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24/08/2007
Personagem de tira é usada em semana temática sobre lesbianismo
Cartão com Katita, personagem lésbica criada por Anita Costa Prado
Uma personagem de histórias em quadrinhos estampa um cartão postal, que vai ser distribuído na Semana da Visibilidade Lésbica. O evento começa nesta sexta-feira à noite em São Paulo.
Katita é a personagem-título de uma tira criada pela escritora paulistana Anita Costa Prado, uma militante de causa sociais e homossexuais. A protagonista da tira é lésbica.
Anita diz que a relação com a Cads (Coordenaria de Assuntos de Diversidade Sexual), que organiza a semana temática, é antiga, vem desde 1995. O órgão é ligado à prefeitura paulistana.
"Em 95, [a Cads] fez uma exposição para os dez anos da Katita", diz a escritora. "No ano passado, fez um postal que foi muito bem recebido."
Para este ano, Katita vai estar também em uma cartilha e em jogos de passatempos, distribuídos na semana sobre lesbianismo (leia a programação aqui).
Katita começou a ganhar mais projeção no ano passado. Um livro da editora independente Marca de Fantasia reuniu uma série de tiras da personagem. A obra foi lançada em junho de 2006 (leia aqui).
"Katita - Tiras sem Preconceito", nome da obra (capa ao lado), foi o principal destaque do 23º Prêmio Angelo Agostini, promovido pela Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo.
O livro, desenhado pelo cearense Ronaldo Mendes, foi escolhido como melhor lançamento de 2006 e Anita, a melhor roteirista (leia mais aqui).
Nesta entrevista, feita por e-mail, Anita dá mais detalhes da participação da personagem na Semana de Visibilidade Lésbica e fala da vontade de tornar a personagem mais conhecida do grande público.
Blog - Como será feita a distribuição do cartão?
Anita Costa Prado - Kits contendo o postal, cartilhas sobre a saúde da mulher e a publicação de jogos e passatempos, além de informativos serão distribuídos nas intervenções que ocorrerão em diversos estabelecimentos e nos eventos.
Blog - No seu entender, o que representa a inserção de um personagem de quadrinhos em um evento como esse?
Anita - Representa um espaço valioso para divulgar uma personagem que, por sua orientação sexual, sofreu preconceito editorial e pessoal, Hoje a Katita é premiada e reconhecida, mas sempre serei grata ao coordenador da Cads, Cássio, e um anjo nipônico chamado Takeo, pessoas que me apoiaram antes mesmo de ter um livro da Katita publicado. E, no que se refere a quadrinhos especificamente, é uma afirmação de que a história em quadrinhos pode ser um veículo utilizado em diversos setores, como propagação de idéias, conceitos ou mero entretenimento.
Blog - Quais os próximos planos para a Katita?
Anita - A Katita foi publicada pela editora Marca de Fantasia, que não possui pontos de venda nem distribuição ampla. Assim sendo, os planos incluem uma publicação que consiga chegar a um número maior de pessoas.
Escrito por PAULO RAMOS às 15h24
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14/08/2007
Estudo desvenda identidade do brasileiro nas charges de Jeca Tatu
Parte 2
Entrevista: Márcio Malta
Blog - Quem é o Jeca Tatu, segundo sua pesquisa?
Márcio Malta - Existem vários Jecas, pois trabalho com o conceito de metamorfoses do personagem. O personagem foi criado por Monteiro Lobato e se define prioritariamente pela preguiça e abandono pelo Estado. Com o passar do tempo a sua popularização foi moldando o Jeca Tatu, sendo adaptado em vários campos, como na música, no cinema e nas charges – objeto da minha pesquisa.
Blog - Você entende que essa identidade é uma metáfora do brasileiro da época? Se sim, de quais brasileiros?
Malta - O Jeca, nas charges, a princípio representava um tipo, o caboclo, o indivíduo desvalido do meio rural brasileiro, principalmente do Vale do Paraíba. Com o passar dos anos o Jeca passou a representar todo brasileiro, independente de classe ou região geográfica.

