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21/07/2006
LIVRO CONTA HISTÓRIA DAS TIRAS NO BRASIL
ENTREVISTA: HENRIQUE MAGALHÃES
 Se no mundo dos quadrinhos há os que fazem, os que não fazem e os que só sabem falar -como diz o jornalista Gonçalo Junior-, Henrique Magalhães encabeça a lista dos que fazem. E como faz. O interesse pelos quadrinhos levou o professor da Universidade Federal da Paraíba a criar uma editora, a Marca de Fantasia. Ela existe, diz, "pela mediocridade do mercado, que não valoriza os autores nacionais".
A editora existe há 11 anos. Possui obras com quadrinhos e sobre quadrinhos. É nestas o ponto forte. Possui o maior acervo do país de títulos teóricos sobre o assunto. O último livro, lançado nesta semana, foi escrito pelo próprio Magalhães. "Humor em Pílulas" (R$ 15; pode ser comprado pelo site www.marcadefantasia.com.br) é um estudo pioneiro. Remonta parte da história do quadrinho nacional sob o ponto de vista das tiras. Sempre que algo assim foi feito, o gênero ficava diluído como um dos elementos dos quadrinhos. Há poucos estudos a respeito no país, em geral escondidos nas prateleiras das universidades.
O Blog dos Quadrinhos conversou por e-mail com Henrique Magalhães. A conversa foi sobre o livro e as tiras nacionais. O professor de Comunicação Social, que completa 49 anos em agosto, estava na véspera de uma viagem. Sempre prestativo, arranjou tempo para as respostas abaixo. Gente que faz é assim. Não tem tempo, arruma tempo.
- Seu livro aborda as tiras nacionais. No seu entender, há muita diferença em relação às americanas? - Sim, há muita diferença no aspecto de conteúdo. As tiras brasileiras tem sua força na crítica social, ligada a nossa cultura e realidade. As norte-americanas, para poderem ser veiculadas em todo o mundo, são mais neutras, não buscam a provocação e a crítica, salvo as exceções.
- Por que o rótulo "humor em pílulas" (nome do livro)? - Assim como as pílulas farmacêuticas, as tiras têm que ser compactas, comprimidas, e tomadas sistematicamente: são tiras diárias.
- Na sua pesquisa, você identificou um "marco zero" para a tira nacional? - Não. Não tive essa preocupação, até porque este é um estudo pioneiro e as fontes de pesquisa são raras. Dei mais ênfase à produção da década de 1970 em diante, que é a que conheço um pouco mais.
- Há um outro formato de tira, a de aventuras, em que a história é contada um pouquinho a cada dia. Esse tipo de formato está em extinção no Brasil? Se sim, por quê? - Creio que sim. Hoje os jornais são apenas mais um veículo de informação entre tantos e os leitores não são mais tão assíduos quanto em outras épocas, de modo que fica difícil acompanhar uma tira seqüenciada. A de humor se resolve o mesmo dia, o que facilita sua veiculação. As revistas em quadrinhos são mais apropriadas para as histórias de aventuras.
- Tiras também são histórias em quadrinhos. Mas, ao contrário dos demais gêneros, são vistas sempre com bons olhos. Pode-se dizer que é um gênero privilegiado? - O humor, que é o ingrediente principal das tiras, é muito sedutor e, não raro, leva à reflexão. É por isso que as tiras de humor gozam dessa simpatia do público.
- Existem no Brasil muitas coletâneas de tiras, mas pouquíssimos estudos e publicações sobre o assunto. Foi difícil encontrar material de referência para compor a obra? - Sim. Não encontrei nenhum estudo aprofundado sobre o assunto, apenas artigos em revistas e citações em livros. Isso reforçou meu empenho em estudar o assunto.
- A distribuição de tiras no Brasil, hoje, profissionalizou-se ou ainda está aquém do modelo ideal? - Não se compara com o modelo norte-americano, com sua eficiência e agressividade. Falta muito para o Brasil ter uma distribuidora profissional e abrangente.
