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18/09/2006
VOCÊ CONHECE O CRIADOR DE MISMATCHES? VAI CONHECER
ENTREVISTA: ACÁCIO GERALDO DE LIMA
O leitor do Blog dos Quadrinhos já viu a história acima. Mais exatamente na postagem do dia 28 de agosto. Foi nessa data que os internautas conheceram pela primeira vez a tira vencedora do Salão Internacional de Humor de Piracicaba deste ano, Mismatches, uma mistura desenho com colagem (os protagonistas são palitos de fósforo). O resultado é um dos trabalhos mais criativos dos 33 anos do salão.
O "Acácio", que assina a tira e a idéia, é um paulista de 45 anos, nascido em Piraju, a 328 km de São Paulo. Ele conta que já fez outras experiências com colagem de objetos. Uma delas foi com clipes de papel. Mas Mismatches é seu primeiro prêmio. A idéia estava escrita em um caderninho de notas que sempre o acompanha. Foi a concretização de um daqueles "insights" que todo mundo tem, mas nunca anota. Essa anotação deu trabalho para virar realidade. O quadrinista tinha de cortar cada palito no meio para reduzir o volume e a espessura da imagem na hora de escanear a tira.
Acácio Geraldo de Lima se define como um "artista plástico/quadrinista de coração e designer/produtor gráfico de profissão". Paralelamente aos desenhos, atua como coordenador das áreas de merchandising visual e computação gráfica no SENAC Santa Cecília, na capital paulista.
Acácio é uma pessoa acolhedora, daquelas que transforma uma conversa rápida num grande bate-papo entre amigos. Esta entrevista mostra um pouco disso. Ele fala de Mismatches, do prêmio que ganhou em Piracicaba e de como conseguiu fazer os desenhos com um braço só (usava uma tipóia quando criou a tira).
- "Mismatches" é uma tira que usa outro recurso, além do desenho. É uma ampliação do conceito de quadrinhos?
- Eu acho que é mais uma técnica não convencional. Podemos dizer que a mensagem, sim, é ampliada por pegar carona em objetos banais do cotidiano assumindo o papel humano, fazendo com que o observador possa rir de si mesmo se vendo em objetos que sua sociedade criou.
- Como você elabora as histórias? - Optei em fazer Mismatches com colagem de palitos, isqueiros, giletes, caixas de fósforos reais, resistindo à tentação de desenhá-los, pois a mensagem fica mais forte. O restante da arte foi feita com tinta branca.
- Há uma história curiosa sobre a produção desses trabalhos, não? Foi um trabalho de um braço só? - Pois é, em fevereiro fraturei o ombro esquerdo e fiquei um longo período de tipóia e, depois de alguns meses, teve que operar. Quando fiz Mismatches me virei só com a mão direita, usando a esquerda apenas para apoiar coisas sem esforço.
- De onde surgiu a idéia de dar vida aos palitinhos? - Surgiu como outras idéias que tenho, e que anoto em um caderninho que sempre levo comigo. Desde criança costumo manusear os objetos e acabo por imaginá-los em outra aplicação que não a original. Estava manuseando um isqueiro e veio a idéia que está na primeira tira. O restante veio de roldão em seguida.
- Você já viu algo parecido? - Com o uso de fósforos, não. Mas não é incomum o uso de objetos fazendo o papel de outras coisas, como um cartum que rola na web de uma tartaruga míope apaixonada por um capacete.
- Foi uma surpresa ver o seu nome como vencedor na categoria tiras na edição deste ano?- Todos nós que competimos, torcemos para ganhar, pois acreditamos em nosso trabalho, mas ao mesmo tempo temos consciência de que tem muita gente boa. Só o fato de ser selecionado dentre tantos já é uma grande conquista. Mas, quando se é premiado nesse salão, você sente uma explosão de alegria.
- Você tem trabalhos mais convencionais ou todos seguem a linha de "Mismatches"? - Tenho. Neste Salão, além de Mismatches, participo também com um trabalho de 20 tiras sobre o "Lulalice no País das Maravilhas". Em outros salões, participei com charges e cartuns convencionais.
- Há outras idéias semelhantes? - Sim. No salão de 2004 fiz dois cartuns utilizando clipes de metal, desses comuns de escritório, um retratando o cruzamento de dois cachorros e outro um casamento "forçado".
