29/05/2006

LAZARUS LEDD - VERSÃO DO EDITOR

Este mês de maio viu nascer uma nova editora de quadrinhos, a Tutatis, de Porto Alegre. O título escolhido para a estréia no mercado foi o italiano "Lazarus Ledd" (a imagem ao lado é a capa do primeiro número), personagem ainda pouco conhecido por aqui. O que chamou a atenção -mais até do que o próprio herói italiano- foi a estratégia de vendas adotada. A edição ganhou duas versões, uma mais simples e mais barata e outra com um acabamento melhor e um pouco mais cara (voltada para o colecionador). Além disso, a Tutatis criou um sistema de assinaturas -algo raro aqui no mercado de quadrinhos brasileiro- a ser administrado pelos fãs de quadrinhos italianos (o pessoal do Portal TexBR).
 
O Blog dos Quadrinhos conversou sobre o assunto tanto com o dono da Tutatis, o bancário Edie Ferreira da Silva Júnior, (o lado editor da estratégia) quanto com o coordenador do Portal TexBR, Gervásio Santana de Freitas (o lado fã da estratégia de vendas). A seguir, a entrevista com Edie Júnior. Leia, na próxima postagem, o bate-papo com Gervásio Santana.
 
- Como surgiu a idéia?
Edie Júnior - Lazarus Ledd tem uma tiragem bem reduzida. É distribuído apenas em bancas e lojas especializadas em quadrinhos e também em algumas livrarias. O Portal TexBr é um site especializado em fumetti (quadrinhos italianos) de estilo bonelliano (publicações da Sergio Bonelli Editore). Apesar de Lazarus Ledd não ser publicado pela Bonelli, tem estrutura narrativa e formato de histórias bem semelhantes. Então, teoricamente, os freqüentadores do Portal são consumidores potenciais de Lazarus Ledd. Precisávamos de um instrumento de fidelização de clientes, que pudesse auxiliar na "arrancada" da editora, até que a revista possa se sustentar apenas com as vendas em lojas e livrarias. Analisando todos os dados acima, a conclusão óbvia foi a parceria com o Portal TexBR, que já possui experiência em comércio eletrônico e goza de enorme credibilidade junto aos seus clientes, principalmente pela seriedade com que é conduzido pelo Gervásio e demais colaboradores.

- Já é possível perceber algum resultado? Isso já criou algum tipo de fidelização por parte do leitor?
- Ainda não é possível avaliar totalmente os resultados. Fixamos inicialmente uma meta no número de assinantes, que ainda não foi atingida. Cremos que com o lançamento do número 1 e as opiniões dos leitores que participam do fórum do Portal, possa haver um incentivo para que surjam novos assinantes.

- "Lazarus Ledd" não é tão popular no Brasil. Há mercado para dois formatos, um de luxo e outro mais econômico?
- O formato duplo foi idealizado para ser utilizado do seguinte modo: a série normal, mais econômica, seria distribuída nas bancas de todo o país, em tiragem nacional. A série ouro, mais luxuosa, em tiragem reduzida, seria distribuída apenas em lojas especializadas e livrarias. Ocorre que, em razão dos custos gráficos envolvidos, neste primeiro momento não nos foi possível partir para uma distribuição nacional. Optamos então por distribuir as duas edições simultaneamente apenas nas comic-shops [lojas especializadas em quadrinhos], para avaliar a receptividade do título junto aos leitores, sem corrermos o risco de sérios prejuízos financeiros decorrentes de um grande "encalhe" em bancas.   

- Como surgiu a editora?
- Como dissemos numa das páginas da edição zero de Lazarus Ledd, a editora surgiu pela minha paixão por quadrinhos, pela vontade de publicar uma revista, pelo sonho de que a empreitada dê certo e que possamos aumentar continuamente a quantidade de títulos publicados.

