26/04/2006
SEIS MÃOS BOBAS
Nada mais atual. Num momento em que se vive um "revival" dos anos 80, um lançamento para agradar em cheio os trintões, quarentões e afins. Seis Mãos Bobas (Devir Editora e Jacaranda, R$ 23), lançado oficialmente hoje, reúne 17 parcerias de três dos autores mais marcantes da época: Angeli, Glauco e Laerte, ou Chiclete com Banana, Geraldão e Piratas do Tietê, respectivamente.
Parte dos personagens resistiu ao tempo e é publicada até hoje na Folha de S.Paulo em forma de tiras. Mas alguma coisa mudou. Percebe-se isso claramente durante a leitura do álbum. Havia uma declarada intenção transgressora, bem mais do que hoje. Sexo era o tema preferido, sempre trabalhado com o humor peculiar e urbano do trio. Numa das histórias, um baixinho bigodudo promete que, se Malu Mader e Luma de Oliveira o visitassem, ficaria com as duas. "Ding dong": são as duas tocando a campainha na porta da casa dele, prontas para o que der e vier. O baixinho, ao contrário do esperado, fica com medo e foge. É o tema da história.
Temas como sexo, homossexualismo e uso de camisinha eram novidade nos anos 80. Todos são abordados pelo trio. Mais do que 17 parcerias -publicadas originalmente nas revistas Chiclete com Banana e Geraldão-, Seis Mãos Bobas é um registro de época, um momento pós-ditadura em que a liberdade de expressão ainda testava seus limites.
E o que o trio parecia adorar era testar os limites dessa liberdade. Batizaram uma das histórias de "Cenas Censuradas da Reunião do Conselho de Censura". Pura provocação. Segundo Laerte, em depoimento registrado no fim da edição, ainda havia resquícios da "tesoura" da censura. E isso incomodava.
Esse depoimento se junta a outros e compõe um dos diferenciais do álbum (em comparação a outras publicações individuais do trio pela mesma editora Devir/Jacaranda): há um making of de cada história. Sugestão: leia a história e corra para saber como foi feita. É lá que você descobre por que Angeli não participou da homenagem a Henfil, vítima de Aids (a doença era outro tema novo nos anos 80). Angeli "não estaria gostando dele naquele momento". Glauco e Laerte contestam. Toninho Mendes, que recolheu os depoimentos, tem o mérito de não esconder as divergências do grupo.
Divergências que não comprometeram a relação do trio. Glauco, Angeli e Laerte, os "Los 3 Amigos", mantêm uma relação de amizade duradoura. Começou lá nos anos 80. O álbum mostra um pouco daquela época. Há muito mais material, que também merece reedição. É como diz o homenageado Henfil: "Morro, mas meu desenho fica". O deles também ficou.









Escrito por PAULO RAMOS às 14h37