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21/06/2006
EDITORA EBAL VIRA TEMA DE PESQUISA NA USP
ENTREVISTA: RODRIGO ARCO E FLEXA
Uma história pode ser contada de várias formas. Depende do ângulo dado ao assunto. O jornalista e pesquisador Rodrigo Arco e Flexa preencheu mais uma etapa da longa trajetória da Editora Brasil-América, ou só EBAL. Ele escolheu um momento específico da empresa criada por Adolfo Aizen (1907-1991), o da publicação dos quadrinhos de super-heróis entre os anos 60 e 70. Foi uma fase de proliferação das revistas do gênero.
A pesquisa levou três anos para ficar pronta. Foi o tema de seu mestrado na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo), intitulado "Super-Heróis da EBAL - A publicação nacional dos personagens dos ´comic books´ dos EUA pela Editora Brasil-América (EBAL), décadas de 1960 e 70". A defesa -que conferiu a ele o título de mestre em ciências da comunicação- foi na última terça-feira (20.06).
Nesta entrevista, feita por e-mail, o paulistano Rodrigo Arco e Flexa conta mais detalhes da pesquisa sobre os quadrinhos da EBAL, material que lê desde os sete anos (hoje, está com 40). E fala também do impacto que os títulos tiveram nos leitores.
- Qual foi hipótese da dissertação de mestrado? E a que conclusões chegou?
- Minha dissertação teve como tema central de pesquisa a publicação dos super-heróis dos "comic books" dos EUA pela EBAL, entre meados de 60 e 70. A proposta do trabalho foi analisar as razões desse processo editorial -contextualizado dentro da história da EBAL e dos quadrinhos de uma maneira geral- investigando, ainda, de que maneiras gerações de leitores foram influenciadas por tais publicações. Realizei um amplo levantamento iconográfrico das revistas da EBAL da época, além de entrevistas com leitores das publicações de Adolfo Aizen. As narrativas dos super-heróis dos quadrinhos do período, de variadas maneiras, representam (seja isso intencional ou não) a crise das antigas certezas da luta do "bem contra o mal" -marcada pela Guerra do Vietnã, a revolução do comportamento, o avanço da mídia e da tecnologia sobre aspectos da sociedade, entre diversos outros aspectos da sociedade contemporânea. E foi a EBAL a editora nacional a publicar e difundir no Brasil grande parte das histórias mais importantes desse período, com qualidades, virtudes e dificuldades que são analisadas ao longo da pesquisa. A análise contextualiza a trajetória da EBAL, propondo a leitura de histórias relevantes lançadas pela editora.
- Adolfo Aizen é uma figura que parece permear toda a sua dissertação. Qual a importância dele: para o momento da Editora Brasil-América estudado por você; para a indústria de quadrinhos nacional?
- A história da EBAL, em sua amplitude, confunde-se com a evolução da imprensa no Brasil e seus variados impactos sobre a sociedade. A EBAL investiu na publicação de revistas e álbuns em quadrinhos feitos por artistas brasileiros (ou aqui radicados) sobre fatos da história brasileira, além de adaptações da literatura nacional. Artistas reconhecidos por sua contribuição na trajetória das HQs no Brasil trabalharam para a EBAL, como André Le Blanc, Gutemberg Monteiro, Nico Rosso, Monteiro Filho e Ivan Washt Rodrigues. Os títulos aqui produzidos são importantes no lento processo de legitimação das histórias em quadrinhos no Brasil.
- O que a série de entrevistas mostrou? Alguma marcou mais?
- Em todas as entrevistas, aparece uma recorrência: a leitura dos quadrinhos pontuou, exerceu influências (as mais variadas) sobre a vida de cada um. A dissertação dedica o quarto e último capítulo às entrevistas colhidas, destacando comentários dos leitores sobre edições e histórias da EBAL, acompanhados pela iconografia correspondente.
- Você sentiu algum tipo de preconceito na academia com relação a trabalhos científicos envolvendo quadrinhos?
- Antes de ingressar no mestrado, imaginava que isso poderia ocorrer. Mas não foi o que aconteceu. Pelo contrário, muitos colegas que trabalhavam com assuntos diferentes mostraram interesse pelo tema e até comentaram a importância em se aprofundar o conhecimento sobre uma forma de expressão tão relevante ao mundo contemporâneio, mas ainda com poucos trabalhos produzidos no país, em relação aos EUA e à Europa.
