30/07/2006

A LÍNGUA MUDA... E OS QUADRINHOS ACOMPANHAM

Aos poucos, os estudos sobre a influência da língua oral ganham força nas universidades brasileiras. A última novidade sobre o assunto é um artigo do professor Jean Lauand, da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo). Ele comparou edições diferentes de uma mesma história do Tio Patinhas e mostrou as adaptações que foram feitas para adequar os diálogos aos novos tempos. A pesquisa foi publicada na última edição da revista "Língua Portuguesa" (número nove).

Lauand trabalhou com a história "Tio Patinhas e os Índios Nanicós", de Carl Barks. A aventura foi publicada pela primeira vez no Brasil em 1958, na revista "Pato Donald" 334. Teve reedições em 1967, 1982, 1988 e 2004 (esta no oitavo número de "O Melhor da Disney"). O cerne do estudo -embora não seja o único- está na comparação entre os extremos, 1958 e 2004. Constatou muitas diferenças no trato com a língua ao longo das décadas. Algumas, extraídas dos balões apresentados nas histórias:

Presença dos pronomes

1958 - "Diga-lhes" / 2004 - "Diga a eles"

Uso do futuro

1958 - "Que faremos agora?" / 2004 - "E agora? O que vamos fazer?"

Uso de vocabulário

1958 - "Eis o novo lago" / 2004 - "Lá está o outro lago"

1958 - "Que pretende caçar?" / 2004 "O que vai caçar?"

Interjeições trocadas

1958 - "Puxa! Mas que ar saudável e revigorante!" / 2004 - "Oh, que ar saudável!"

1958 - "Boing! Aí vem ele!" / 2004 - "Uau! Aí vem ele..."

1958 - "Credo! Não adiantará enfrentá-lo com uma canoa!" / 2004 - "Ai, ai, ai! Não adiantará enfrentá-lo com uma canoa!"

Para o professor da USP, é exagerado dizer que há uma nova língua. O que ocorre é um acompanhamento das mundanças do português falado no Brasil. A percepção dele empata com a forma como as edições são trabalhadas pela Abril. Segundo Emerson Agune, editor das revistas Disney, a tradução é a mais fiel possível. Mas conta que segue algumas orientações: "evitar o uso de gírias regionais, adequar a fala ao personagem e ser fiel às intenções do autor. Conforme a própria matéria da revista Língua Portuguesa apontou, fazemos a atualização para que seja a linguagem usada hoje pelos falantes de língua portuguesa."

Há dois estudos pioneiros sobre o assunto. Um é de 1973, de autoria de Dino Preti, ex-professor da USP, hoje na PUC paulistana (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). O pesquisador estudou 37 edições da revista "Mônica" do início dos anos 70, quando ainda saíam pela Abril. Constatou que os personagens de Mauricio de Sousa, apesar de crianças, falavam como adultos. Não havia uma preocupação de adequar o conteúdo dos balões ao modo de falar de uma criança. Foi publicado em forma de artigo no oitavo número da já extinta "Revista de Cultura Vozes" (dedicada ao pensamento cientìfico das então ciências artísticas de vanguarda).

O outro estudo é de 2001. É uma dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Clarícia Akemi Eguti pesquisou como se dava a "representatividade da oralidade nos quadrinhos", o tema da dissertação. Ela analisou e exemplificou cada detalhe da linguagem dos quadrinhos, desde os balões até as onomatopéias. A conclusão é que há diversas maneiras de representar a língua oral nas histórias em quadrinhos. É só parar, observar e constatar.

O artigo de Jean Lauand pode ser lido na íntegra no site da revista "Língua Portuguesa". Vale conferir. Clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h20
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21/07/2006

AS PANELINHAS DOS QUADRINHOS

O meio editorial brasileiro vive de panelinhas. Há torcida contra, boicotes a lançamentos e a determinadas publicações. A opinião é do jornalista e pesquisador  Gonçalo Junior, autor do livro "A Guerra dos Gibis" e vencedor na categoria contribuição aos quadrinhos no HQMix deste ano. Seu ponto de vista sobre as panelinhas no mundo dos quadrinhos está na coluna que ele mantém no site Bigorna.
 
Gonçalo defende a idéia de que há três tipos de panelas: os que fazem, os que não fazem e os que só sabem falar. Algumas frases do artigo (começando pela descrição do "terceiro" grupo, o dos que só sabem falar):
 
- O terceiro reúne os chamados espíritos de porco, fofoqueiros, intrigueiros, paranóicos, psicóticos. São criaturas que agem pela internet, criam personagens fictícios para ofender, destratar, difamar.
 
- Quadrinhos no Brasil são como torcida de futebol. Se um caiu para a segunda divisão, os outros querem vê-lo na terceira. Ou mesmo extinto.
 
- Como em qualquer atividade profissional humana, porém, existem as panelinhas nefastas, aquelas que atropelam valores éticos e morais em nome do se dar bem a qualquer custo para seus acampados membros. 
 
- Essa mesquinharia vai matar o mercado.
 
Texto instigante, corajoso, provocador. Para dizer o mínimo. Merece leitura. Clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h29
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