28/01/2008

Mangá faz releitura de clássicos dos Irmãos Grimm

 

 

 

Em "Grimms Mangá", o Lobo Mau não é tão mau assim e Chapeuzinho Vermelho se envolve com ele na adaptação de Kei Ishiyama

 
 
 
 
 
 
Era uma vez uma menina chamada Chapeuzinho Vermelho. Após levar mantimentos para a avó, ela se envolve romanticamente com o Lobo Mau.
 
Outra história. Era uma vez os irmãos João e Maria -ele bem mais velho que ela- que visitavam uma mulher, que de bruxa não tinha nada. Tinha, ao contrário, sentimentos mais "profundos" pelo jovem João.
 
Mais uma. Era uma vez um rapaz (não é erro, não) chamado Rapunzel, que vivia numa torre e tinha um cabelo comprido, com longas tranças.
 
Estranhou? Na versão mangá, a (re)leitura de contos clássicos dos Irmãos Grimm tiveram modificada parte do enredo e da caracterização dos personagens, inclusive no visual (o Lobo Mau é um menino e não tem cara de mau).
 
A interpretação -estranha a nós, ocidentais- foi feita por Kei Ishiyama em "Grimms Mangá", que chega às bancas nesta semana (NewPOP Editora, R$ 11,90, 176 págs.).
 
Além dos contos já citados, a publicação traz adaptações de outros dois contos menos conhecidos do leitor brasileiro: Os Dois Irmãos (em duas partes) e Os Doze Caçadores.
 
A curiosidade do trabalho é mesmo a forma como ela lê os contos, publicados por Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859) na Alemanha do começo do século 19.
 
A dupla coletou vários relatos orais de moradores, histórias que eram ouvidas por lá ou que eram passadas de pai para filho geração após geração. O resultado foi compilado em livro.
 
O que eles fizeram, numa tentativa de analogia, equivaleria a narrativa de alguém sobre a nossa "loira do banheiro", lenda urbana conhecida em todo o país e uma das poucas mantidas por meio da oralidade.
 
Os contos orais dos Grimm, vertidos para a escrita, não se restringiram à Alemanha, como bem sabemos. São muito populares no Brasil também.
 
Mas o mangá traz o indício de que migraram também para o Oriente, como mostra esta singular obra da NewPOP, editora criada com a proposta de publicar quadrinhos japoneses.
 
Pensando melhor, há uma outra curiosidade. Mas é externa à obra.
 
É o fato de ser a segunda adaptação em quadrinhos dos Irmãos Grimm lançada em pouco mais de um mês. A outra foi feita por um grupo de desenhistas brasileiros (leia mais aqui).
 
A curiosidade extra é comparar as duas versões. 
 
Revela não só estilos diferentes ou modos particulares de narrar  um mesmo texto-fonte. É mais que isso. Mostra visões de mundo distintas, refletidas no traço de cada desenhista. 

Escrito por PAULO RAMOS às 20h32
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23/01/2008

Álbum usa metalinguagem para explicar recursos dos quadrinhos

 

 

 

 

 

 

"O Circo de Lucca", lançado neste mês, é resultado de projeto de conclusão de curso da Universidade Mackenzie, de São Paulo

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Em dezembro de 2006, Jorge Otávio Zugliani ouviu da banca que avaliava seu projeto de conclusão de graduação que deveria publicar o trabalho, "Circo de Lucca".
 
Pouco mais de um ano depois, a sugestão se torna real.
 
O álbum, que começou a ser vendido neste mês (Devir, R$ 39, 136 págs.), garantiu a ele o diploma no curso de desenho industrial da Universidade Mackenzie, em São Paulo e a primeira publicação em quadrinhos não independente.
 
A obra usa a história de um jovem desenhista, Lucca, para explicar, por meio de metalinguagem, os recursos que fazem dos quadrinhos uma linguagem autônoma.
 
O recurso já tinha sido usado pelo norte-americano Scott McLoud em obras como "Desvendando os Quadrinhos". Segundo Jozz, forma como Zugliani assina seus trabalhos, isso não é coincidência.
 
Mas há uma diferença, segundo ele explicou ao blog em matéria de dezembro de 2006 (leia aqui). McLoud teria feito um livro sobre quadrinhos. A proposta de "O Circo de Lucca" é ser de quadrinhos.
 
"Conversando com as pessoas, percebo que apenas quem tem uma experiência anterior vai a fundo no material de Scott", dizia, à época.
 
"Eu queria criar algo que até os não-iniciados pudessem se envolver. Imagino que isso o torna viável para ser distribuído em escolas."
 
Essa proposição Jozz cumpre e, mostrada de forma ficcional, é o que singulariza a obra. Em mais de um caso, o uso da metalinguagem é superior ao trabalho de McLoud.
 

 
Um exemplo é a explicação sobre o uso da colorização, como mostra a seqüência acima.
 
As cores abandonam o corpo do personagem Lucca e fazem com que a narrativa volte ao original preto-e-branco.
 
O recurso se insere na indecisão de Lucca sobre como deveria imprimir sua história.
 
Lucca, o protagonista, funciona como um alter ego ficcional de Jozz, hoje com 25 anos.
 
Assim como o autor, também precisa concluir uma história em quadrinhos para o curso de desenho industrial.
 
A cada nova descoberta dele sobre a linguagem dos quadrinhos, o recurso se materializa na narrativa, de maneira surreal.
 
Esse lado abstrato é marcado na história pela presença do Palhaço, ser que aparece e some de quando em quando na vida de Lucca. Na presença dele, tudo ganha cor.
 
A trama vai sendo conduzida de modo a convergir a vida real de Lucca com a imaginária do Palhaço.
 
A versão editada pela Devir mudou pouco em relação ao trabalho original. Mesma capa, mesmos recursos gráficos. A diferença está na ordem de apresentação.
 
Ao contrário do original, primeiro aparece a história em quadrinhos, depois uma rápida parte teórico, com fundamentos sobre o processo de produção dos quadrinhos.
 
O trabalho de Jozz teve orientação de Luiz Gê, um dos principais desenhistas brasileiros, muito atuante na década de 1980.
 