- Este mestrado vai render um doutorado na mesma linha?
- Certamente. Uma possibilidade é um estudo sobre as variadas relações da imprensa com as histórias em quadrinhos, uma linha de pesquisa que já venho desenvolvendo. Mas ainda não é o momento para me concentrar nisso. Ainda quero reler com calma, nas próximas semana, tudo o que escrevi. Daí, naturalmente as coisas irão ocorrer.
Escrito por PAULO RAMOS às 19h27
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10/06/2006
SONIA BIBE LUYTEN

O Brasil –nem todos sabem- figura entre os pioneiros nos estudos sobre mangás. O mérito é da pesquisadora e professora universitária Sonia Bibe Luyten. Ela publicou em 1991, pela editora estação Liberdade, “Mangá – O Poder dos Quadrinhos Japoneses” (veja capa ao lado), resultado de pesquisa realizada na Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo). O livro venceu o Prêmio Romano Calise do prestigiado Festival Internacional de Lucca, na Itália. No Brasil, a obra esgotou. Foi relançada em 2000 pela Hedra. O livro, hoje, é recomendado aos professores pela Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.
Sonia Luyten não pára. Já foi professora da USP, deu aulas no Japão, morou na Holanda. Tantas viagens a tornaram uma referência em quadrinhos estrangeiros. Depois de participar de dois eventos, um em Goiânia e outro em Recife, ela conversou com o Blog dos Quadrinhos. A pesquisadora fala de sua obra e como contribuiu para a pesquisa de “Mangá – Como o Japão Reinventou os Quadrinhos”, de Paul Gravett (leia na postagem acima).
- No fim da sua obra, você comenta que é difícil dizer qual o caminho que os mangás trilhariam dali para frente. Passaram-se alguns anos. Já é possível perceber para onde a trilha vai?
- Podemos observar alguns pontos de mudanças a partir dos anos 90. Nos mangás femininos, notamos uma mudança na estética.Os corpos esguios foram tomando mais volume e os seios ficaram cada vez maiores. Os olhos sofreram outra transformação, ficando mais angulosos e com menos raios e estrelinhas que saltavam de dentro deles. Muitos temas novos, com a inclusão de mitologia ocidental, foram incorporados ao estilo japonês.
- A indústria de quadrinhos japoneses se adaptou ao mundo globalizado?
- Com certeza. Ela passou a ser um item de exportação como qualquer outro produto. No Japão, após a perda da Segunda Guerra Mundial, houve uma programação organizada para crescer e exportar. O inicio foi com as pérolas, depois rádios, aparelhos de som, TVs, (que antes eram de qualidade duvidosa), carros, tecnologia, artes tradicionais (ikebana, cerimônia do chá etc), formas de organização empresarial e, finalmente, neste milênio, a intensificação dos produtos da cultura pop, como os animês e mangás em escala gigantesca.
- Qual a diferença básica entre a sua obra e a de Gravett?
- Conheci Paul Gravett num dos Festivais da Amadora, em Portugal, e conversamos muito sobre o meu livro, sobre os mangás que dei a ele naquela ocasião. Ele me disse que estava interessado nesse assunto, pretendendo escrever um livro, e me pediu algumas contribuições sobre alguns assuntos relativo aos mangás e também sobre os desenhistas nisseis da geração dos anos 60 (como Shimamoto, Cláudio Seto, Paulo Fukue), que já produziam mangá no Brasil antes dos norte-americanos. Convidei Paul para vir ao Brasil em 2003 para o Seminário de Cultura Pop Japonesa que organizei em Santos [compilado no livro “Cultura Pop Japonesa – Anime e Manga”, também da Hedra], mas infelizmente não pode vir pois sua mãe estava com uma operação marcada justamente naquela data. Tempos depois, enviou-me seu livro pronto em inglês, que achei muito lindo graficamente, revelando um investimento espetacular da editora. Aqui no Brasil, são poucas as editoras que investem numa edição como esta, colorida, papel de boa qualidade. E o mangá é um assunto, como qualquer HQ, que precisa de muita imagem e produção editorial. Se desde 1991 as editoras brasileiras me ouvissem quando eu dizia que o mangá era o futuro, que editassem de forma bem feita o meu livro, o Brasil estaria na frente e seria pioneiro no mundo nesse assunto. Fico muito frustrada com a mentalidade estreita de muitas editoras e da falta de visão para investir. Depois que o assunto vira produto de massa, como é o caso do mangá, aí é que vão investir, deixando para trás os autores. Digo isso porque já estou em outro patamar em pesquisa de quadrinhos e as editoras brasileiras ainda não se entusiasmaram com novos assuntos que estão em minha pauta.