 - A internet é o novo canal de distribuição das tiras? Estamos caminhando a passos largos para um novo suporte?- Não creio. A internet é boa para divulgação, não para veiculação. Não se compara o prazer de folhear um livro a ler na tela do computador. Talvez isso mude com as novas gerações de leitores, educados com os recursos eletrônicos. Por enquanto, vamos curtindo a revista, o fanzine, o jornal, o livro em seu formato impresso.
Escrito por PAULO RAMOS às 16h01
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17/07/2006
ANGELO AGOSTINI: AUTOR DE IDEAIS CONTRADITÓRIOS
ENTREVISTA: GILBERTO MARINGONI
Angelo Agostini se dizia abolicionista. Mas não vivia esses ideais. Era um homem da elite, que não tinha um necessário compromisso com os negros. As três frases sintetizam o doutorado de Gilberto Maringoni, defendido semana passada no departamento de história da USP (Universidade de São Paulo). A pesquisa durou cinco anos. O interesse por Agostini, no entanto, vem de longe. Começou nos anos 80, quando conheceu parte do trabalho dele. Planejou uma biografia. Adiou o projeto. Adaptou a idéia no doutorado.
Agostini (1843-1910) é um italiano que desenhou em vários jornais cariocas e paulistas da segunda metade do século 19 e início do 20 (a imagem ao lado, de autoria dele, é da "Revista Illustrada", de agosto de 1886). É tido como um dos pioneiros dos quadrinhos. Seus trabalhos têm sido lembrados de um ano para cá. Além da tese, há uma compilação de um dos tablóides onde atuou, o "Diabo Coxo" (Edusp, R$ 65), obra premiada com um HQMix.
Maringoni, 47 anos, é um colecionador de títulos profssionais. O Maringoni autor faz plano de publicar a tese. Quer também editar um álbum, mostrando a visão que Agostini tinha do Rio de Janeiro. O Maringoni jornalista mantém uma coluna no site Carta Maior. Possui cinco livros publicados, como "A Venezuela que se inventa - Poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez (Editora Perseu Abramo, R$ 30). O Maringoni chargista faz dois desenhos, toda semana, no mesmo site onde escreve o jornalista Maringoni (www.cartamaior.com.br). Faz ilustrações há um bom tempo, aqui e no exterior. Trabalhos já viajaram à França, Itália, Espanha, Portugal, Chile, Venezuela. E há também o arquiteto Maringoni. Veio de Bauru para fazer o curso na USP. "Me formei, mas nunca arquitetei nada".
Todos os Maringonis falam na entrevista a seguir, feita por e-mail. Ele comenta a pesquisa, fala de Agostini, do papel e da liberdade artística na imprensa.
- Há um movimento, sutil ainda, de ilustradores que realizam pesquisas nas universidades (lembro-me, de cabeça, do Guazzelli e do Bar, na USP). O que o levou a este doutorado?
- Achei que por impulso próprio não faria esta pesquisa. Eu comprei em sebos grande parte das coleções dos jornais editados pelo Agostini. Tinha o material na mão e achei que seria um desperdício não me aprofundar no assunto. Além do mais, ele viveu numa das épocas de maiores transformações da história do Brasil. São os anos situados entre o fim da Guerra do Paraguai e o início da República Velha. O Brasil deixava para trás os restos da economia colonial, baseada no escravismo, recebi um montante considerável de capitais externos e construía as bases de uma sociedade de classes profundamente desigual e injusta, mas moderna.
- O que você procurou mostrar?
- Fundamentalmente duas coisas. A primeira é que Agostini, embora seja um dos mais destacados ativistas pelo abolicionismo, acompanhou o projeto que a minoria branca - na feliz expressão cunhada pelo governador Cláudio Lembo - tinha para o país: uma sociedade baseada no liberalismo, no trabalho assalariado, que relegou os negros à própria sorte. Secundariamente, mostro a passagem de um tempo em que a imprensa era uma atividade artesanal, de poucas pessoas, para um empreendimento capitalista de grande porte, a exigir pesados investimentos em maquinário, pessoal e matérias primas. Os marcos dessa passagem são a fundação do "Jornal do Brasil" (1892) e da casa publicadora "O Malho" (1902), o primeiro conglomerado de imprensa da América do Sul.
