19/07/2007

Pesquisa da USP mostra influência de Steinberg no cartum brasileiro

Uma pesquisa da USP (Universidade de São Paulo) mostra que o estilo de desenhistas brasileiros do humor gráfico, como os da chamada "geração Pasquim", teve muita influência do ilustrador Saul Seinberg (1914-1999).
 
O mestrado é de autoria de Daniel Bueno, que também é ilustrador. O estudo demorou três anos para ficar pronto e foi defendido em maio na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo).
 
Steinberg  esteve no Brasil em 1952. Expôs no Masp (Museu de Arte de São Paulo). Segundo Bueno, isso ajudou a fazer com que se tornasse a primeira referência de vários desenhistas daqui.
 
"Diria que o cartum de Steinberg foi uma das maiores referências desde gênero moderno de cartum que passou a ser produzido: mais gráfico, mudo, sintético, abstrato", diz Bueno, por e-mail.
 
"O que procuro fazer é contextualizar toda sua produção no meio das artes gráficas -cartum, charge, ilustração, design gráfico."
 
O pesquisador paulistano, de 33 anos, deixa claro que Steinberg não é o criador do humor mudo. Mas ter feito cartuns menos realistas e mais abstratos e metafóricos funcionou como um divisor de águas na área.
 
O ilustrador romeno, naturalizado norte-americano, fazia desenhos que fazia para a revista "The New Yorker" (ao lado, uma das capas dele), que circula nos Estados Unidos desde 1925.
 
Muito da repercussão de seu trabalho, principalmente a partir dos anos 1950, vem da publicação. Apesar disso, não havia ainda um estudo sobre o assunto, segundo Bueno.
 
O ineditismo da pesquisa dele ajudou na elaboração de outra obra sobre o ilustrador, "Saul Steinberg: Iluminations", lançada pela Steinberg Foundation, com sede em Nova York.
 
"Colaborei com muitas informações novas sobre o desenhista e meu nome aparece nos agradecimentos", diz. O livro conta em detalhes a obra e a carreira de Steinberg.
 
Mas não mede o impacto dos trabalhos nas artes gráficas, como fez o estudo de Bueno.
 
Este é um ano especial para ele. Não só pelo mestrado. O ilustrador, que teve quadrinhos publicados nas revistas "Front" e "Ragú", foi um dos vencedores do último HQ Mix (é dele a arte ao lado).
 
Ele foi escolhido melhor ilustrador de livro infantil, pela arte feita para "Histórias de Bicho Feio", da Companhia das Letrinhas.
 
A experiência de ilustrador já levou seus trabalhos a vários eventos de humor gráfico do exterior. Ele vê no desenho uma espécie de linguagem universal.
 
"Quaisquer que sejam os países, as pessoas parecem compreender meu trabalho, seja nos Estados Unidos, Brasil, Índia, Irã, Bolívia."
 
Ele faz planos de produzir uma história em quadrinhos neste semestre. Diz que "vai ser uma prioridade".
 
Pretende também dar seqüência aos estudos de artes gráficas, com prioridade à produção brasileira.
 
Na entrevista, mostrada na próxima postagem, ele dá mais detalhes sobre o mestrado, intitulado "O Desenho Moderno de Saul Steinberg: Obra e Contexto."

Escrito por PAULO RAMOS às 14h01
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Pesquisa da USP mostra influência de Steinberg no cartum brasileiro

2ª parte

(Continuação da postagem anterior)
 
Entrevista: Daniel Bueno
 
Blog - Você considera o trabalho de Steinberg um divisor de águas na forma como o cartum passou a ser produzido no mundo. Essa influência vale também para a geração de desenhistas brasileiros de humor surgida a partir dos anos 60/70?
Daniel Bueno - Sim, é possível considerar seu trabalho um divisor de águas. Sua influência foi fundamental para a geração de cartunistas do Pasquim, como Millôr, Ziraldo, Jaguar, Borjalo, Fortuna, Claudius. No livro de Herman Lima "História da Caricatura no Brasil", publicado em 1963, é interessante constatar como o autor percebe o surgimento de um novo cartum ao comentar o trabalho de Borjalo. Outros artistas de gerações seguintes, como Mário Vale e Guto Lacaz, também extraíram lições de Steinberg. Sua influência pode ser sentida até os dias de hoje, em maior ou menor grau. É referência mesmo para aqueles que não apresentam uma relação tão direta com seu trabalho; Paulo Caruso o homenageou na Bundas, quando Saul faleceu; outro dia, o Angeli dedicou uma tira da Chiclete com Banana a ele.

Blog - Você fala de um cartum antigo, em oposição a outro, mais novo. Do que se trata o antigo?
Bueno - O cartum antigo seria aquele dependente de legendas, mais atrelado a situações (com maior presença do fator "tempo") do que a abstrações. Havia também uma maior necessidade de "explicar" o que ocorria. Eram comuns nos cartuns de Bordalo Pinheiro (final do século 19), por exemplo, inscrições no próprio corpo dos
personagens, para deixar claro o que representavam. Nas típicas charges de J. Carlos, com desenho evidentemente mais moderno, ainda assim predominavam as situações com legendas. Quando havia simbolismo e alguma ilusão e ambigüidade gráfica, o cartum não conseguia ser resolvidos unicamente a partir dos atributos do desenho - recebia sempre o apoio de uma explicaçãozinha textual extra. Também é importante fazer um paralelo de Steinberg com a ilustração: neste caso, o contraponto ao seu desenho abstrato e cheio de alusões simbólicas seria o realismo de Norman Rockwell. Várias das soluções "antigas" continuam atuais, no entanto. Serviram de  contraste à novidade do cartum moderno, mas isso não significa que o realismo ou o uso de legendas sejam coisas ultrapassadas - o termo "antigo" não deve ser visto aqui em sentido pejorativo.