- Você tem planos para os Mismatches daqui para frente? - Tenho já algumas idéias pra outras tiras, mas ainda não tenho nenhum canal definido para mostrá-las.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h04
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14/09/2006
TESE DISCUTE PAPEL DOS QUADRINHOS DE HUMOR NO ENSINO
ENTREVISTA: BETANIA LIBANIO DANTAS DE ARAÚJO
A escola excluiu o humor e a pedagogia nunca o estudou. As duas hipóteses foram a base do doutorado de Betania Libanio Dantas de Araújo, defendido no mês passado na Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo). A tese analisou a importância de charges, cartuns e tiras cômicas na atividade escolar.
"O humor nunca foi estudado pela pedagogia porque a educação segue numa só via", diz a pesquisadora, que também é professora de arte e de pedagogia. "O seu pensamento converge sempre para as mesmas respostas e o humor é a oposição ao pensamento único. É essa a contradição que negligenciou o humor."
Betania estudou histórias em quadrinhos no mestrado, feito na UNESP (Universidade Estadual Paulista). Carioca, a pesquisadora adotou São Paulo como morada. Está na cidade há 22 anos. Nesta entrevista ao Blog dos Quadrinhos, ela fala um pouco da tese "O desenho de humor na escola: um canto paralelo".
- Qual foi a hipótese de seu doutorado?
- A hipótese era que a Pedagogia e a escola não incorporaram o humor porque é opositor. No Brasil o ensino não tem a prática da autonomia como nos países europeus. De caráter ético, o humor também age como regulador dos costumes. A linguagem da charge e do cartum contribui com um pensamento refinado e a prática da liberdade para os estudantes.
- E qual foi a conclusão?
- Acreditava que o humor não estava na escola, mas aos poucos encontrei todos: da exclusão, da aproximação, o nonsense, o espirituoso. Os adolescentes, aos poucos, são ativados pela estrutura do humor e agem diferentemente. Interfere na relação agressiva, atuando na criação de outras maneiras de se relacionar.
- Quais as vantagens de usar o humor no ensino?
- O humor faz alunos e professores questionarem um dado estado de coisas e faz acreditar na sua inversão. O pensamento divergente, no simbolismo do desenho de humor, atua na relação entre coisas que não tem uma relação direta, criando o novo. Mas não pode ser o humor plastificado dos cursinhos e também não pode virar disciplina e nem currículo, a legalização do humor teria resultados desastrosos.
- Historicamente, houve resistência de usar quadrinhos na sala de aula. Essa resistência ainda existe?
- Não senti resistência. Por exemplo, os quadrinhos do Quino não são entendidos pela a maioria. Ocorre que alguns alunos tornam-se os mediadores. Existe uma primeira leitura partilhada entre colegas que conseguem ler e outros que não conseguem, pois os quadrinhos de Quino (exceto Mafalda) não trazem balão e texto, o discurso verbal é totalmente desenhado. Alguns quadrinhos precisam da mediação do professor, outros não. Segundo pesquisas recentes, o melhor leitor na escola e no mundo é aquele que lê quadrinhos. Mas sei que essa resistência continua de outra maneira: continua nas editoras que permanecem produzindo inúmeros livros dos modernistas, porém nenhum de quadrinhos e charge. Continua na grade curricular do curso de Arte que prevê, às vezes, a arte Contemporânea e não os quadrinhos. Consequentemente muitos professores de Arte não contemplam a linguagem, pois não foram ensinados a vê-la e entendê-la.
- No seu entender, isso é um caso exclusivamente brasileiro? Ou ocorre o mesmo no exterior?
- A minha resposta é puramente ocidental, precisávamos aprofundar os estudos orientais, sabemos apenas do Koan, piada elaborada pelos mestres zen-budistas. Do ponto de vista ocidental digo qua a Pedagogia e a Psicologia não estudaram o humor no mundo. Autores franceses apontam que até a Psicologia não estudou, portanto na área da Psicanálise sempre remetemos a Freud com o seu estudo sobre o chiste, não encontramos pesquisas sobre o assunto.
- Você sentiu resistência de ter estudado quadrinhos na universidade?
- Senti muita resistência no mestrado. Estudiosos de Arte Contemporânea olhavam a arte sequencial com desdem, até porque apesar da revolução da Arte Contemporânea em relação aos cânones da Arte, ainda havia entre eles um olhar para o mercadológico, uma cabeça da hierarquia da Arte. Sendo os quadrinhos da era da reprodutibilidade técnica, as suas milhares de cópias quebravam a aura da arte.
- Esse estudo no doutorado tem alguma ligação com a pesquisa do mestrado?
- A dissertação de mestrado trazia os processos criativos dos cartunistas que entrevistei e contava sobre a experiência na escola. No doutorado aprofundei a natureza da charge e do cartum que é o humor. Permaneci na pesquisa com alunos da escola pública, porém ampliei para professores, estudantes de pós-graduação e de graduação.