- Qual a conclusão do estudo?
- Que embora Agostini fosse um abolicionista, isso não implicava um compromisso maior com os negros ou com as classes populares. Era um homem da elite ilustrada, com seus parâmetros e visões de mundo. Era genial, mas elitista, como Joaquim Nabuco, Rui Barbosa e outros (ao lado, reverência à princesa Isabel, em ilustração de julho de 1888).
- Qual o papel de Angelo Agostini: 1) na história da imprensa nacional; 2) na história da história em quadrinhos?
- Agostini atuou por 44 anos na imprensa. É uma das carreiras mais longas de nossa história. Sua importância é decisiva na implantação de uma imprensa ilustrada e de agitação em nosso país. Além disso, seus painéis sobre a escravidão são o melhor retrato visual da barbárie social dos anos 1880. Na história das histórias em quadrinhos, ele deve ser apontado como um dos principais precursores, ao lado do suíço Rudolph Topffer e do alemão Willheim Busch. Ele fez aqui algo que não existia em parte alguma: um romance seriado totalmente ilustrado, com duração de 24 anos, recheado de interrupções.
- Agostini é mesmo o primeiro quadrinista brasileiro?
- Há outros desenhistas que fizeram imagens em seqüência antes dele. Ele pode ser classificado como um dos primeiros.
- Você vê a charge como um tipo de história em quadrinhos? Ou é um produto à parte?
- Quadrinhos feitos em cima de fatos imediatos podem ser classificados como charge. Quando eu era chargista do "Estadão" (1989-1996), fiz quadrinhos de meia página sobre a crise do governo Collor. Era uma espécie de "charge seqüencial" para usar um termo bacana.
- Você tem uma longa trajetória na arte visual brasileira. Hoje, há liberdade na imprensa brasileira para a produção de charges?
- Eu acho que existe em alguns jornais. Não acho que estejamos na melhor fase da produção de humor político na imprensa. Passada a fase da ditadura, quando todos os chargistas eram de oposição e a fase da queda do Collor, há uma diversificação grande da produção. Mas não sinto que estejamos - tirando honrosas exceções, como o Angeli e outros - numa fase muito criativa. Não sei bem o motivo, mas me espanta ver charges abertamente preconceituosas e repetidoras da desinformação que a grande imprensa tenta disseminar contra alguns temas muito polêmicos, como os sem-terra, a nacionalização do gás boliviano, cuba, Venezuela etc.
Escrito por PAULO RAMOS às 11h48
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10/07/2006
REVISTA DUNDUM: POLÊMICA PARECIDA À DA BANDA GROSSA
ENTREVISTA: ELOAR GUAZZELLI

Déjà vu. Caso parecido com o da revista "Banda Grossa" (os autores são acusados de mau uso do dinheiro público, leia na postagem acima) foi vivido pelos criadores da "DunDum" (ao lado, a capa de uma das edições). A publicação em quadrinhos foi editada em 1990. Contava, entre outros, com artistas como Adão Iturrusgarai (que hoje publica tiras na "Folha de S.Paulo") e Eloar Guazzelli, grande vencedor do Terceiro Concurso Folha de Ilustração e Humor. Na época, teve apoio cultural da prefeitura de Porto Alegre. O município forneceu o papel onde a revista foi impressa. O caso foi tema de acaloradas discussões na TV, foi parar na justiça, quase foi objeto de uma CPI.
O Blog dos Quadrinhos conversou sobre o assunto com Eloar Guazzelli, que hoje mora e trabalha em São Paulo. O tom da entrevista, feita por e-mail, é de um desabafo há muito contido.