Blog - Qual a relação de Steinberg com os quadrinhos?
Bueno - Steinberg não era exatamente um quadrinista, daqueles que colaboram para publicações do gênero. Mas muitas das páginas que fez para a "New Yorker" a partir dos anos 1970 eram estruturadas em "quadrinhos", de dois a seis quadros com desenhos por página, que, por mais que tivessem sua autonomia, estabeleciam alguma relação entre si ao serem colocados lado a lado. Steinberg também fez algumas histórias em quadrinhos experimentais metalingüísticas. E chegou a esboçar quadrinhos curtos autobiográficos (publicados no recente livro "Saul Steinberg: Illumination"). A relação de seu trabalho era mais direta com o universo dos cartunistas. De qualquer modo, os aspectos do cartum moderno como desenho simples, sintético, humor mudo, os recursos gráficos ilusórios e metalingüísticos podem ser considerados contribuições para os quadrinhos também (um bom exemplo são alguns quadrinhos de Quino).
 
Blog - Por que a escolha dele como tema da pesquisa?
Bueno - Tinha interesse em pesquisar a ruptura promovida pelo cartum moderno, caracterizada por abordagens mais "gráficas" e humor mudo, em trabalhos de desenho
simples e sintético. Percebi que Steinberg era importante referência e quando resolvi me centrar em um nome, achei que o melhor seria partir dele, uma vez que ainda havia sido pouco estudado.

Blog - Pretende dar seqüência ao estudo num doutorado? Ou abordar tema parecido?
Bueno - Pretendo prosseguir com o estudo do desenho moderno nas artes gráficas, priorizando a produção brasileira. A banca de defesa sugeriu o estudo de designers/ilustradores brasileiros para o doutorado, proposta que considerei muito interessante. É importante frisar que Steinberg teve uma passagem pelo Brasil, expôs no MASP em 1952, e é primeira referência de vários dos mais importantes cartunistas brasileiros, como os da geração Pasquim. Ao falar de Steinberg, trago também o interesse de explorar a formação do cartum moderno brasileiro. Ao mesmo tempo, minha vontade é continuar escrevendo artigos sobre Steinberg e os assuntos levantados na pesquisa para revistas científicas e outras publicações.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h00
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07/07/2007

Livro reúne tiras de humor de Jaguar feitas no Pasquim - II

Entrevista: Henrique Magalhães, editor da Marca de Fantasia, que lançou o livro "Lugares In-Comuns", de Jaguar
 
- "Lugares In-Comuns" usa material do Pasquim. Os direitos autorais não eram exclusivos da Desiderata, do Rio de Janeiro?
- O acerto informal com Jaguar foi feito há mais de um ano. Naquele momento ele não tinha ainda feito o contrato com a Desiderata. Atualmente voltei a contatá-lo, pouco antes do lançamento do livro e ele reiterou sua permissão para que o editássemos. O material que publicamos, embora tenha sido originalmente publicado no Pasquim, foi publicado em livro pela editora Codecri. Foi esta edição que serviu de base para a nossa.
 
- Há outros números em pauta para a Coleção Biografix?
- Existem planos, projetos, pretensões. O certo é que estamos programando o lançamento de um volume com uma série de tiras A Caravela, de Nilson, com apresentação de [Wellington] Srbek. Mas gostaríamos de produzir livros com muitos outros artistas que admiramos, como Shimamoto, Zala, Lailson, Colin, Henfil, Ziraldo, Fortuna, Edgar Vasques, Jô Oliveira, Canini, Verissimo e muitos mais. Claro que, como a maioria ainda está atuando no meio comercial, será preciso contar com a boa vontade e reconhecimento deles em relação ao nosso projeto, já que não temos fins lucrativos. A coleção é uma homenagem aos autores, e um orgulho para a editora.
 
- A Marca de Fantasia faz um trabalho elogiável, com edições muito bem cuidadas. Há planos de ampliar a distribuição das obras?
- Nosso trabalho é artesanal, em pequenas tiragens. Não pretendo entrar no mercado e brigar por espaço com outras editoras. Isso mudaria completamente meu processo editorial e, de certa forma, tiraria o prazer de fazê-lo. Para lidar com grande produção, distribuição e venda seria necessário criar uma estrutura empresarial que não me interessa. Prefiro o contato direto com os leitores, mesmo que o acesso seja limitado. Por outro lado, esse procedimento não está na contramão do mercado. As editoras estão cada vez mais fazendo tiragens dirigidas a um determinado público, como os álbuns e algumas revistas, que são veiculados apenas em livrarias especializadas ou clubes de leitores. A venda direta é também um fenômeno da atualidade, possibilitada pela internet. Há grandes livrarias que vivem do mercado "virtual" e é nesse campo que pretendemos nos firmar. Investimos onde as editoras comerciais não têm interesse, seja por falta de visão, seja por razões econômicas. Desse modo, nosso objetivo é priorizar o lançamento de novos autores, criar uma bibliografia sobre quadrinhos, humor e cultura pop, geralmente com estudos oriundos do meio acadêmico, e preservar a memória de nossa arte seqüencial, com o relançamento da obra dos grandes criadores. Esse é nosso campo de trabalho que, naturalmente, não encontra ainda um grande público. Mas a persistência e a coerência de nossa proposta pode nos levar à formação desse público, que tende a crescer e a nos colocar novos desafios - talvez a entrada no próprio mercado, com uma nova perspectiva.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h23
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