- Daqui para frente, pretende dar continuidade na pesquisa com quadrinhos?
-Tenho um projeto para o pós-doutorado com tiras cômicas e desenho de humor. Permaneço com o trabalho com alunos da prefeitura de São Paulo, atualmente participo do projeto Ler e escrever em Arte contribuindo com estudos sobre charge.
Créditos. Os desenhos que ilustraram esta entrevista são, respectivamente, de Emerson (autor da tira Sala de Aula) e de Salvador (criador do personagem Ran). Ambos estão no primeiro livro da coleção "Tiras de Letra", da editora Virgo.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h20
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07/09/2006
LIVRO CONTA EM CHARGES HISTÓRIA DO GOVERNO LULA
ENTREVISTA: NICO
A última pesquisa do instituto Datafolha indica vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da disputa presidencial, com 51% das intenções de voto. O chargista Nico não poderia ter escolhido melhor hora para lançar o livro de charges "E agora, Lula? Charges do desastrado governo" (Marimba, R$ 12). A pergunta que dá nome à obra é feliz porque soa ambígua. Ao mesmo que recupera, em desenhos, como foram os últimos quatro anos de Lula, provoca o presidente sobre como seria em eventual segundo mandato.
A obra mistura trabalhos inéditos com outros, já publicados no jornal "Pasquim 21". Como toda boa charge, usa o humor para dar o tom da crítica. Crítica que não falta nas 40 páginas do livro. Além dos desenhos, Nico compilou frases do presidente Lula, ditas ao longo deste mandato. Chamou de "Guia de Frases Besteirol do Presidente Lula" (leia algumas na postagem abaixo).
O carioca Márcio Malta, o Nico (o apelido o acompanha desde a infância), não esconde a frustração em relação ao Partido dos Trabalhadores. Foi militante de 2000 a 2003. Abandonou o barco e migrou para o PSOL, do qual é um dos fundadores. A política o acompanha na vida, nas imagens e nas letras também. Ele termina um mestrado em Ciência Política na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estuda a figura do Jeca Tatu, do histórico cartunista J. Carlos. Analisa obras de 1919 a 1960.
O chargista de 24 anos está à frente de outro projeto, também pela novata Marimba (gíria que, no subúrbio do Rio de Janeiro, faz referência à pedra amarrada num barbante para pegar pipas em postes). Vai selecionar material de novos quadrinistas para a editora lançar.
Nesta entrevista ao Blog dos Quadrinhos, Nico fala da obra, da saída do PT e do mestrado sobre a figura de Jeca Tatu.
- Por que um livro especificamente sobre o governo Lula?
- O governo Lula, em seu princípio, vem carregado de esperanças de transformação. Realmente existia um clima de mudança na sociedade. A partir do momento que o mesmo frusta os ideais a que veio, carrega um sentimento de desencanto, frustração. No entanto, a minha resposta a isso -como bom chargista- foi através do humor.
- Você teve de observar o "modus operandi" do presidente Lula. Qual a principal característica dele, refletida no seu traço?
- Na verdade, a definição do traço não é tão racional. É carregada de espontaneidade. No entanto, ao analisar posteriormente minhas charges, sempre observava um Lula indeciso, até mesmo espantado, eu diria. Só depois compreendi que o presidente Lula é refém da estrutura que compõe o seu governo. Pois sofre pressão de dois tipos de oposição: de direita (PFL/PSDB) e de esquerda (PSOL/PSTU e outros). Essa constituição faz com que ele se comporte como um administrador (malsucedido) desse jogo. Pecando pela indecisão e omissão, quando diz, por exemplo, que não sabia de nada.
- Qual a diferença principal entre Lula e os demais candidatos no olhar do chargista?
- O Lula é prenhe de significados. Pois mudou totalmente o seu perfil: de metalúrgico radical, adotou o estilo "Lulinha Paz e Amor", do marqueteiro Duda Mendonça. Isso o faz alvo de humor. E a personalidade do Lula também favorece muito, pois sempre falando de improviso, consegue soltar "pérolas" engraçadissímas. O que compõe inclusive no meu livro o "Guia de Frases Besteirol" do Lula. Dentre os outros candidatos, o Alckmin é sem sabor; já a Heloísa Helena se destaca pela sua raiva e ao mesmo tempo candura de mulher.
- Você saiu do PT e partiu para o PSOL. Sua posição política interferiu na composição do trabalho? Foi uma espécie de grito de protesto?
