Livro de tiras revela um outro lado de Marcelo Campos

O leitor que conhece o trabalho do brasileiro Marcelo Campos feito com super-heróis vai estranhar o livro de tiras "Talvez isso...", editado pela Casa 21.

A obra, que tem lançamento nesta sexta-feira em São Paulo, é diferente de tudo o que o desenhista já fez. Parece até um outro artista.

São 72 tiras não cômicas. O tema é o lado existencial e filosófico do ser humano.

Em vários momentos, as histórias se assemelham às "tiras filosóficas" que o cartunista Laerte produziu para o caderno "Ilustrada" da "Folha de S.Paulo".

O desenhista de 42 anos diz que, na verdade, esse é o eu verdadeiro dele, escondido enquanto realizava outros trabalhos.

A válvula de escape para essa nova produção foi por meio de um blog que criou em 2006.

A página virtual, hoje, não se limita só a tiras. Apresenta experimentações dele em outros formatos também.

Campos ficou mais conhecido do leitor brasileiro, curiosamente, por causa dos trabalhos feitos para editoras norte-americanas.

Começou no mercado externo em 1989. Em 1991, já desenhava para a DC Comics, editora de Super-Homem e Batman.

Em poucos meses, Marc Campos, como assina à época, assumiu a arte da revista mensal da Liga da Justiça, uma das principais da DC.

Por ser um dos primeiros brasileiros a atuar nos Estados Unidos, recebeu muitas críticas de outros desenhistas à época.

A acusação mais ouvida é que havia se "vendido" (ele comenta a polêmica aqui).

Paralelamente, criou por aqui o personagem Quebra-Queixo, lançado em mais de um álbum.

Hoje, ele divide o tempo entre os desenhos e a direção da Quanta, academia de desenho que mantém em São Paulo, onde mora (o trecho não ambíguo: ele mora na escola).

Separado, vive um novo momento de vida.

O desenhista sul-mato-grossente -nasceu em Três Corações- fala sobre essa nova fase, pessoal e profissional, na reveladora entrevista a seguir, feita por e-mail.

Ele comenta o que o motivou a fazer uma produção mais existencial, fala sobre as semelhanças com as tiras filosóficas de Laerte e que pretende, daqui para a frente, evitar outros tipos de produção.

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Blog - Seu novo livro mostra um outro Marcelo Campos, algo diferente de tudo o que você já fez. Por que essa mudança? 

Marcelo Campos - Na verdade, este sou eu. Nunca me identifiquei com o que fazia em quadrinhos, tanto que não tenho nada do que produzi até hoje, seja como ilustrador, animador, ou desenhistas de quadrinhos para o mercado nacional ou de fora. Com exceção do Quebra-Queixo, que ainda guardo porque, apesar de ele não ter muito a ver comigo, é um personagem que eu criei. Minhas reais influências são outras e acho que aqui elas aparecem mais. Leio sobre filosofia, antropologia, religião, ciência... A Quanta – minha escola de artes – tem esse nome porque leio muito sobre física quântica. Mas todos esses temas são lidos de uma maneira muito diferente, sempre procurando uma outra perspectiva de entendimento, mais subjetiva, paralela. Como as tiras. Vejo isso porque cada amigo que lê uma tira a entende de maneira diferente, inclusive da minha. Acho isso fantástico! Aí percebi que estava no caminho certo.

 

Blog - Em geral, temas assim são abordados em histórias mais longas. Por que a escolha das tiras, que possuem um formato mais reduzido?

Campos - Foi uma coisa muito natural. Tinha idéias bem concisas sobre pensamentos a respeito da vida e do que vejo como existência que acabaram saindo por essa vertente. Não foi um direcionamento consciente. Apenas aconteceu. Tenho produzido alguns outros materiais mais longos agora que estão no meu blog. Páginas... No mesmo tom das tiras, mas onde posso trabalhar melhor alguns pensamentos.

 

 

Blog - Há alguma semelhança com as "tiras filosóficas" de Laerte. Você se pautou nelas para produzir as suas?

Campos - Gosto muito das tiras filosóficas do Laerte, adoro o trabalho dele. Mas não foi isso, não. Quando comecei o blog com este material, o Laerte me mandou um e-mail dizendo que tinha curtido muito as tiras. Foi um elogio e tanto pra mim. Mas isso tudo foi uma coisa muito natural pra mim, mesmo. Eu não queria mais fazer quadrinhos. Não queria mais trabalhar com “linhas narrativas” no sentido em que elas são aplicadas normalmente. Queria algo diferente, mas nada foi “pensado”, planejado. Quando vi, tinha um monte dessas tiras, e fiquei contente com isso. Mostrava só pros amigos, e eles me convenceram em abrir o blog. 

 

Blog - Os temas existencialistas deste novo trabalho casam com um novo momento pessoal vivido por você?

Campos - Certamente. É um momento muito especifico da minha vida. Muitas coisas aconteceram comigo nos últimos 13 anos, pelo menos. Muitas delas bastante dolorosas em termos de vivência, o que me fez direcionar minha vida para outras estradas, ou pelo menos ser “obrigado” a ver minha vida e toda essa questão de existência de outra maneira.

 

Blog - Esse lançamento foi uma surpresa. Como se deu a negociação do livro? Como chegou até a editora Casa 21?

Campos - Bom, isso aconteceu quando o David Lloyd [desenhista da minissérie "V de Vingança"] esteve aqui na Quanta, em uma de suas visitas. O Roberto Ribeiro [editor da Casa 21] me perguntou o que eu andava fazendo e eu disse que não estava mais trabalhando pros Estados Unidos, estava cuidando da escola. Ele me perguntou se eu tinha parado mesmo de desenhar e tal. Eu disse que estava fazendo umas tiras estranhas. Ele me pediu pra ver. Gostou delas e disse que tinha interesse em publicá-las. Foi assim. A partir daí, começamos a negociar. Nunca fui tratado tão bem por um editor como foi com o Roberto. Conversávamos sobre as tiras, seus significados e tudo mais. Não era um papo sobre como lançaríamos, mas sobre os conceitos envolvidos. Achei isso honesto como as tiras. Foi isso. Duas outras editoras viram o material, mas acabei fechando com o Roberto.

 

 

Blog - Daqui para a frente, para onde procura direcionar sua produção?

Campos - Eu não sei. Não planejo absolutamente nada na minha vida. Tenho feito estas outras páginas no meu blog e também estou escrevendo um livro pra mim. Só mostrei pra uns amigos... Só pra ver se é muito ruim! Não tenho a pretensão de publicá-lo. Ele é muito maluco pra isso. Acho que nenhum editor publicaria isso!

 

Blog - Quebra-Queixo e super-heróis nunca mais?

Campos - Eu não digo nunca, mas... se eu puder evitar, vou evitar. Isso tudo é uma questão de escolha de como quero viver. Eu larguei tudo. Tenho ofertas de trabalho o tempo todo, mas estou cuidando da escola e pra mim isso está legal. Não tenho dinheiro e moro na minha escola. Tudo é uma questão de escolha, e estou escolhendo viver agora. Trabalhei muito... Muito mesmo. Batalhei por uma porrada de coisas e agora estou livre de certos conceitos. É assim que me sinto... estou vivendo. Apenas. 

Clique aqui para ter mais detalhes sobre o lançamento de "Talvez isso...".