24/04/2007
Literatura e(m) quadrinhos: há perdas ou ganhos numa adaptação?
(Parte 2)
Blog dos Quadrinhos - Como você analisa a transposição de obras literárias para os quadrinhos? Há perdas? Há ganhos?
Lielson Zeni - Acredito que devemos pensar a transposição entre obras literárias e HQ do mesmo modo que pensamos qualquer outra adaptação entre dois meios diferentes. A mensagem está ligada à linguagem, que, por sua vez, está ligada ao meio que emite a mensagem. Portanto, meios diferentes têm linguagens diferentes. Um texto originalmente em prosa (como "O Alienista"), portanto um meio verbal, quando transposto para quadrinhos (meio verbi-visual), ganha, e ao mesmo tempo exige, a participação de mais um elemento, o visual. Esse elemento condiciona perdas e ganhos. Por exemplo, não há necessidade de descrever a caracterização de um ambiente ou personagem, basta mostrar. Porém, a cadência que pode ser obtida no jogo de palavra por palavra só pode ser recuperada ignorando-se a imagem. "Grande Sertão: Veredas", um romance da palavra, considero que dificilmente teria uma transposição acertada para outro meio. Entre os trabalhos de adaptação que vi, grande parte se preocupa em recuparar a história e os diálogos, acreditando assim ser fiel ao original. Porém, a questão de estilo é muito mais importante é esse estilo, clima, jeito, cara do autor, que deve ser redimensionado para o novo meio, se a intenção é a fidelidade. Numa adaptação de Machado de Assis é erro grave, por exemplo, atenuar o trabalho do narrador e a ironia do texto. Não importa se é apenas um quadro do Brás Cubas, essas características tem que estar lá se se pensa em uma adaptação. É fundamental também que a obra adaptada se sustente como novo objeto artístico. Por exemplo, nada
adianta "O Alienista" ser uma grande obra se sua adaptação não for uma grande HQ. A idéia é: essa história já foi bem contada antes. Tem que valer a pena usar esse meio (e não outro) e suas possibilidades para contá-la de novo. Observação: mesmo sem ver, tenho certeza que a adaptação dos gêmeos é uma grande HQ [imagem ao lado]. Adoro o trabalho deles em 10 pãezinhos.
adianta "O Alienista" ser uma grande obra se sua adaptação não for uma grande HQ. A idéia é: essa história já foi bem contada antes. Tem que valer a pena usar esse meio (e não outro) e suas possibilidades para contá-la de novo. Observação: mesmo sem ver, tenho certeza que a adaptação dos gêmeos é uma grande HQ [imagem ao lado]. Adoro o trabalho deles em 10 pãezinhos.Blog - Há alguma vantagem didática em transpor literatura em quadrinhos?
Zeni - Como vivemos em uma sociedade e época em que existe muito contato com a imagem, um meio pictórico como as HQs pode ser um chamariz interessante para o conhecimento do texto original. Não creio, porém, que a adaptação tenha que ser auxiliar ao seu original, mas uma obra autônoma em referência direta com uma outra. E há também a tese de doutoramento do Gazy Andraus que fala da educação das duas metades do cérebro pela HQ, uma estimulada pela linguagem verbal e outra pela linguagem pictórica [a tese de Gazy Andraus foi defendida na Universidade de São Paulo em dezembro do ano passado; leia mais aqui]. Ele defende que é preciso se ensinar a ler a HQ na escola. No que concordo. Acredito que existam, sim, vantagens didáticas: valorização e contato com uma linguagem nem sempre habitual (a HQ) e uma curiosidade em relação ao texto original.









Escrito por PAULO RAMOS às 07h47