Blog - O Jeca foi criado em livro de Lobato, não em charge [as primeiras referências estão em dois artigos de 1914, reunidos no livro "Urupês", cuja primeira edição é de 1918]. O quanto a charge contribuiu para a criação dessa identidade?
Malta - Essa pergunta pode ser observada por dois ângulos. Acredito que o fato de Monteiro Lobato ser desenhista o facilitou a criar a imagem do Jeca, desde o seu início muito visual e carregada de humor. Por outro lado, dialeticamente, os chargistas tiveram em suas mãos um prato cheio para desenhar. O pesquisador Antônio Cândido [professor emérito da Universidade de São Paulo] definiu o Jeca muito sabiamente como um tipo “caricatural”, o que realmente contribuiu para não só os chargistas como ilustradores explorarem a figura do Jeca.
Blog - Em vários momentos da pesquisa, você menciona que se tratava de "caricaturas" do Jeca. Algumas são charges, não?
Malta - Na pesquisa dou prioridade em dar o tratamento aos desenhos como charges políticas. A definição é importante, pois os pesquisadores da área não fa zem a distinção. A charge política pode ser vista como um desenho humorístico em cima de um fato e é o que trabalho a partir das capas da revista "Careta" (mais de 500 com o Jeca, no período que vai de 1919 a 1960). O termo caricatura foi utilizado algumas vezes, pois assim era classificada a charge antigamente, indistintamente.
Blog - E quais eram os temas abordados?
Malta - Com o levantamento das imagens, pude constatar que alguns temas eram recorrentes, tais como, identidade nacional, a preguiça do Jeca, o povo opilado e o comunismo. Inflação e custo de vida são dois temas intimamente ligados e recorrentes nas charges sobre o personagem. Mas, sem dúvida, o tema campeão em aparições nesse segmento é o que apresenta o Jeca esfomeado.
(Continua na próxima postagem)
Escrito por PAULO RAMOS às 20h14
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Estudo desvenda identidade do brasileiro nas charges de Jeca Tatu
Parte 3
Blog - Na pesquisa, você menciona que houve mudanças no perfil do Jeca. Quais foram essas alterações?
Malta - No início, o Jeca foi retratado especialmente ao lado do político e jurista Rui Barbosa [1849-1923], pois o mesmo o citou em um de seus discursos à presidência da república, o que acabou por popularizar ainda mais o personagem. Essas charges iniciais [a vista ao lado, de abril de 1920, é de J. Carlos] lidavam principalmente com a temática de oposição do intelectual com o povo ignorante e preguiçoso. Com o correr dos anos, já na década de 1920, o Jeca ganhou contornos de oposição a figuras como do Tio Sam e defensor das riquezas nacionais. A passividade que é marca do personagem também deu lugar a uma atitude mais matreira e crítica aos desmandos das elites políticas brasileiras.
Blog - O foco de sua pesquisa foi investigado na revista "Careta", material raríssimo no país. Como você contornou esse problema?
Malta - A pesquisa das fontes primárias se deu por meio do acesso ao acervo da Biblioteca Nacional, que foi digitalizado e está disponível no site da entidade. Também tive acesso ao material físico no acervo da Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro.
Blog - O Jeca interpretado por Mazzaropi no cinema, contribuiu de certa forma para a fixação do personagem no imaginário coletivo do brasileiro?
Malta - O comediante Amâncio Mazzaropi [1912-1981] foi um dos muitos artistas que manusearam o personagem ao seu bel-prazer, o que conferiu ao Jeca uma grande carga de vida. Até hoje o Jeca é relembrado e encontra-se fortemente localizado na memória nacional, servindo para designar costumes populares como moda e comidas classificadas como Jeca.