A chancela de um nome como Gê dá um inevitável ar de autoridade à obra.
 
Mas não precisava. Jozz e seu circo de metalinguagem caminham sozinhos e criam um dos mais inovadores trabalhos da nova geração de desenhistas brasileiros. 

Escrito por PAULO RAMOS às 21h32
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22/01/2008

Indicação ao Oscar: mais um empurrão na redescoberta de Persépolis

 

 

Cena da animação francesa, baseada na história em quadrinhos homônima de Marjane Satrapi

 
 
"Persépolis", biografia em quadrinhos feita pela iraniana Marjane Satrapi, passa por um processo de redescoberta.
 
O empurrão final desse processo foi dado nesta terça-feira, com a indicação da animação da obra ao Oscar deste ano.
 
A produção francesa foi co-dirigida pela própria autora e concorre com os norte-americanos "Ratatouille" e "Tá Dando Onda", já exibidos no Brasil.
 
"Persépolis" ganhou o prêmio do júri do Festival de Cannes e foi muito elogiado por quem viu o desenho na Mostra Internacional de Cinema no ano passado em São Paulo.
 
Foram essas exibições que deram o início ao processo de redescoberta da obra, que narra a infância de Satrapi no Irã, a turbulenta passagem dela pela Europa durante a adolescência e o retorno ao país onde nasceu, anos depois.
 
A animação caiu no gosto do chamado "formador de opinião", que passou a se interessar também pela gênese da história, até então ignorada.
 
O segundo empurrão tinha sido dado pela Companhia das Letras, editora que publicou "Persépolis" em quatro volumes. De 2004 a 2007, lançou um álbum por ano.
 
A editora relançou a obra no país em dezembro do ano passado numa versão encadernada, de 352 páginas (leia mais aqui).
 
"Persépolis Completo", nome dado à reedição, começou a chegar às redações, na forma de material de divulgação, na virada do ano.
 
Quem pegava a obra sentia ares de publicação inédita. Alguns se encantaram com o que viram.
 
Pelo menos dois jornalistas, colegas de redação, me procuraram para perguntar se eu já tinha visto o trabalho de Satrapi. Respondi que sim. Desde 2004.
 
Nos dois casos, a reação deles foi a mesma: surpresa. Não sabiam que a obra já tinha sido publicada no país.
 
Do ponto de vista do leigo em quadrinhos, ela se destaca por mostrar uma história real. 
 
Nessas situações, ocorre um fenônemo curioso aos olhos do grande público. A obra deixa de ser vista como quadrinhos. Vira livro.
 
Com a "conversão" em livro, a história muda completamente.
 
A obra passa a gozar de todas as benesses do rótulo, tido como produto artistica e conteudisticamente prestigiado pela sociedade brasileira.
 
E cai no gosto dos formadores de opinião.
 
"Sandman", obra escrita por Neil Gaiman, passou por processo semelhante.
 
O relançamento encadernado da série, pela Conrad, caiu nas graças da mídia cultural brasileira e abriu caminho para outras experiências similares.
 
É esse processo de redescoberta do livro -em quadrinhos- de Marjane Satrapi que se vê agora na mídia e entre os apreciadores de cinema.
 
Nesse aspecto, o relançamento em volume único foi um tiro certeiro da Companhia das Letras, embora tenha desagradado a quem já tinha comprado os quatro números da série.
 
O encadernado custa R$ 39 (há promoções por cerca de R$ 35). Cada um dos quatro volumes anteriores, ainda à venda, sai em média R$ 31.
 
É tentador imaginar quantas outras obras em quadrinhos, reais ou não, passaram despercebidas pelo crivo dos chamados "formadores de opinião" por serem simplesmente quadrinhos, e não livros.
 
Em tempo: segundo a Europa Filmes, que distribui a animação no Brasil, o filme tem previsão de estréia no país em 22 de fevereiro (a data ainda pode sofrer alteração).
 
Clique neste link para ver outras imagens da animação.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h39
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21/01/2008

Escombros traz história underground à la Robert Crumb

 

 

 

Capa aberta de "Escombros", álbum que começou a ser vendido neste mês

 
 
 
 
Há um quê do desenhista Robert Crumb, um dos expoentes do quadrinho alternativo norte-americano, no trabalho do canadense Dave Cooper, autor ainda pouco conhecido no Brasil.
 
O que abona essa comparação é "Escombros (Crumple) - O Status de Knuckle", álbum lançado este mês (Zarabatana Books, R$ 30, 128 págs.).
 
Cooper toma do polêmico Crumb um pouco do modo de desenhar e, principalmente, a maneira intencionalmente underground de produzir quadrinhos.
 
Há balões cortados pelos quadrinhos, página em branco, personagens viciados em sexo a todo custo (ou a nenhum custo), situações bizarras, superficialidade na relação familiar.
 
O ar alternativo dado ao álbum pode nublar a percepção de que há qualidades na história às quais ela não faça jus. O que há, de concreto, é uma trama surreal e futurista.
 
Knuckle é um jovem que tem uma vida medíocre. 
 
Ele trabalha na linha de montagem de uma repressiva fábrica de bonecas, descobre que a namorada gótica é lésbica e não consegue trocar o maquinário que permite a locomoção de sua avó, com quem mora.
 
Frustrado, é influenciado pelo amigo Zev a viajarem para a Hollywood do futuro. O que motiva a viagem é que lá é onde se encontra "toda a pornografia do mundo".
 
O enredo fica ainda mais surreal quando descobrem, em Hollywood, que o planeta foi invadido por alienígenas. Os seres extraterrestres eliminam os homens e usam as mulheres para procriar.
 
Dave Cooper, que divide os quadrinhos com trabalhos de ilustração, ganhou destaque após ser indicado, em 1997, ao Harvey Awards, uma das principais premiações de quadrinhos nos Estados Unidos.
 
Dois anos depois, foi premiado pelo álbum "Ripple", inédito no Brasil.
 
"Escombros" é a chance de ter contato com um autor ainda pouco difundido no país. 
 