- Por que "Lazarus Ledd" entre tantos títulos possíveis?
- Eu gosto de fumetti de estilo bonelliano. Foi uma opção de fã. Nossa idéia era começar com apenas um título mensal, para depois irmos expandindo, conforme as condições de mercado. Fizemos propostas idênticas e simultâneas para os detentores dos direitos autorais de Lazarus Ledd e também para alguns títulos Bonelli. A Editora Star Comics, da Itália, aceitou nossa proposta sem maiores problemas. A Strip Art Features (SAF Comics), com sede na Eslovênia, que negocia os direitos dos títulos Bonelli, impôs algumas condições. Apesar destas condições serem normais e aceitáveis, preferimos negociar primeiro com a Star, que aceitou nossa proposta sem alterações. Mas o fator determinante para a escolha foram as histórias, que eu já li até o número 22 e posso assegurar que apresentam uma qualidade crescente. 
  
- Como surgiu a idéia de o escritor de Lazarus fazer uma história exclusiva para o Brasil?
- Ade Capone, criador e roteirista de Lazarus Ledd, é grande amigo de Júlio Schneider, que faz a tradução das histórias para a edição brasileira. Em uma de suas conversas com o Júlio, Capone se mostrou bastante entusiasmado com a publicação do título fora da Itália e, para demonstrar seu apreço aos leitores brasileiros, prometeu que, se a série se firmar no Brasil, ainda este ano fará um roteiro exclusivo para ser desenhado por artistas brasileiros.

- Quais os planos de vocês daqui para frente? Há algum título que estejam de olho?
- Muitos. Apesar de não termos fechado inicialmente com algum personagem da Bonelli, as portas da SAF Comics ficaram abertas para uma futura negociação. Assim, para novos títulos chegarem pela Tutatis Editora, tudo vai depender do resultado das vendas de Lazarus Ledd.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h06
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LAZARUS LEDD - VERSÃO DO LEITOR

O Portal Tex BR existe desde agosto de 2000. É um site feita por fãs de quadrinhos italianos, voltado para fãs de quadrinhos italianos. O foco principal é nos personagens da editora Bonelli, responsável pela publicação de Zagor, Júlia Kendall, Mágico Vento, Ken Parker, Dylan Dog e, claro, Tex, que dá nome ao site. A maioria é publicada no Brasil pela Mythos. Alguns, como Nick Raider, Dylan Dog e Dampyr, já foram cancelados.

O fim de muitos títulos da Bonelli no Brasil foram as baixas vendas. Lazarus Ledd, que não é da Bonelli (é editado pela Star Comics), talvez não siga o mesmo caminho. O site organiza a estratégia de vendas do título por assinatura. O coordenador do Portal TexBR, o gerente de informática Gervásio Santana de Freitas, 35 anos, conta como é a participação do site nas vendas do título da editora Tutatis (veja também entrevista com o dono da editora, Edie Júnior, na postagem acima).

- Já é possível perceber algum resultado? Isso criou algum tipo de fidelização por parte do leitor?

Gervásio Santana - Tivemos um grande atraso na previsão do lançamento da edição #1 de Lazarus Ledd, devido a problemas alheios à vontade da Tutatis, isto naturalmente atrapalhou um pouco esta entrada em cena de Lazarus Ledd, talvez até gerando alguma frustração entre os mais afoitos, entretanto, o número um já saiu, já foi distribuída aos assinantes, já chegou na Comix e daí nas melhores lojas e gibiterias do Brasil, além de, naturalmente, na loja virtual do Portal TEXBR - www.texbr.com. A marca do Portal TEXBR associada à Tutatis e à Lazarus Ledd evidentemente que garantiu a confiança necessária para a pré-venda de assinaturas, que gerou antecipadamente recursos importantes para a gestão do título. O sistema de assinatura semestral de Lazarus Ledd continua, garantimos que os leitores que experimentarem a publicação em seu número um e dois (que já está saindo) que vão ser fisgados por Lazarus Ledd. A assinatura é de seis edições e o leitor paga o preço de capa da edição escolhida (normal a R$ 6,90 ou Ouro a R$ 12,90) multiplicado por seis edições, recebendo a publicação em casa sem pagar nada de frete e ganhando inteiramente grátis a edição zero, um número promocional que apresentou o personagem.
 