- Independentemente de partido, mesmo no PT, já adotava a linha "hay gobierno soy contra", pois acredito na autonomia do chargista em seu ofício. Sou fundador do PSOL não somente por questão de sigla partidária mas também porque resolvi permanecer fiel aos meus ideais. Como na poesia do Thiago de Mello: não tenho um caminho novo, tenho um jeito novo de caminhar. O Lula diz que foi traído, mas ele é quem realmente traiu todos aqueles que nele depositavam sua fé mais sincera.
- Qual é a proposta da editora onde você publica o livro?
- A "Marimba Editorial" é uma nova editora, que volta a sua atenção para os novos talentos do mercado editorial. Neste momento estou bem otimista, pois estou com "carta branca" para procurar novos autores na área de quadrinhos.
- Você finaliza um mestrado sobre Jeca Tatu. Do que se trata?
- O Brasil sempre foi carente de um símbolo de identidade nacional. Diversas foram as tentativas, que passaram pela figura do Índio, Zé Povo, dentre outros. O Jeca Tatu, durante um bom período, representou - não só nas charges - a figura do povo brasileiro. O personagem figurou nas capas das revistas de humor retratado pelo traço dos maiores cartunistas do Brasil. O meu interesse é em sua viés político, em que o personagem Jeca Tatu dialoga com as autoridades brasileiras, representando o povo sempre de forma crítica e matreira.
Leia mais na postagem abaixo.
Escrito por PAULO RAMOS às 11h25
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OBRA DE NICO COMPILA "GUIA DO BESTEIROL"
O livro "E agora, Lula? Charges do desastrado governo" não tem só imagens. O autor, Nico, pesquisou uma série de frases "infelizes" ditas pelo presidente desde que assumiu o governo, há quase quatro anos. Algumas:
- "Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta" (08.03.2004)
- "Estou vendo aqui companheiros portadores de deficiência física. Estou vendo o Arnaldo Godoy sentado, tentando me olhar, mas ele não pode me olhar por que ele é cego. Estou aqui à tua esquerda, viu, Arnaldo! Agora, você está olhando pra mim..." (27.06.2003)
- "Quando se aposentarem, por favor, não fiquem em casa atrapalhando a família. Tem que procurar alguma coisa para fazer." (01º.10.2003, ao assinar o Estatuto do Idoso diante de uma delegação de idosos)
Nico prepara uma série de lançamentos no Rio de Janeiro. O próximo é no dia 14 deste mês. As datas e os endereços estão no blog do chargista: http://blogdonico.zip.net/. A obra pode ser encomendada no site que ele mantém na internet. Lá, há também informações sobre as ilustrações que fez para outro livro sobre o governo Lula, de autoria de Lincoln de Abreu Penna: "Lula, a presidência - Passos e tropeços". O endereço é http://www.mundoemrabisco.hpg.ig.com.br/
Escrito por PAULO RAMOS às 11h15
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05/09/2006
TESE ANALISA (COM HQs) COMO SERIAM AS ARTES NO FUTURO
ENTREVISTA: EDGAR FRANCO
Imagine o futuro. Agora, tente visualizar como seriam as manifestações artísticas desse futuro. Difícil, né? O pesquisador Edgar Franco passou os últimos anos estudando exatamente isso. O resultado virou um doutorado, defendido hoje (05.09) na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo). Franco não só foi aprovado como a banca recomendou também que transformasse a tese em livro.
"O enfoque principal do doutorado foi analisar as visões de um futuro pós-humano na poética de ciberartisitas que trabalham com biogenética, telemática, robótica e realidade virtual e sofrem influência e contaminação do Cyberpunk e de novos cultos transhumanistas", diz Franco, que também é desenhista de quadrinhos, tanto em papel quanto em computador (a caricatura dele, ao lado, foi feita por Gazy Andraus durante a defesa).
Para a elaboração do doutorado, teve de criar um universo de ficção científica para abrigar (e demonstrar) todas as tendências artísticas do "futuro". O pesquisador-desenhista já lançou alguns produtos ligados a esse universo. Dois são em quadrinhos: 1) "BioCyberDrama", lançado em 2003 (Opera Graphica), em parceria com Mozart Couto (a dupla já tem um segundo número pronto, à espera de uma editora); 2) "Artlectos & Pós-Humanos nº 1", obra deste ano (Editora SM, veja capa da revista abaixo).
Franco também criou uma HQtrônica para a tese: "brinGuedoTeCA 2.0". O termo HQtrônica foi criado por ele no mestrado defendido na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). A palavra sintetiza as histórias em quadrinhos híbridas criadas para a internet, que misturam imagem, som e movimento. O estudo foi lançado em livro (veja postagem do dia 16 de agosto).
