se distancia dos mangás e desenhos animados que o tornaram conhecido (como "A Princesa e o Cavaleiro", já publicado no Brasil). É uma história mais densa, assim como Buda (os 14 volumes ainda podem ser encontrados), outra criação sua. Adolf é uma trama de mistério. Quem convida o leitor a acompanhá-la é o repórter Sohei Toge. Ele -Toge- se auto-intitula o narrador e é elo entre os três Adolfs. A relação com o primeiro (Hitler) ainda é distante neste primeiro número. O repórter descobre que seu irmão foi assassinado por pessoas ligadas ao Führer. O irmão teria uma informação que poderia derrubar o partido nazista. O mistério é o mote da primeira metade da obra. A segunda parte da história mostra os dois outros Adolfs, dois meninos, moradores do Japão. Um é filho de alemães judeus; o outro, filho de nazistas. Nesse trecho da obra, encontram-se algumas das sutilezas que fizeram Osamu Tezuka ser um dos -senão o- criadores mais renomados do quadrinho japonês. As duas crianças querem manter a amizade, apesar das diferenças. Os pais são contra, as ideologias são distintas, mas a amizade seria maior do que os rótulos. A obra é longa, 261 páginas. Mas Tezuka prende o leitor até o fim. Parece um exercício de um artista que não tem mais o que provar a ninguém. Inventa, cria, recupera os rostos caricatos (uma das marcas de seu estilo), brinca com os cortes de um quadro para outro. Mas preserva o suspense, o fio condutor da trama, e o que a torna uma de suas obras mais peculiares. Osamu Tezuka é bastante comparado a Walt Disney. Talvez a analogia merecesse uma releitura. O autor japonês tem uma trajetória muito semelhante à de outro americano: Will Eisner. Começaram com trabalhos de destaque (Eisner é criador de Spirit) e, décadas depois, compuseram histórias mais autorais. O preconceito vivido pelos judeus -visto em Adolf- é tema comum a Eisner. O respeito que ambos têm no meio é outro ponto em comum. Adolf mostra por quê.
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