- O que há de semelhante entre este caso da Banda Grossa e o vivido por vocês na DunDum? - Em 1990, por iniciativa do Adão Iturrusgarai (antes da "Aline") e do editor Gilmar Rodrigues, saiu a revista "Dundum", um verdadeiro tiro na comunidade cultural portoalegrense. Isso que a intenção inicial do Adão era apenas fazer uma espécie de despedida pra cidade, pois estava indo pra França. E foi como muitas vezes acontece com projetos despretensiosos. A revista foi superbem recebida por público (naquele tempo, tinha um público bem interessante pra quadrinhos mais autorais) e critica. Tanto que tirou de vez o Adão da Província e colocou ele em Sampa. O que conta é que a revista trazia varios autores da cena gaúcha (além do Adão, Pedro Alice, Guazzelli, Kyoko Yamashita, Otto Guerra, Silvio Silveira, Lancast, o grande Jaca ), além de incorporações que hoje há são antológicas, como a incorporação do Fabio Zimbres, ex-editor da "Animal" e um dos grandes nomes do nosso quadrinho autoral contemporâneo. Enfim, a revista deu certo. O problema é que tinha apoio da prefeitura (existia o PT então, governava bem Porto Alegre -ficaria mais 12 anos, pelo voto, e incomodava muitos interesses, quem diria... ). Daí que a bancada da direita gaúcha aproveitou o pretexto e caiu com tudo, pedido de CPI, bate-boca na tv, indiciamento dos autores, no caso o Adão e o Gilmar. Hoje pode parecer banal, mas foi feio. Quando começou a parte jurídica, intimações, depoimentos, os guris apertaram. Teve que se articular um depoimento de personalidades da cultura, como os escritores Luis Fernando Veríssimo e Moacir Scliar, dentre outros. Foi um exercício pleno de macarthismo. Os rapazes corriam risco de sanções administrativas, pois eram acusados de usar dinheiro público pra promover pornografia. Não deu em nada. Virou folclore. Mas olhando à distância, eu não acho graça nenhuma, exercícios coletivos de intolerância são perigosos. A revista esgotou. Mas também esgotou toda chance de futuros financiamentos por parte da prefeitura para publicações de HQ.
- No seu entender, houve censura no caso da Banda Grossa? - Não tenho muitos elementos pra opinar com segurança. Mas tendo em vista outros episódios, penso que sim, tem uma raiz no preconceito com a linguagem. Afinal, tem teatro e cinema com abordagens bem fortes e nem por isso se faz este tipo de ataque. E, mesmo quando essas expressões são atacadas , ainda assim a coisa se dá em outro nível. Neste caso, o que salta aos olhos é o preconceito.
- Alguns vereadores viram na revista "dinheiro público jogado fora". - Em geral, os vereadores entendem muito disso, deste assunto de desperdício de dinheiro público, é a sua praia, então deve ser verdade. Enfim, falando sério, o que salta aos olhos é o preconceito. Quadrinhos e isso mesmo. Barulho, provocação. Como diria o Cazuza: me chamam de bicha maconheiro, transformam o país num puteiro. Acho triste.
– Como você vê o papel do poder público na produção de quadrinhos? - Gostem ou não, é uma fonte importante de financiamento numa sociedade atrasada, onde a iniciativa privada na maior parte é de baixo nivel cultural, cheia de preconceitos e totalmente alheia à importância da cultura. Um país que há 40 anos deixou os militares destruírem a educação e a cultura. Então, por pior que seja o poder público, ele pelo menos pode ser cobrado a participar. Quer dizer, as pessoas tem que se organizar. Em Porto Alegre, tinha isso. Sei que o país é muito desigual, inclusive existem nichos fortes (Sampa, por exemnplo), onde a iniciativa privada tem evoluído nesse sentido. Mas, no contexto geral do país, é um deus nos acuda. Cultura é o supérfluo. Então, nesse caso, o poder público pelo menos pode ser cobrado. Quero dizer, naquele momento, em Porto Alegre, era assim.
- Qual o maior prejuízo que um caso como esse traz? - O medo de editores e burocratas para aceitar novos projetos e o preconceito contra a linguagem das HQs criando raízes.