Edgar Franco divide os desenhos e os estudos com o giz e a sala de aula. É professor da PUCMG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais). O ilustrador-pesquisador de 34 anos mora em Poços de Caldas. Foi de lá que falou com o Blog dos Quadrinhos.
- Qual foi a hipótese da tese? E quais foram as conclusões? - Algumas das minhas hipóteses, apontadas no início da pesquisa, comprovaram-se e ampliaram-se com o desenvolvimento do trabalho, como a de que a relação do homem com as novas tecnologias está mudando profundamente a forma de apreensão do mundo, as noções tradicionais de corpo físico, realidade e transcendência - apontando para uma ruptura do tradicional conceito de humano. As artes que se utilizam das novas tecnologias - robótica, telemática e genética - funcionam como antecipadoras e questionadoras dessa vislumbrada futura condição pós-humana, remetendo ao tradicional visionarismo da ficção científica, ou ainda produzindo um deslocamento conceitual necessário para discutir questões prementes contemporâneas. Conclui também que muitos dos artistas envolvidos com as novas tecnologias exercem um papel de vanguarda do pensamento em relação à condição futura da espécie humana.
- Há alguma ligação entre este estudo e as HQtrônicas, tema de seu mestrado? - Desta vez, a pesquisa foi mais ampla e buscou refletir sobre múltiplas linguagens que estão nascendo com os avanços tecnológicos em diversas áreas, como nanotecnologia e genética, e não apenas hipermídia. No entanto, um dos produtos artísticos da tese é a HQtrônica "brinGuedoTeCA 2.0". Com a criação artística, tenho dado continuidade às minhas investigações poéticas e teóricas sobre o fenômeno das HQs híbridas.
-Você percebeu mudanças nas HQtrônicas desde que terminou o mestrado? - Vejo que elas estão realmente se consolidando gradativamente como linguagem, mantendo alguns dos códigos que mapeei no mestrado. Mas muito ainda acontecerá até sua efetiva estruturação. Os avanços tecnológicos constantes na área de softwares de criação e navegação têm proporcionado muitos recursos novos. Percebi também que a tecnologia do "Flash (da Macromedia)" tornou-se a principal entre as novas HQtrônicas por sua facilidade de manipulação e leveza dos arquivos que produz.
- É difícil estudar um gênero que ainda está em processo de molde? - Muito complicado, principalmente pela resistência que encontrei entre os meus pares (pesquisadores da área de quadrinhos). Existe um verdadeiro "tradicionalismo decadentista" entre a maioria dos pesquisadores que preferem olhar somente para o passado e se recusam a ver as possibilidades de futuro. Alguns foram até meio xiitas em relação à minha pesquisa e meu livro. Encontrei mais eco entre os pesquisadores de cinema, animação, web arte e novas linguagens artísticas do que entre os pesquisadores de HQ. Estudar algo que está acontecendo, um fenômeno contemporâneo, através de pesquisa exploratória é muito complexo, mas acho que minha pesquisa cumpriu o seu papel, meu livro "HQtrônicas: Do Suporte Papel à Rede Internet" é um dos trabalhos pioneiros no mundo a tratar sobre o assunto das HQs hipermidiáticas.
- Você é referência no estudo de outras linguagens, principalmente a virtual. Para você, o papel está datado? Ou haverá uma convivência simultânea com o suporte virtual? - Uma nova mídia não supera a sua antecessora, mas tem a tendência de torná-la "cult". O papel continuará existindo sempre, mas tornar-se-á um artigo mais luxuoso no futuro. As HQs impressas serão produtos ainda mais elitizados, assim como os livros. Mas isso é uma projeção para uns 30, 40 anos. O suporte digital gradativamente irá tornar-se mais popular e barato que o papel e este se elitizará. Acabar, isso nunca. Ainda bem, pois gosto muito do digital, mas adoro o cheirinho de gibi novo (he,he!)
- Uma pergunta bem genérica: para onde caminham os quadrinhos? - Como eu disse na resposta anterior: para uma grande elitização. Não estamos formando gerações de novos leitores, portanto as HQs como mídia de massa serão coisa do passado. Cada vez menos pessoas terão afinidade com a linguagem, assim não só alguns autores serão cult, mas a linguagem das HQs impressas será cult! As HQtrônicas encontrarão aos poucos o seu caminho, uma linguagem intermídia que pode até vir a se consolidar como algo para o grande público da rede, mas isso só o tempo dirá. As HQs impressas precisaram de 100 anos para chegar ao seu auge, as HQtrônicas têm pouco mais de 10 anos...
Escrito por PAULO RAMOS às 17h12
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