No álbum, pelo que se lê, Cooper traz uma história propositalmente alternativa, o que confere a ela um rótulo de cult ou vanguardista antes mesmo de ser lida.
 
Mas, sem o apoio dos rótulos, é um tipo de narrativa que não é para todos os gostos.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h15
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18/01/2008

Guerra Civil chega ao fim. Mas há novidade nisso?

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capa do sétimo e último número da minissérie, que começou a ser vendido nesta semana
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Há uma espécie de acordo de cavalheiros entre as partes envolvidas em uma resenha.
 
O jornalista dá seu parecer sobre a obra e não comete a indelicadeza de antecipar o desfecho da história. Se revelar o final, corre o sério risco de perder para sempre a adesão e a cumplicidade do leitor.
 
O ponto é que a situação se inverteu.
 
A internet mudou esse modus operandi jornalístico de confecção da resenha, principalmente nos campos cinematrográfico e quadrinístico, principalmente de super-heróis.
 
O leitor, não raras vezes, já leu detalhadamente, em sites e blogs, o que o espera na tela ou no papel. É o chamado "spoiler", informação que antecipa o conteúdo da obra antes mesmo de ela ser lançada.  
 
Esse preâmbulo -que ignora a regra jornalística de iniciar o texto com o assunto mais importante (afinal, os tempos são outros)- se encaixa perfeitamente no último número de "Guerra Civil", lançado neste finzinho de semana (Panini, R$ 4,90).
 
É difícil a tarefa de resenhar a derradeira sétima edição da minissérie, que tenta mexer em profundidade com os personagens da editora norte-americana Marvel Comics.
 
Este jornalista poderia dizer que é o ponto máximo da trama. Os dois lados da guerra, que envolve os super-heróis da editora, convergem para uma sangrenta luta final.
 
A divisão entre os heróis surgiu porque parte deles não aceitou revelar a identidade secreta ao mundo. A exigência era do governo dos Estados Unidos.
 
Mas o leitor, possivelmente, já sabe disso há pelo menos um ano.
 
Poderia dizer, então, que o ponto nevrálgico deste último número é a briga entre Capitão América, contra a lei, e o Homem-de-Ferro, pró.
 
Mas isso, bem como o desfecho do combate, que deveria ser algo inesperado, já é de conhecimento de boa parte do público.
 
Poderia, quem sabe, adiantar que vai haver um apêndice da minissérie, a ser publicado no mês que vem numa das revistas mensais da Panini. Na história, um herói importante da editora morre.
 
Mas, aí, a tarefa é ainda mais inglória. A informação dessa morte é tão pública que já foi noticiada até em telejornal da TV Globo no ano passado.
 
Uma informação extra, talvez, pudesse ser que a Marvel reavaliou (uso um eufemismo) pelo menos uma das mudanças feitas em um dos personagens durante a minissérie.
 
O super-herói em questão revelou a identidade secreta ao mundo, mas, na verdade, não foi bem assim. Nada que um dia a mais resolvesse o problema.
 
Mas o leitor, possivelmente, já sabe do que se trata, mesmo sem eu dizer. Se não sabe, não há nada que o site de busca virtual Google não revele. Dica: digite "one more day".
 
O que se vê é uma das conseqüências da revolução proporcionada pela internet.
 
A rede mundial de computadores revolucionou e democratizou o acesso à informação.
 
Uma mesma notícia deixou de ser transmitida exclusivamente por uns poucos veículos, mantidos por empresários que concentra(va)m o monopólio de uma notícia.
 
O cenário é outro, plural, descentralizado. Isso já começa a incomodar alguns governantes, interessados em saber um meio de controlar o acesso virtual à informação.
  
Tudo isso está levando a uma revisão das tradicionais rotinas jornalísticas, de uma modesta resenha à expansão da informação, com seus inegáveis avanços.
 
Este texto não é uma crítica à internet, muito menos a quem gosta de "spoiler".
 
É que me apego ainda ao modelo clássico de resenha, que tenta ser fiel ao "pacto" firmado com o leitor, sem revelar a ele nada a mais do que o encoberto véu narrativo permite.
  
Apesar disso, se para você, leitor, muitas das referências camufladas nesta resenha soaram novas, diria que deve se considerar um felizardo.
 
É um dos raros que vão ter a chance se surpreender com o desfecho de "Guerra Civil".
 
À moda antiga.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h57
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14/01/2008

Um convite a reavaliar o papel da internet nos quadrinhos

A presença dos quadrinhos na internet deixou de ser uma possibilidade e se tornou algo concreto. 
 
Mas houve um momento, iniciado na metade da década de 1980, que marcou a transição do papel para os recursos da informática.
 
Essa passagem é explicada em "HQtrônicas - Do Suporte Papel à Rede Internet", livro que ganha nova edição neste início de ano (Fapesp/Annablume).
 
A obra compila o mestrado do quadrinista e professor universitário Edgar Franco.
 
A pesquisa foi defendida em 2001 na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).
 
Segundo Franco, o conteúdo desta segunda edição é idêntico ao da primeira, que foi lançada em 2004.
 
A diferença é a capa, que foi refeita (ao lado).
 
A nova edição, no entanto, traz o convite para reavaliar o tema, agora com a vantagem de haver uma percepção maior do impacto da internet.
 
As "HQtrônicas" têm a mesma promessa revolucionária de antes?
 
Franco mapeia as primeiras experiências com o uso da computação nos quadrinhos, como a graphic novel norte-americana "Crash!", de Mike Saenz, publicada pela Abril em 1988.
 
De início, o interesse era criar as histórias na tela do computador para, depois, passar a trama para o papel.
 
O desenvolvimento tecnológico levou a novas experimentações virtuais. As histórias passaram a ganhar sons, movimento, alternativas para que o leitor escolha o desfecho da narrativa.
 
O desenhista põe na tela uma seqüência, que termina sempre com uma cena de suspense. Quem dá continuidade à historia é a pessoa que lê. Ela tem a opção de clicar em duas (às vezes em três) possibilidades de desfecho.
 
A escolha leva a uma nova tela, que termina com mais uma rodada de alternativas.
 