(Continua na próxima postagem)
Escrito por PAULO RAMOS às 20h11
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Estudo desvenda identidade do brasileiro nas charges de Jeca Tatu
Parte 4
Blog - Sua dissertação de mestrado traz à tona um lado pouco conhecido de Lobato, o de desenhista. Seu levantamento mostrou que ele chegou a produzir exatamente o quê?
Malta - A minha pesquisa busca lançar luzes para um lado pouco explorado de Monteiro Lobato, o de apaixonado pelo desenho de humor. Normalmente são citadas apenas as aquarelas do autor – excepcionais, diga-se de passagem – mas Lobato chegou a colaborar em revistas de grande importância como a "Fon-fon", no ano de 1909. Foi ainda estudioso e pesquisador do desenho de humor, chegando a escrever importantes artigos, tais como “A Caricatura no Brasil”, onde mapeia a caricatura no Brasil e no mundo; e o artigo “O Rei de Congo”, no qual propõe o uso das charges como recurso e fonte para a historiografia.
Blog - Outro ponto é o lado editorial de Lobato, que buscava vender os livros em novos mercados, como farmácias. Ele não estava na vanguarda? Não se vê o mesmo hoje [com a coleção pocket da L&PM, para ficar num exemplo]?
Malta - Monteiro Lobato sempre foi muito prático. Ao tornar-se editor constatou que não existiam pontos de venda de livros no Brasil. Assim resolveu cria-los. Enviou cartas-proposta a comerciantes de pequeno porte e teve ampla recepção. A sua atitude realmente ficou de exemplo, sendo contudo pouco explorado ainda.
Blog - Ele chegou a desenhar o Jeca Tatu?
Malta - Não existem registros de Lobato ter desenhado o Jeca Tatu. O que merece registro é que Monteiro Lobato ilustrou o seu primeiro livro, “Urupês”.
Blog - A pesquisa foi feita na área de Ciência Política, algo raro de se ver na academia. Houve algum tipo de barreira ou preconceito a ser superado?
Malta - Em princípio, houve um certo estranhamento e até mesmo falta de condições dos profissionais da área em compreender a importância do tema. Normalmente a charge é pouco aproveitada na academia por conta de alguns fatores: a supervalorização do texto, em detrimento da imagem; o não-reconhecimento do humor como válido cientificamente; e por último a multiplicidade de interpretações que a charge pode ter – o que é a sua riqueza – e normalmente é visto com um certo temor pelos dogmáticos.
Blog - Já houve vários símbolos do brasileiro, do índio ao Jeca, citado por você. No seu entender, há um símbolo atual do brasileiro, neste início de século?
Malta - Concluo o meu trabalho com a menção de que o posto de identidade nacional encontra-se vago. As chances de aparecer um personagem que nos represente são cada vez menores, pois vivemos uma conjuntura de neo-liberalismo, onde as identidades nacionais encontram-se cada vez mais diluídas.
Escrito por PAULO RAMOS às 20h08
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12/08/2007
Gibizada: os bastidores de um blogueiro de quadrinhos
O blog é um recurso midiático relativamente novo no Brasil. O blog jornalístico, mais novo ainda. Mas se firma nos grandes portais a passos largos.
Na área de quadrinhos, ainda há poucos blogs jornalísticos. Um dos pioneiros é o Gibizada, mantido pelo carioca Telio Navega (clique aqui).
A página completou dois anos no último dia cinco. Tempo suficiente para fazer dela uma das principais referências na área de quadrinhos no Brasil.
O blog está hospedado no portal de "O Globo", jornal onde Telio trabalha na área de diagramação. Ele se define como um designer gráfico de formação que se transformou em jornalista.
Navega foi um dos indicados do último Troféu HQMix na categoria melhor jornalista especializado em quadrinhos.
Os dois anos à frente da página virtual já renderam outros frutos, como uma coluna mensal sobre quadrinhos no "Megazine", suplemento jovem de "O Globo".