- E como fica a cabeça do autor da revista numa hora dessas? - Só posso falar por mim. Primeiro levei um susto, depois fiquei revoltado e, muito tempo depois, quando tenho de falar como agora, fico triste por este pais. Aparentemente tão lindo e tropical na sua imagem . Tão cruel e preconceituoso na sua realidade cotidiana. Sinto raiva e tristeza. Mas, enfim, agora tem que discutir, trazer o assunto. Botar na mesa.
- Vocês, na DunDum, foram processados à época. Que fim levaram os processos? - Na verdade, só o Adão e o Gilmar é que foram intimados a depor. Acho que o processo nem chegou a ser formalizado, mas se não fossem os depoimentos dos figurões da cultura, com certeza a bola ia seguir rolando. Mas o quer que estava sendo encaminhado foi arquivado. Às vezes a justiça se dá conta do ridículo e encerra determinados assuntos. Mas ficaram seqüelas. Dia desses, um cartunista teve de se retratar por ofensa ao sistema judiciário. Não existe humor sem ofensa. Claro, deve haver bom gosto, critério editorial, mas esperar bom comportamento de uma arte de combate. Desenhista controlado é um eunuco.
Escrito por PAULO RAMOS às 00h57
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06/07/2006
O HUMOR DE NELO LORENZON: A TESE VENCEDORA DO HQMIX 06
ENTREVISTA: ANDREA DE ARAÚJO NOGUEIRA
Uma conversa com a autora da tese vencedora do HQMix 2006 é contagiante. A empolgação parte dela mesma. Fala da pesquisa sobre as charges de Nelo Lorenzon (1909-1963, foto ao lado) como se fosse um filho querido. O doutorado, orientado por Antonio Luis Cagnin, demorou quatro anos para ficar pronto. A defesa foi em abril do ano passado, na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo).
A maior dificuldade foi encontrar os desenhos. "Como partes de um quebra-cabeça, a busca é sempre complicada, comendo um tanto do pó dos arquivos da cidade. Era uma festa quando unia os fragmentos das charges", diz. O ilustrador atuava desde a década de 30. Ganhou destaque em publicações da empresa Folha da Manhã, antiga Folha de S.Paulo. É desse período a pesquisa (1948-1960). "Muitas das reproduções de sua primeira fase estão no acervo de Obras Raras da Biblioteca da Faculdade de Direito [em São Paulo], no acervo da Folha de S.Paulo e, felizmente preservadas pela família Lorenzon".
Andrea é formada em história pela USP e estudou charges também no mestrado, feito no Instituto de Artes da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Hoje, trabalha na programação do Sesc Pompéia, em São Paulo, mesmo local onde vai receber, na terça-feira (11.07), o troféu de melhor tese de 2005. O papo com o Blog dos Quadrinhos começou pelo telefone. Terminou por e-mail. Em comum, a mesma empolgação, como mostram as respostas a seguir.
- Por que Nelo Lorenzon? - Na verdade foi uma continuação. Comecei a pesquisar a produção de charges na imprensa na década de 20, tratando de seu contexto, aspecto formal e as relações intertextuais que a linguagem da charge realiza, aliando humor ao processo histórico. A sugestão de trabalhar com o material do Nelo foi do Jal [José Alberto Lovetro, um dos criadores e organizadores do HQMix], pesquisador e cartunista, que eu rapidamente acolhi.
- Qual a conclusão do seu estudo? - O trabalho analisou o significado da charge, enquanto fonte histórica fundamental do debate político. Nelo Lorenzon, em seu desafio diário, pretendeu atender aos propósitos da empresa Folha da Manhã S.A. em ampliar seu alcance nas camadas populares. Contudo, por meio da sátira e da ironia de Zé Marmiteiro, seu principal interlocutor [ao lado, ilustração do personagem com seu cachorro, Chuvisco], expôs a ambigüidade do discurso político, num período marcado pelas falcatruas e corrupção no poder. A pesquisa evidencia sua atitude educativa em relação aos problemas e anseios das camadas populares no processo do desenvolvimento econômico, na década de 50 do século XX.