O resultado não é exatamente quadrinhos. Também não é um caso de animação como a conhecemos. É uma mescla das duas linguagens.
 
A essa hibridização, o pesquisador deu o nome de "HQtrônica".
 
"É um gênero novo", dizia Franco em entrevista que fiz com ele para o jornal "Folha de S.Paulo", publicada em abril de 2006.
 
"Não havia um termo para se referir a ele. Optei por ´HQtrônicas´ para deixar claro que é um tipo diferente de história em quadrinhos. É um quadrinho eletrônico com todos os recursos que o computador pode oferecer."
 
A mais famosa no Brasil foi a dos heróis "Combo Rangers", personagens criados por Fábio Yabu (leia aqui).
 
Ele usa vários efeitos sonoros: socos, raios, barulhos de explosão. Os sons fazem as vezes das onomatopéias, comuns na linguagem dos quadrinhos.
 
O balão é mantido em "Combo Rangers" e na maioria das demais produções do gênero.
 
Segundo Franco, há uma resitência em abandonar o recurso, próprio da linguagem dos quadrinhos. Para ele, é o que diferencia uma "HQtrônica" de um desenho animado. 
 
O funcionamento das "HQtrônicas" são o mote do livro.
 
Duas das características, bastante pontuadas por Franco, são a interatividade com o leitor e a presença de uma tela infinita.
 
A tela sem fim -rolada para baixo, para a direita ou para a esquerda- põe à prova o suporte fixo do papel e leva, em tese, a uma revolução no modo de produção das histórias.
 
Da constatação das "HQtrônicas" até este início deste 2008, parece haver uma tendência de uso da tela apenas para colar uma história, tornando o visor uma espécie de papel de vidro.
 
O pesquisador já alertava na primeira edição da obra que esse recurso de escaneamento das histórias não pode ser considerado uma "HQtrônica". Continua sendo uma história em quadrinhos, mas lida na tela.
 
O livro de Edgar Franco registrou -muito bem- o importante momento de concepção desse novo gênero, que mescla a linguagem dos quadrinhos com animação.
 
Merece (re)leitura aos olhos do mundo virtual de hoje. E já alerta para a necessidade de uma nova pesquisa para mapear o que se vê atualmente na internet.
 
Uma das perguntas para o novo estudo: predominam as "HQtrônicas" ou apenas o quadrinho tradicional (tiras, por exemplo) justaposto na tela?

Escrito por PAULO RAMOS às 19h41
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13/01/2008

Chega a São Paulo peça que leva linguagem dos quadrinhos ao teatro

 

 

 

 

 

 

"Graphic", do grupo curitibano Vigor Mortis, estreou neste fim de semana em São Paulo

 

 

 

 

 

 

Tem havido nos últimos anos uma aproximação do teatro com os quadrinhos. Mas, até onde a vista alcança, nenhuma dessas adaptações soube pôr no palco a essência da linguagem dos quadrinhos.

É exatamente esse o diferencial de "Graphic", produção do grupo curitibano Vigor Mortis que estreou neste fim de semana em São Paulo.

A peça não se baseia em nenhuma obra em quadrinhos. Mas mescla a narrativa com recursos visuais próprios da linguagem.

Um cubo gigante giratório, posicionado estrategicamente no centro do palco, funciona ao mesmo tempo como cenário e como uma tela improvisada, onde é projetada parte da produção e do pensamento dos personagens.

Boa parte das projeções é feita em quadrinhos. Algumas das seqüências foram produzidas pelo curitibano José Aguiar, autor do álbum "Folheteen", lançado há um ano (leia aqui).

O recurso é necessário para ilustrar a vida e a produção do trio de protagonistas.

São três pessoas que fizeram um curso de quadrinhos anos atrás e que têm o destino cruzado novamente.

O trio disputa a mesma vaga numa editora, que decide investir em quadrinhos.

Cada um vê na oportunidade uma forma de contornar a frustração vista no mercado de quadrinhos nacional.

Rebecca (Carolina Fauquemont) abandonou a produção de fanzines, concluiu o curso de administração de empresas e se tornou funcionária, frustrada, da editora.

O problemático e hilário Artie (Leandro Daniel Colombo, ótimo) –um suicida convicto- é fã do trabalho dela. Os dois se encontram no "Bar do China", cujo dono é obcecado por músicas do "Talking Heads" (China é uma espécie de quarto personagem da peça).

A terceira desenhista é Raf (Rafaela Marques), uma jovem que encontrou no grafite uma maneira de conviver com a arte. Ela faz seus desenhos no trajeto feito por um ônibus.

Os quadrinhos fazem parte do DNA de "Graphic", e não só no texto, escrito por Paulo Biscaia Filho, que também dirige a peça.

A produção soube levar para o palco a essência do que compõe a linguagem quadrinística, mesclando, em compasso ritmado, quadrinhos e encenação.

Quem gosta de quadrinhos vai apreciar o resultado (embora merecesse um final melhor).

A peça começou por Curitiba –onde conquistou quatro prêmios no Festival de Teatro de Curitiba- e migrou para o Rio de Janeiro no ano passado.

A produção também foi indicada ao Troféu HQMix na categoria adaptação para outro veículo. O texto disputou o Prêmio Shell, uma das principais premiações na área de teatro.

SERVIÇO – "Graphic". Onde: Centro Cultural Vergueiro, em São Paulo. Horário: de quinta a sábado, às 21h; domingo, às 20h. Quando: até 10 de fevereiro. Endereço: rua Vergueiro, 1.000, São Paulo. Quanto: R$ 15.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h37
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12/01/2008

Uma época em que um dia a mais era saber quem era o próximo vilão

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Álbum relança histórias do Homem-Aranha desenhadas por Todd McFarlane há 20 anos

 

 

 

 

 

 

 

Há quem o elogie, há quem o critique na mesma proporção. Mas ninguém nega a popularidade dele. E é isso o que justifica comercialmente o lançamento de mais um álbum do Homem-Aranha só com histórias desenhadas por Todd McFarlane.

