13/12/2006

Livro-reportagem conta história do quadrinho paraibano

Joe Sacco popularizou no mundo um novo gênero de quadrinhos. É um livro-reportagem feito na linguagem das HQs. Esse jornalismo gráfico -nome que temos adotado neste blog- ganhou um adepto no Brasil. Audaci Junior usou o recurso para narrar a trajetória dos quadrinhos paraibano.
 
O resultado foi compilado no livro "Riscos no Tempo - 40 Anos de história em quadrinhos na Paraíba", lançado este mês (Marca de Fantasia, R$ 12).
 
"Optei pela abordagem de livro-reportagem ensaio, já que poderia emitir certas análises e ´dissecar' certas obras e personagens que ninguém fez ao longo de quatro décadas", diz Audaci Junior, um jornalista e quadrinista de 28 anos. "Mas, diferente de Sacco, não apareço na HQ."
 
Joe Sacco, que teve várias obras publicadas no Brasil nos últimos anos, não foi a única influência de Audaci. Ele diz que também se baseou em "Páginas Ampliadas - O Livro-Reportagem como Extensão do Jornalismo e da Literatura" (Editora Manole), de Edvaldo Pereira Lima.
 
Audaci Junior já trabalha no próximo projeto, outra incursão pelo jornalismo gráfico. Vai contar a historia do ator Sávio Rolim Junior, que atuou em 1965 no filme "Menino do Engenho", de Walter Lima Jr. O ator estaria, agora, mendigando pelas ruas de João Pessoa, cidade onde o jornalista mora. 
 
Na entrevista a seguir, feita por e-mail, ele conta detalhes da obra e fala das relações do jornalismo com as histórias em quadrinhos.
 
- Quanto tempo você levou para concluir a pesquisa e a elaboração da obra?

- A pesquisa levou cerca de um ano, já que livros sobre o tema só existiam dois: um de 1983 (de Henrique Magalhães, quando as HQs na Paraíba completaram 20 anos) e outro -muitíssimo mal elaborado, por sinal - editado pelo jornal "A União", em 1993. Fora isso, apenas fanzines, os próprios quadrinhos para analisar e reportagens em jornais e entrevistas que tive que fazer com alguns autores. A confecção dos desenhos junto com a finalização (digitalização, balonamento, revisão, etc.) levou mais um ano. Tudo entre 2003 e 2004.

 

- Você acha que é possível desenhar uma notícia, mantendo os mesmo princípios de distanciamento necessário com o assunto reportado?

- Sobre desenhar uma notícia acho impossível, já que a divulgação de um acontecimento recente demanda pouco tempo para se escrever e publicar. O que pode chegar perto de uma "notícia" é a charge, por ser um só desenho sobre um determinado acontecimento importante. O jornalismo em quadrinhos se enquadra mais nas grandes reportagens, perfis e matérias mais atemporais. Ou seja, jornalismo em quadrinhos não dá certo com redação de jornal. Sobre a tal imparcialidade, é sempre uma discussão complicada, que pode, sim, ter um distanciamento de princípios do repórter até determinado ponto, já que a pessoa é o que vive, lê ou sente, tendo opiniões próprias sobre determinadas situações e momentos.

 

- Você menciona uma espécie de marco-zero para o quadrinho na Paraíba, "As aventuras do Flama" (imagem abaixo). Do que se trata?

- "As aventuras do Flama" foi a primeira revista de histórias em quadrinhos publicada na Paraíba que se tem conhecimento. Criada por Deodato Taumaturgo Borges (o pai de "Mike" Deodato) em 1963, o personagem Flama foi concebido originalmente em 1960 pelas ondas de rádio, "combatendo" o Jerônimo (personagem do sul do país) na audiência. A novela de aventuras era escrita e narrada pelo próprio Deodato, como a produção da revista, escrita e desenhada por ele. O Flama é baseado em personagens como "The Spirit" e "Flash Gordon", sucessos na época, e durou apenas cinco edições no mesmo ano.

 

- O quadrinho paraibano tem uma "cara" própria?

- Sou um tanto pessimista com relação a isso. O quadrinho paraibano existiu e existe, mas nunca teve uma "cara", uma identidade. Os autores são muitos dispersos em relação a um avanço nesse campo tão marginalizado no Brasil, imagine a Paraíba! Com exceção de Henrique Magalhães, que sempre coloca uma obra de sua editora independente na berlinda da notícia sobre quadrinhos, acho que se você desenhar para os EUA ou mantiver um estúdio calcado nos super-hérois, ou ainda mantiver uma personagem que não "amadurece", é muito pouco para que seja uma "cara". Se for, precisa de uma plástica urgente.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h03
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05/12/2006

Pesquisa da USP analisa geografia de Gotham City

Por que ninguém estudou isso antes? É a pergunta que fica depois de ter contato com o estudo feito pela professora e pesquisadora Angela Rama. Ela analisou um aspecto dos quadrinhos praticamente ignorado pela literatura científica dos quadrinhos: o espaço em que as histórias são narradas.
 
A pesquisa conferiu a Angela um mestrado em Geografia, defendido há pouco mais de um mês na USP (Universidade de São Paulo). Ela fez uma leitura do ambiente vivido pelos super-heróis, principalmente a Gotham City de Batman. Uma das conclusões é que o espaço geográfico é usado para reforçar as características dos personagens. Por isso que a cidade do homem-morcego é fria e sombria, tal qual Batman.
 
Rama é também uma das autoras do livro "Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula", lançado em 2004. O capítulo dela mostra algumas práticas pedagógicas para o ensino de geografia.
 
Na entrevista a seguir, feita por e-mail, Angela Rama comenta alguns dos resultados da pesquisa, que levou três anos para ficar pronta. Ela chamou o estudo de "A representação do espaço nas histórias em quadrinhos do gênero super-heróis: a metrópole nas aventuras de Batman".
 
- Quais foram suas hipóteses?

- As duas principais hipóteses do trabalho foram: 1 - o espaço é utilizado para reforçar as características dos personagens, sendo enfatizados os supostos aspectos “negativos” da cidade, especialmente o crime, sem o qual um super-herói não se justificaria; 2 - a representação do espaço nos quadrinhos de super-heróis ratifica/legitima o espaço social produzido pela sociedade americana/capitalista, que o concebe como modelo de mundo.

 

Por que Batman como escolha de análise?

- Principalmente por Gotham City ser uma das cidades mais (senão a mais) representativa do mundo dos quadrinhos, ganhando ao longo dos anos inúmeros simbolismos e conotações, o que acaba contribuindo para enriquecer as análises sobre ela. Ao longo do trabalho, no entanto, há referências a outros super-heróis. Faço, por exemplo, algumas análises comparativas entre imagens de Metrópolis e de Gotham, que procuram demonstrar suas características diametralmente opostas e a total correspondência entre cada uma das cidades e seus personagens principais.

 

- Sendo Gotham City uma cidade ficcional, isso não ofusca a noção de "realidade" impressa no cenário dos quadrinhos?

- Ofusca, sim, se você pretender explicar a realidade pelos olhos da ficção. Minha intenção, no entanto, não foi esta. Porém, mesmo se tratando de uma cidade ficcional, criada para acomodar seu herói principal, sua relação com os personagens e a paisagem representada têm correspondência com a "cidade real". Assim, por mais fictício que seja o espaço representado ele nunca está isento de intenções e visões de mundo que caracterizam uma determinada sociedade (real).

 

- Há planos de aprofundar o tema no doutorado ou de publicar a dissertação?

Planos há, mas nada de concreto ainda.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h01
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