- Para você, charge é história em quadrinhos? - A linguagem da HQ não exclui a charge. Essa, porém, é uma longa polêmica. Podemos incluir a charge na história em quadrinhos por suas características quanto aos recursos formais ou verbais, legendas ou balões. Contudo, o termo charge, adotado do conceito francês, enquanto manifestação comunicativa condensadora, relaciona-se na intertextualidade das notícias diárias (manchetes, fotos, editoriais), dispensável no caso das tiras, que possui um repertório temático muito mais amplo.
- A charge é vista com bons olhos. Quadrinhos, nem sempre. Não soa contraditório?
- A charge por sua direta relação com a política e seu destaque na apresentação gráfica do jornal, possui um aspecto mais editorial, avalizado pela publicação. Contudo, os quadrinhos - embora ainda vistos como entretenimento pelos críticos - consolidam sua importância e potencial nos estudos dos aspectos culturais, históricos, educacionais e formais. É contraditório, mas estamos aos poucos alterando esses critérios e julgamentos.
- Com relação a outros países, existe algo que torna peculiar a charge brasileira? - Como estou mais familiarizada com os da “velha guarda”, falo um pouco mais da minha praia. No Brasil, a charge tem um alcance impensável. Tivemos os incríveis J. Carlos e Nássara, formamos uma escola única, estabelecendo um diálogo na América Latina com grandes artistas, como Guevara e Divito, que trabalharam na década de 50 aqui. A charge hoje (mesmo com as ameaças de irritação por parte dos fundamentalistas) provoca ainda a sensação de deslocamento e no Brasil ganha mais visibilidade, como se pudéssemos nos aliviar de todas as contradições e problemas neste tão pequeno espaço do humor.
- Aumentam os estudos sobre a área de artes gráficas no Brasil. Diminuiu o tradicional preconceito acadêmico sobre o tema? - Na História, creditamos esse interesse ao amadurecimento da linha metodológica da História Cultural, que incentiva a interdisciplinaridade como objeto de pesquisa. Os trabalhos (há muito publicados) de Anna Maria Belluzzo sobre Voltolino e de Mônica Peixoto, sobre os Turunas e Quixotes do Rio de Janeiro, aliados ao trabalho do Prof. Elias Saliba [docente da USP], contribuem para ampliar essa procura.
- Seu mestrado também foi sobre artes gráficas, não? Fale um pouco sobre o estudo. - Antes de Nelo o desenhista das Folhas era o Benedito Bastos Barreto, o Belmonte, que era muito conhecido no período por retratar a figura ‘heróica’ do bandeirante e por uma vasta produção enquanto ilustrador de partituras e de livros. Trabalhei com a produção de suas charges, as primeiras da Folha da Manhã em 1925, com seu personagem famoso, o Juca Pato. Foi muito gostoso descobrir um lado diferente da política do café e suas irracionais taxas de câmbio que corroboraram para a queda de Washington Luis e a posse de Getúlio Vargas, por meio do Juca, um pequeno flâneur apaixonado por São Paulo.
- Você pretende dar continuidade às pesquisas? Um pós-doutorado, talvez? - Pretendo sim. Gostaria muito de continuar a pesquisa sobre os anos 50, tratando de Augusto Rodrigues e Hilde Weber. Vamos ver. Há muito material ainda a ser pesquisado na produção tão efêmera, que, contando com a ajuda de todos os desenhistas, há de se tornar perene.
Escrito por PAULO RAMOS às 19h06
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UM POUCO DE NELO LORENZON
O ilustrador Nelo Lorenzon ficou conhecido pelas charges produzidas para os jornais da Empresa Folha da Manhã (leia na postagem acima). A seguir, uma das ilustrações. Uma charge, sátira ao ex-presidente Getúlio Vargas.
Escrito por PAULO RAMOS às 19h02
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