Não é por acaso que o nome do artista é o único creditado na capa do sexto volume de "Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha". O encadernado –que tinha sido anunciado para dezembro- começou a ser vendido nesta semana (Panini, R$ 25,90, 212 págs.).

McFarlane tem o mérito de desenhar o herói de uma forma inovadora, se comparada a outros artistas que tiveram a incumbência de trabalhar com o Homem-Aranha.

Muito dessa inovação se deve a uma diagramação diferenciada e a um traço detalhado e ágil, que valoriza os movimentos do protagonista.

O estilo de McFarlane agradou. Tanto ele quanto a revista ganharam popularidade, ainda mais numa época que a Marvel Comics, editora do Homem-Aranha, parecia dar mais destaque aos desenhos da revista do que à trama em si.

Repare, por exemplo, o pouco destaque dado a David Michelinie, o roteirista das histórias.

Este volume de "Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha" reúne nove aventuras de "Amazing Spider-Man", principal revista do herói nos Estados Unidos, publicadas entre outubro de 1988 e abril de 1989.

O personagem enfrenta antigos vilões, como Duende Verde, Mystério e Lagarto.

Mas o maior desafio dele, no entanto, não envolve supervilões. Nas primeiras histórias do álbum, ele tem de encontrar sua esposa, a modelo Mary Jane, seqüestrada por um fã.

Era uma época bem mais simples na vida do herói. Não havia, como ocorre hoje, tramas excessivamente introspectivas, revelações de identidade. 

"Um dia a mais" -para quem gosta dos chamados "spoilers"- significava apenas saber quem seria o próximo supervilão (e não o "ctrl alt del" da vida do herói feito há pouco pela Marvel).

O material já tinha sido publicado no Brasil pela Editora Abril na década de 1990, mas num formato menor (o chamado formatinho). Além de serem lançadas no tamanho original, as histórias ganharam nova tradução.

As aventuras continuam do ponto onde o quinto volume parou.

A edição anterior de "Os Maiores Clássicos do Homem-Aranha", lançada em maio de 2007, mostrava as oito primeiras aventuras desenhadas por McFarlane (leia mais aqui).

Em 1990, o desenhista passou também a escrever as histórias do Homem-Aranha, numa revista criada exclusivamente para o artista.

Pouco depois, McFarlane e um grupo de desenhistas deixaram a Marvel para criar a Image Comics. Na nova editora, ele criou o personagem Spawn, publicado no Brasil pela Pixel.

Escrito por PAULO RAMOS às 17h51
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11/01/2008

F.D.P.: o primeiro trabalho independente a dar as caras em 2008

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Capa da revista "F.D.P.", que mostra as aventuras de um jornalista antiético, violento e irritante
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O quadrinho independente brasileiro em 2007 foi além do que diz o ditado: cresceu, apareceu, articulou-se num selo próprio, o Quarto Mundo, e se tornou um dos destaques do ano que passou.
 
Este início de 2008 tem o papel de mostrar para onde vai caminhar a produção independente brasileira.
 
Esse "quo vadis" ainda não é respondido por "F.D.P. - Se Não Morrer Ninguém, Não É Notícia", que começou a ser vendido na virada do ano. Mas a obra dá uma pista.
 
A publicação de 28 páginas, escrita pelo recifense Leonardo Santana e desenhada pelo alagoano José Henrique, tenta construir uma história maior do que costuma ocorrer nos títulos independentes.
 
Essa tendência já vinha ganhando contorno na segunda metade do ano passado.
 
O grupo mineiro da revista independente Graffiti e os responsáveis pela editora Desiderata, do Rio de Janeiro, lançaram álbuns nacionais com narrativas mais longas, aos moldes do que é feito nos Estados Unidos e na Europa.
 
Outro ensaio disso, mais parecido com o feito em "F.D.P.", foi a revista "Nanquim Descartável", de Daniel Esteves, publicação que também tem personagens fixos e que quer chegar a um segundo número (leia aqui).
 
O foco de "F,D.P." está no jornalista Fernando Drummond Pessoa. O nome dele vem dos poetas Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.
 
A sigla do nome serve de título à revista e faz uma intencional analogia à redução do palavrão homônimo. Intencional porque Fernando age exatamente como um fdp.
 
É antiético, irritante, atira em bandidos a quem deve dinheiro e a quem não deve nada.
 
Santana, que já tem quatro prêmios como escritor de quadrinhos independentes, constrói um personagem forte e marcante.
 
Mas a trama da edição de estréia perde um pouco o rumo do meio para o fim.
 
A narrativa pula da vida truculenta de Fernando para um combate à la histórias de super-heróis. O seqüestrador da vez se transforma, do nada, num ser com poderes capazes de matar alguém à distância.
 
Numa tentativa de analogia, seria algo como se Preacher ou Spider Jerusalém, personagens do selo Vertigo, da norte-americana DC Comics, enfrentassem algum dos vilões dos X-Men.
 
F.D.P., ou Fernando Drummond Pessoa, é um personagem instigante, a começar pelo nome. Falta apenas uma cara própria para a história que ele protagoniza.
 
Com um sutil ajuste narrativo, a série pode se firmar como uma interessante opção de leitura independente neste novo ano. 
 
"F.D.P." custa R$ 5. Uma das formas de ter acesso à revista é por meio do site Bodega, especializado em produções independentes. Visite neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h57
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31/12/2007

Brat Pack faz crítica a heróis e a editoras que os publicam

 

 

 

 

 

 

 

Capa da minissérie já dá o tom da crítica ao universo dos super-heróis norte-americanos

 

 

 

 

 

 

 

O 12º número de "Watchmen", lançado nos Estados Unidos em 1987 pela DC Comics, encerrava a minissérie, mas não a proposta por ela representada.

O tratamento ultra-realista dos super-heróis inspirou outras tramas nos anos seguintes.

Uma delas é "Brat Pack", que começou a ser vendida no Brasil em novembro (HQM, R$ 29,90, 186 págs.) e que este blog resenha com atraso.

O álbum, escrito e desenhado por Rick Veitch no começo dos anos 1990, não faz uma cópia de "Watchmen". A obra dá alguns passos além. Critica não só a estrutura dos super-heróis norte americanos como também a indústria que os publica.