Escrito por PAULO RAMOS às 12h21
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02/06/2006
GONÇALO JUNIOR - O LADO AUTOR
Gonçalo Junior é um homem de muitas faces. É autor, jornalista, pesquisador de quadrinhos, biógrafo. Consegue destaque em todas as funções. O lado criador de histórias tem uma fixação: o silêncio nos quadrinhos. Ele assume a tendência de só roteirizar histórias mudas, sem palavras, trabalho difícil de ser realizado. Tem planejado mais um álbum, também priorizando a linguagem visual.
Nesta primeira parte da entrevista (veja a continuação na postagem abaixo) ele explica por que gosta tanto de quadrinhos sem palavras, fala como faz para roteirizar esse tipo de história e conta como foi a pesquisa para escrever "O Messias".
- Não é o primeiro trabalho que você faz sem uso das palavras, apoiando-se apenas nas imagens já utilizou o recurso em "Claustrofobia"]. Por que isso? Gonçalo Junior - Comecei a escrever roteiros para quadrinhos na década de 1980, quando fazia fanzines e criava principalmente tiras ou histórias de uma página para os Estúdios Cedraz, responsáveis pela tira Xaxado, que é reproduzida em vários estados do Nordeste, principalmente. E, nessa época, achava desafiante escrever histórias num espaço tão limitado. Mais ainda, criar tiras sem texto, como acontecia com o personagem americano Pinduca, que existiu por muitos anos, nas décadas de 1920 e 1930, sem jamais ter trazido um único diálogo – adorava suas histórias. Gosto de desafios e concordo com Will Eisner que a linguagem dos comics ainda engatinha e há muito a ser explorada. Brinco com os amigos que são quadrinhos pop, que podem ser lidos por qualquer leitor em algum ponto do planeta. Digo também que, num nível mais superficial e primário, são compreensíveis até mesmo por quem não sabe ler e escrever. Estou preparando o terceiro álbum nesse mesmo formato. Mas tenho outros três roteiros concluídos com textos.
- Como você faz para descrever cada cena ao desenhista? Foi por isso que três desistiram de desenhar a obra no meio do percurso? - Tenho um passado de cartunista, cheguei a colaborar em um suplemento semanal de um grande jornal na cidade de Aracaju, Sergipe, onde morei em 1987. Ilustrei várias capas. Depois, larguei o desenho por uma série de circunstâncias, mas ficou algo que me ajuda a escrever o roteiro. Ou seja, divido as páginas no número de quadrinhos que acho legal e escrevo no centro de cada um a descrição da cena – quando tem balão, coloco o texto dentro, claro. Não raro, faço um rascunho à caneta para que o artista tenha uma idéia mais precisa do que imaginei. Se acho que tem de ter impacto, construo um quadrinho maior. Assim, a sintonia fica melhor. Os três que desistiram de fazer "O Messias" – um chegou a desenhar 20 páginas – alegaram falta de tempo. Eu até entendo, eles precisam pagar as contas e não vão perder tempo com algo incerto, que não sabem se será aproveitado e muito menos dará algum retorno financeiro. Creio que o desenhista precisa se apaixonar pela história e acreditar que ele pode fazê-la bem.
– O posfácio do álbum comenta que a idéia para "O Messias" data de 1997. É um período pré-PCC, pré-Cidade de Deus. De lá para cá, a leitura que você faz da violência se manteve a mesma? - Eu temia que algo parecido com O Messias acontecesse antes de conseguir concluir a história. Nesses nove anos, tive vários sinais de que a coisa estava caminhando para algo muito grave. Começou-se a falar em guerra civil declarada. Os bandidos começaram a descer dos morros, a fazer arrastões, a incendiar ônibus. Marcola, aqui em São Paulo, conseguiu encurralar 10 milhões de pessoas em casa. Isso jamais aconteceu na história da cidade. A capital só ficava vazia nos feriados porque as pessoas viajavam. Só faltou ele se anunciar como um Messias. Enfim, minha leitura continuou cada vez mais atual e, pior, profética até certo ponto. O terreno nunca esteve tão propício para um messias. Deixa eu esclarecer algo: a trama nasceu num momento em que a TV dava muito destaque à proliferação de seitas evangélicas nos morros cariocas. Lembro-me do nome do pastor Caio Fábio, que teve seu nome ligado ao tráfico. Os evangélicos também tinham tomado conta das cadeias nesse período. Foi quando Ratinho se tornou um fenômeno de mídia.