As resenhas de lançamentos mais adultos ficam para outro caderno do jornal, o "Prosa e Verso", onde também escreve esporadicamente.
A repercussão está atrelada a muito, muito esforço, como ele mesmo conta neste bate-papo, feito por e-mail.
Um dos maiores desafios, diz o blogueiro de 38 anos, é equacionar a falta de tempo com a necessidade de atualizações constantes da página virtual.
Blog - Quais as principais dificuldades de se manter um blog sobre quadrinhos no ar? Telio Navega - Acho que blog tem que ter atualização diária. Ou quase. Não dá para ser semanal ou mensal. Senão já era, não tem leitura constante. Essa é a dificuldade: manter a atualização diária, já que o blog não é minha atividade principal, meu ganha-pão. Sou designer de formação e esta é minha profissão. Um designer de jornal que acabou se transformando também em jornalista, porque jornal vicia, você sabe.
Blog - Como é o seu ritmo de trabalho no blog? Navega - Bem que eu tento escrever algo antecipadamente, deixar pronto e só "subir" no dia, mas não consigo. Se escrevo antes ponho logo no ar. Acabo usando minha "pilha" natural para passar madrugadas escrevendo. E escrever um blog de quadrinhos tem que ser bonito, tem que ter uma bela imagem. Selecioná-la nunca é fácil. Mas escrever também não é.
Blog - Sobra tempo para outras coisas? Navega - Tem que sobrar, né? Tempo para filhos, mulher e trabalho. Fora cinema, livros e gibis. E ainda ver séries de TV, pois agora, além do Gibizada on-line e Gibizada no Megazine na última terça de cada mês, ainda escrevo a seis mãos-com os amigos jornalistas Bruno Porto e Tom Leão- a coluna "Seriais" na "Revista da TV". Sai todo domingo também no "Globo".
Blog - De dois anos para cá, o que mudou no seu dia-a-dia por causa da página virtual? Navega - Muita coisa. Não escrevia nada, só uma resenha para o "Prosa e Verso" uma vez ou outra. Agora é todo dia, ou quase. Mas fiquei todo orgulhos de ter o meu nome incluído entre os melhores jornalistas especializados em quadrinhos no último HQ Mix. Faz bem ao ego e só tinha gente boa ao meu lado. Gente como você e o Sidney [Gusman, do site Universo HQ], que leio há muitos anos, desde que eu era moleque (ele vai odiar isso) e comprava "Sandman" na banca.
Blog - No aniversário de primeiro ano, você comentou que, depois da criação do Gibizada, encontrava pouco tempo para ler quadrinhos. Isso melhorou? Navega - Não, só piorou. O volume de lançamentos só tem aumentado, é assustador. Vivemos um momento histórico de títulos em livrarias e gibiterias. Uma pena que a banca sai prejudicada. Para a pobrezinha só vão super-heróis. E isso é muito pouco no fabuloso e amplo universo das histórias em quadrinhos.
Blog - Que lição você tira dessa experiência? Navega - A melhor possível, mesmo fazendo isso por amor. Acho que os quadrinhos hoje são tratados com um pouco mais de dignidade. O aumento de títulos conseqüentemente trouxe um aumento de caras especializados no segmento. Temos sites como o Universo HQ, Omelete, Bigorna, Blog dos Quadrinhos, HQ Maniacs. E sujeitos como o Gonçalo Junior [autor do livro "Guerra dos Gibis" e colunista de quadrinhos da revista "Cult"], Pedro Cirne [crítico de quadrinhos da "Folha de S.Paulo], o Diego Assis [jornalista de cultura do site G1], o Claude Bornél [da coluna Seqüencial, do jornal "O Povo", de Fortaleza] e o Cláudio Yuge [colunista de quadrinhos do portal "Bonde"]. E pérolas como o Nona Arte, de André Diniz. Volume de informação que não existia há alguns anos. Boa parte desse material, na verdade, também existe graças à internet.
Escrito por PAULO RAMOS às 14h33
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