A trama é centrada na atuação dos chamados "sidekicks", os parceiros mirins dos grandes e populares heróis.

O que mais se destaca é Chippy, o "menino sensacional", versão de Robin no fictício mundo criado por Veitch.

Quem usa a máscara, o minúsculo calção de Chippy é o que menos importa. Se o dono do uniforme morre, como ocorre no início da história, outro garoto é selecionado para tomar o lugar.

Mas o novo usuário do uniforme tem de concordar com o modus operandi de seu parceiro, Doninha Noturna, o Batman de "Brat Pack" (expressão que é traduzida como "bando de pirrralhos" no álbum).

Uma das atribuições é ser parceiro também sexual do herói, rótulo que persegue a dupla Batman e Robin até hoje, principalmente em piadas.

Seguramente existe aí uma das várias cutucadas de Veitch na DC Comics.

Anos antes, ele tinha saído da editora ao ver recusada uma de suas histórias, um encontro entre o personagem Monstro do Pântano com Jesus Cristo.

A própria morte do primeiro Chippy é outra crítica à editora.

A DC Comics havia feito uma votação para decidir se o segundo Robin, Jason Todd, deveria morrer. Os leitores decidiram pela morte. No álbum de Veitch, votação parecida é feita por um programa de rádio.

A bronca de Rick Veitch com a DC Comics terminou em lua de mel. Hoje, ele faz novos trabalhos para a editora, mas nenhum tão ácido como "Brat Pack".

A obra foi publicada num momento em que a indústria norte-americana de quadrinhos estava em crise editorial e criativa.

O álbum aproveita e escancara essa crise, percebida com mais facilidade hoje por causa do distanciamento histórico.

Essa interpretação é reforçada pelo prefácio de Neil Gaiman, autor da série "Sandman". Gaiman faz um esclarecedor texto nas páginas inicias da obra.

Começaria por esse texto. Ajuda a entender melhor o destrutivo universo criado por Veitch.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h21
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27/12/2007

Adaptação de Irmãos Grimm tira ar de ingenuidade dos contos

 

 

 

 

 

 

 

Capa do álbum, que mostra 14 versões em quadrinhos de contos dos Irmãos Grimm

 

 

 

 

 

 

Não deixa de ser curioso. Um ano marcado pela revitalização das adaptações literárias em quadrinhos termina com mais um lançamento do gênero.
 
"Irmãos Grimm em Quadrinhos" (Desiderata, R$ 24,90) traz 14 contos inspirados nos textos dos alemães Jacob (1785-1863) e Willhelm Grimm (1786-1859).
 
Os dois irmãos transformaram em contos literários as várias narrativas orais populares que ouviam no início do século 19.
 
Várias são famosas até hoje e devem ser as primeiras a serem reconhecidas pelo leitor do álbum em quadrinhos, caso de "A Bela Adormecida" e "Chapeuzinho Vermelho", para ficar em dois exemplos.
 
A obra da Desiderata -que traz também outros contos desconhecidos do grande público- parte do princípio de como tais narrativas seriam se contadas na linguagem dos quadrinhos.
 
O resultado ficou a cargo dos 17 autores nacionais que participaram do projeto, entre eles S. Lobo, editor da obra e da área de quadrinhos da Desiderata.
 
A maioria vem de trabalhos alternativos, feitos em publicações independentes ou na internet.
 
Essa opção editorial tirou da obra o ar infantil, o que torna o trabalho ainda mais interessante.
 
As histórias têm um traço mais pessoal (underground, em alguns casos), uso de palavrões (pouquíssimos) e cenas de nudez (poucas também).
 
E não espere ver nas adaptações o ar ingênuo das animações feitas por Walt Disney.
 
A irmãs malvadas de "A Gata Borralheira" têm de cortar partes dos pés para fazê-los entrar no sapatinho deixado para trás após o baile com o príncipe.
 
Outro exemplo. "Rapunzel" fica menstruada, é mantida presa numa torre pela madrasta e, lá, é mostrada nua ao lado do amado.
 
Mais do que uma adaptação, a obra é um convite aos adultos de hoje relembrarem, com outro enfoque, os contos até então pueris que viram ou leram quando crianças.
 
"Irmãos Grimm em Quadrinhos" é o terceiro álbum em quadrinhos da editora carioca lançado no último trimestre.
 
A Desiderata tinha programado para 2008 outros trabalhos na área (leia mais aqui).
 
Não se sabe ainda se a negociação com a Ediouro, que finaliza a compra da Desiderata, vai interferir nessa política (leia aqui).
 
O Blog antecipou algumas imagens de "Irmãos Grimm em Quadrinhos" quando noticiou o lançamento em novembro (na época, a informação é que seriam 18 contos, e não 14).
 
Veja as imagens neste link.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h41
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26/12/2007

Álbum torna mais acessível passagem da família real pelo Brasil

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "D. João Carioca", obra que começou a ser vendida neste mês

 

 

 

 

 

 

Há um inegável lado estratégico no álbum "D. João Carioca - A Corte Portuguesa Chega ao Brasil (1808-1821)", lançado neste neste mês (Cia. das Letras, R$ 33).

A obra em quadrinhos começa a ser vendida a poucos dias do ano que marca os dois séculos da vinda da família real portuguesa, no início do século 19.
 
Fugindo das invasões francesas, o príncipe Dom João vê na vinda ao Brasil a saída para manter a realeza.
 
Esse lado estratégico do álbum, no entanto, não tira o valor do álbum, de 95 páginas. Ou os valores do álbum.
 
O primeiro mérito da obra é saber contar esse capítulo da história brasileira de um modo que se torna acessível aos mais jovens e conteudisticamente interessante aos adultos.
 
O texto de Lilia Moritz Schwarcz, especialista no tema, dá a profundidade necessária a quem quer se iniciar no assunto, mas sem perder o humor.
 
Isso dá leveza à leitura, o outro ponto positivo da obra.
 
A evolução cronológica dos fatos é narrada com pitadas de diálogos cômicos, evidentemente ficcionais.
 