- Você é baiano, hoje vive em São Paulo. Flávio Luiz também é da Bahia. Como vocês fizeram para retratar a violência carioca? Houve algum processo de pesquisa? - Sim, durante mais de um ano, a gente fez um rastreamento em jornais e revistas para conseguir fotos dos morros cariocas controlados pelo tráfico de drogas. Ele procurava em Salvador e eu aqui em São Paulo. A cena da abertura que tem uma favela e ocupa toda a página foi feita muito depois, quando mais de vinte páginas já tinham sido concluídas. Além disso, Salvador e Rio se parecem muito. Por toda a cidade, existem condomínios de luxo que são cercados por favelas e invasões. A geografia da cidade é muito acidentada, como no Rio. Quem não conhece a fama das ladeiras da Bahia? Ajudou o fato de que eu e Flávio termos trabalhado muito tempo em jornais locais. Cobri polícia e cidade e conheço bem a miséria e o desespero desses lugares. E sei que estão cheios de pessoas honestas e trabalhadoras.
Escrito por PAULO RAMOS às 23h01
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01/06/2006
GONÇALO JUNIOR - O LADO PESQUISADOR
O lado pesquisador de Gonçalo Junior já produziu um dos títulos mais relevantes da literatura sobre quadrinhos, "A Guerra dos Gibis". É referência para estudos sobre a histórias dos quadrinhos no Brasil e da indústria que os produz. Foi a obra que colocou em evidência este jornalista baiano, que adotou São Paulo como morada nos últimos anos. O livro sucedeu outro, e mais outro, e o volume de publicações não parou mais. O último, "Benício", conta a biografia do artista que ilustrou vários dos cartazes do cinema brasileiro.
Nesta segunda parte da entrevista, Gonçalo Junior fala desse lado "fuçador", como ele diz, e da continuação de "A Guerra dos Gibis", que deve ser apresentado à editora ainda neste ano.
- Você é autor de livros respeitados sobre quadrinhos, como "A Guerra dos Gibis". Hoje, você se vê como autor de quadrinhos ou pesquisador de quadrinhos? - Sempre fiz as duas coisas e fico feliz que só agora estou tendo a oportunidade de mostrar meus roteiros. Mas nunca deixei de fazê-los. Só de histórias mudas como O Messias tenho aqui mais de 400 páginas inéditas. A pesquisa é uma forma de exercer minha paixão pelo jornalismo, uma vez que a nossa imprensa sepultou o jornalismo investigativo com os restos mortais de Tim Lopes. Não se vende mais jornal hoje por causa da manchete, do furo – a não ser quando o Ministério Público vaza algum processo ou um político corrupto quer ferrar alguém e chama algum repórter numa quebrada de Brasília. Compra-se jornal ou revista por causa do caderno de TV, de cultura, de fofoca, de horóscopo ou de esportes. Gosto de fuçar, de esgotar as possibilidades, de tirar confissões das pessoas e montar um quebra-cabeça. Isso para mim é prazeroso. Quero também contar histórias de pessoas que sempre ficaram à margem, mas que fizeram trabalhos importantes. Parto do principio de que toda a vida é uma grande história. Mesmo o mais anônimo e apagado dos seres, aquele por quem certos arrogantes e prepotentes da imprensa não dão o menor valor, tem ótimas histórias para contar.
- Quando sai a segunda parte de "A Guerra dos Gibis"? Há outro(s) livro(s) engatado(s)? - A Guerra dos Gibis 2 não terá este título. Foi escrito antes do primeiro volume e, no momento, estou reescrevendo tudo. Espero apresentar à editora ainda este ano para que publique no próximo, caso seja do interesse da mesma. Dessa vez, pego a ditadura militar, de 1964 a 1985.
Escrito por PAULO RAMOS às 22h52
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