O uso do humor foi uma boa saída encontrada por Schwarcz para ilustrar cada um dos eventos históricos, difíceis de serem conduzidos na linguagem dos quadrinhos com cem por cento de precisão.
 
Nesse ponto, seguramente contribuíram no processo de construção da narrativa real os desenhos de Spacca, premiado em quatro categorias do Troféu HQMix de 2006 pela biografia de Santos-Dumont (leia aqui).
 
O traço dele casa com a proposta leve de leitura, sem dela tirar o necessário tom factual.
 
O desenhista usou fotos e pinturas -citadas ao lado dos quadrinhos em que aparecem- para compor os personagens e cenários representados em "D. João Carioca".
 
As páginas finais do álbum mostram um pouco desse trabalho de pesquisa, tão interessante quanto a leitura da obra em si.
 
É de se lamentar apenas a não-inclusão de reproduções das pinturas que serviram de referência.
 
Esse método de Spacca, na verdade, não é novo.
 
Ele também usou referências em pintura para narrar a biografia do pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848), personagem que aparece rapidamente neste "D. João Carioca".
 
Debret também migrou para o Brasil, mas em 1815, alguns anos depois da família real portuguesa.
 
O resultado foi mostrado em "Debret em Viagem Histórica e Quadrinhesca ao Brasil", álbum lançado há exatamente um ano, também pelo Cia. das Letras (leia mais aqui).
 
Talvez o mérito final de "D. João Carioca" seja sua difusão. A história da vinda dele e da coroa portuguesa ao Brasil, na forma de quadrinhos, tem grande chance de chegar a um público maior, de diferentes faixas etárias.
 
Em livro, teria o mesmo potencial de difusão? Dificilmente.
 
Para encerrar, apenas um registro: Lailson Cavalcanti também quadrinizou a vinda da família real ao Brasil.
 
O resultado foi publicado ao longo do ano na revista "Nossa História". Leia mais aqui.
 
Post postagem: os leitores deste blog me lembram de outro lançamento deste ano que abordou o assunto: "Ponha-se na Rua!", de André Diniz e Tiburcio. Só não o mencionei por puro esquecimento. Leia mais sobre a obra aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h07
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20/12/2007

Quem te viu, quem te vê. Super-Homem era outro há 70 anos

Há um inegável valor histórico no livro "Superman Crônicas", que começou a ser vendido nesta semana (Panini, R$ 56).
 
A obra não só traz as primeiras histórias de Super-Homem mas também mostra como se deu o surgimento do gênero super-heróis.
 
Heróis com uniformes não era algo inédito em 1938, ano em foi publicada a primeira aventura do homem de aço.
 
Alguns anos antes, o "Fantasma" já perambulava com máscara e um calção por cima do traje que usava para combater o mal.
 
Mas foi com o herói de roupa azul, vermelha e amarela que os superseres surgiram nos quadrinhos.
 
Super-Homem é um fruto da imaginação dos jovens Joe Shuster (1914-1992) e Jerry Siegel (1914-1996).
 
A criação da dupla se tornou tão popular que seria até redundante lembrar que o personagem é o único sobrevivente do extinto planeta Krypton.
 
Enviado à Terra em um foguete, que cai especificamente nos Estados Unidos, ele cresce com habilidades físicas muito acima das dos demais habitantes.
 
A origem é contada logo nas primeiras páginas da história de estréia, publicada na revista "Action Comics" número um, de julho de 1938. É também a que abre "Superman Crônicas".
 
Nessa época, os autores diziam que ele não tinha sido adotado. Foi descoberto dormindo dentro do foguete e conduzido a um orfanato. Adulto, tornou-se o repórter Clark Kent.
 
Essa não é a única diferença em relação ao Super-Homem que se lê hoje. E não só nos superpoderes, que, no fim da década de 1930, eram sensivelmente menores (ele tinha força acima da média e dava enormes saltos, nem sequer voava).
 
O personagem de Shuster e Siegel era caracterizado como um ser obsessivamente preocupado em ajudar pessoas comuns -e não em enfrentar supervilões-, sem medir esforços para isso.
 
O modus operandi do herói, para se ter uma idéia, era se disfarçar de outra pessoa. 
 
Nestas primeiras histórias, ele se torna mineiro, jogador de futebol americano, prisioneiro, personagem de circo, soldado.
 
A vida de soldado é mais um elemento da obsessão dele em levar malfeitores à cadeia.
 
O herói se alistou para acompanhar um produtor de munições, que fazia fortuna com uma guerra. Era a forma que encontrou de convencê-lo a abandonar a atividade.
 
Outro dado que certamente causa estranhamento quando lido hoje é o comportamento ético do super-herói.
 
Ele manifesta atitudes agressivas e diz frases ora debochadas, ora violentas, sem a tradicional preocupação com o bem-estar dos outros.
 
Um caso, para ilustrar. Ao ameaçar um capanga, dobra uma barra de aço e diz:
 
"Está vendo como dobro sem esforço esta barra de ferro em minhas mãos? Ela poderia facilmente ser seu pescoço."
 
Quadrinho seguinte, dizendo o que faria com o vilão se este não embarcasse num navio no dia seguinte:
 
"Se não encontrá-lo a bordo quando ele zarpar, juro que vou segui-lo para qualquer buraco em que se esconda e arrancarei seu coração cruel com minhas próprias mãos."
 
Para registro: o super-herói o seguiu mesmo assim.
 
Esse tom persiste em todas as histórias dessa fase, em maior ou menor grau. Mas funcionou.
 
O herói ganhou popularidade a ponto de conquistar uma revista própria, em julho de 1939 (também presente em "Superman Crônicas"), que recontou a origem do herói, agora adotado pelos Kent.
 
O livro da Panini, produzido em capa dura e papel especial, traz as primeiras 15 histórias do herói, publicadas de julho de 1938 a julho do ano seguinte.
 
A edição traz ainda uma reprodução da primeira revista do herói publicada no Brasil em novembro de 1947 pela Ebal (Editora Brasil-América Ltda.).
 
Embora o nome da revista fosse em inglês, nas páginas internas o personagem teve o nome traduzido para Super-Homem. E Lois Lane era Miriam Lane.
 
As primeiras histórias do Super-Homem já foram publicadas por outras editoras, como a L&PM.
 
Mas nenhuma das obras teve um tratamento editorial que fizesse jus à importância do material, como faz agora a Panini com Super-Homem e como fez com Batman, em obra similar lançada em setembro (leia mais aqui). 

Escrito por PAULO RAMOS às 19h09
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19/12/2007

Livro analisa tiras cômicas como um dos gêneros do jornalismo

Há diferentes perspectivas teóricas para pesquisar os gêneros dos quadrinhos, nem todas coincidentes.

Uma delas, mais rara, é a que vincula as diferentes formas de produção quadrinística à área jornalística.

É com esse olhar que o professor universitário Marcos Nicolau enxerga as tiras no livro "Tirinhas – A Síntese Criativa de um Gênero Jornalístico".

A obra começou a ser vendida nesta semana (Marca de Fantasia, R$ 11).

O teor jornalístico das tiras, para ele, não se resume ao fato de serem publicadas em jornal.

Seria mais que isso. No entender do autor, os cem anos de produção delas permitem afirmar constituam um dos gêneros do jornalismo.

A fundamentação é feita na primeira parte do livro, a mais importante das 68 páginas da obra. Nicolau aproxima as tiras –ou tirinhas, como ele prefere- de outras produções rotuladas de jornalísticas, mas que não seguem à risca os manuais de redação.

É o caso das crônicas, que possuem uma liberdade de conteúdo e de estética próprias, algumas vezes com função de entretenimento.

Para Nicolau, o mesmo ocorreria com a tira cômica.

No entender dele, "ela traz em seu texto muito da literariedade encontrada na crônica e da denúncia ou crítica apresentada pelo artigo."

Esse diálogo com o cotidiano seria um dos elementos que aproximariam as tiras do jornalismo. Tal qual o cronista, o desenhista faria por meio dos quadrinhos um olhar próprio da sociedade moderna.

Nicolau consegue fundamentar essa premissa com propriedade, inclusive teórica.

É uma contribuição científica inovadora, posto que caminha na contramão do pouco que se estudou sobre o assunto no país.

Por isso mesmo, a aplicação das idéias teóricas no corpus de análise teria uma responsabilidade ainda maior de comprovar a premissa ao leitor.

Mas não é o que ocorre. O autor se restringiu a uma descrição rápida das características de algumas tiras, como "Hagar, o Horrível", "Calvin e Haroldo", "Rango" e "Mafalda".

Sem essa aplicação mais aprofundada, fica difícil convencer o leitor de que uma tira como "Níquel Náusea", outro exemplo citado na obra, seja jornalística.

Marcos Nicolau abre uma discussão pertinente não só sobre as tiras como também sobre o diálogo entre os quadrinhos e o jornalismo, ainda pouco explorado academicamente.

Mas é um início de discussão. Que venham outros estudos.

Nota: a obra é vendida somente no site da Marca de Fantasia. Para acessar, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 23h16
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Morre Borges de Barros, a voz do Dr. Smith

Esta notícia não tem muito a ver com quadrinhos, mas merece registro.

Soube hoje, com atraso, da morte de Borges de Barros. 
 
O nome dele talvez seja desconhecido da maioria. Mas a voz dele, ao contrário, ficou marcada na memória da geração que hoje passou dos trinta anos.
 
Borges de Barros foi o dublador do medroso Dr. Smith, da série "Perdidos no Espaço", exibida no Brasil na segunda metade da década de 1960.
 
Na época, o ator do personagem, Jonatahn Harris, também falecido, disse ser do brasileiro sua melhor interpretação fora dos Estados Unidos.
 
São dele bordões como "nada tema, com Smith não há problema" e "oh, dor!"
 
Mais do que sincronizar sua voz à do ator estrangeiro, Barros interpretava o personagem. Invariavelmente, somava algo a quem dublava, algo que era muito comum nas dublagens da época, em especial da empresa AIC-SP.
 
Foi assim também com o Pingüim do seriado Batman com Adam West, com o Moe de Os Três Patetas, com as inúmeras pontas que fez em filmes e outras séries.
 
Borges de Barros -que também atuou por décadas nas diferentes versões da "Praça é Nossa"- se diferenciou também por outro motivo: foi um dos felizardos de sua geração que teve a dublagem preservada.
 
As versões em DVD de "Perdidos no Espaço" e algumas de "Os Três Patetas" mantiveram a dublagem original. As exibições de "Batman" também têm feito isso.
 
Mas isso, inexplicavelmente, não é regra.
 
Ou a dublagem foi inexplicavelmente perdida (caso de Agente 86) ou, pior, a empresa opta por redublar os episódios para dar um ar de atualidade, ineditismo ou para contornar o uso de expressões da época (caso da trilogia "De Volta para o Futuro").
 
Há casos também de empresas que ignoraram a dublagem -que existe- e lançaram DVDs com legendas (vide "Esquadrão Classe A").
 
Na verdade, os motivos são inexplicáveis. Na prática, servem apenas para matar o talento de um grupo de atores que tem seu trabalho eliminado da memória cultural brasileira.
 
Só o fato de não haver uma cultura de preservação dessas dublagens é prova disso.
 
Borges de Barros pode ter seu trabalho (re)visto nos DVDs de "Perdidos no Espaço" e de alguns de "Os Três Patetas".
 
Seria no mínimo justo com a memória cultural do país se o mesmo pudesse ser dito de outros dubladores da época.
 
Em tempo: segundo o site "RetroTV", especializado em seriados, Borges de Barros morreu no último dia 12, de parada cardíaca durante sessão de hemodiálise. Tinha 87 anos.
 
Ironicamente, Barros morreu 34 dias depois de Helena Samara, que também dublou "Perdidos no Espaço". Ela fazia a voz de Maureen Robinson.
 
Samara também dublou Vilma Flintstone, Endora de "A Feiticeira" e a Bruxa do 71, do seriado "Chaves". 

Escrito por PAULO RAMOS às 19h31
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