- "Lazarus Ledd" não é tão popular no Brasil. Há mercado para dois formatos, um de luxo e outro mais econômico?
- Mesmo sendo Lazarus Ledd um personagem pouco conhecido no Brasil, esta estratégia adotada pela Tutatis em ter dois formatos para a mesma edição, uma de luxo e outra econômica, foi meticulosamente pensada para atingir tanto o leitor que deseja apenas ter a opção de mais um título para simples leitura quanto o colecionador exigente que prima por um acabamento especial, papel especial, tratamento especial. Certamente que é um desafio manter os dois formatos para uma mesma publicação, entretanto, além do formato italiano, este é também um diferencial da Tutatis para atingir todos os tipos de leitores. Se há mercado ou não, isto caberá aos leitores dizer, pela resposta que darão adquirindo um e outro formatos.
 
- A estrátégia adotada em Lazarus Ledd poderia ser aplicada também a títulos da Bonelli publicados pela Mythos? Salvaria, por exemplo, Dylan Dog de um cancelamento?
- É praticamente impossível fazer uma análise segura neste momento inicial de Lazarus Ledd. Nós do Portal TEXBR, bem como os leitores amantes da nona arte e de fumetti em geral, acreditamos que esta ousada iniciativa da Tutatis possa vingar e lograr êxito, mas isto depende única e exclusivamente dos leitores de Lazarus Ledd. Já quanto a afirmar se este tipo de ação editorial e mercadológica salvaria um Dylan Dog, ou indo mais longe, um Martin Mystère, um Mister No, um Dampyr, um Nick Raider ou um Nathan Never de cancelamento, não temos elementos que permitam responder esta pergunta, porquanto os números de vendas que estes títulos atingiam ao ser cancelados são de conhecimento apenas dos detentores dos direitos quando do cancelamento, no caso Mythos Editora e Ediouro. Podemos dizer apenas, que se os leitores apoiarem a iniciativa de Lazarus Ledd, esta poderá ser a janela aberta para novos lançamentos com a chancela da Tutatis num futuro próximo.

Escrito por PAULO RAMOS às 13h05
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24/05/2006

HISTÓRIA DEL HUMOR GRÁFICO EM EL BRASIL - I

LAILSON DE HOLANDA CAVALCANTI

A "História del Humor Gráfico em el Brasil" foi publicado em outubro do ano passado pela Editorial Milenio e Universidade de Alcalá.  Por ser uma edição estrangeira, o acesso à obra é restrito (leia como comprar na postagem abaixo). Por ser uma edição estrangeira, chamou pouca atenção no Brasil, país onde vive e produz humor gráfico o autor, Lailson de Holanda Cavalcanti. Saíram pouquíssimas notas sobre o assunto. Trata-se de um equívoco. Também por ser uma edição estrangeira, a pesquisa adquire uma importância singular. O livro difunde para o exterior algo em que o Brasil é especialista (a produção de humor gráfico) e abre um campo -ainda pouco explorado- para estudos acadêmicos sobre o assunto.
 
A obra registra a história do humor gráfico brasileiro. O ponto de partida é 1831, data que o autor julga ter sido publicada a primeira charge nacional. Com o rigor científico que o estudo exige, admite que o assunto é polêmico. O autor se posiciona, mas não ignora as divergências.
 
Lailson já fez vários trabalhos no Brasil e é bastante respeitado como ilustrador e cartunista. Desde a segunda metade da década de 90, ganhou respeito também como pesquisador do humor brasileiro. Publicou há nove anos "Humor Diário", sobre as ilustrações do Diário de Pernambuco. O trabalho e o acesso aos salões internacionais o levaram a ser convidado para a produção da "História del humor grafico en el Brasil".
 
Nesta entrevista -por e-mail-, Lailson fala sobre o convite, as primeiras charges brasileiras e a importância acadêmica que a obra representa. 
 
- Um livro publicado na Espanha contando a história do humor gráfico brasileiro. Como foi isso?
Lailson - Desde 1998 que participo da Muestra Internacional de Humor Gráfico, uma exposição não competitiva, promovida dentro do Programa de Humor Gráfico da Fundación General da Universidad de Alcalá de Henares (situada na Comunidade de Madrid), a segunda universidade mais antiga da Espanha. O programa de humor gráfico promove um encontro anual e uma mostra temática, onde participam mais especificamente os da comunidade Ibero-Americana, que envolve países de língua portuguesa e espanhola. Entre os vários aspectos do programa, estão o estabelecimento de uma Cátedra de Humor Gráfico, a criação de um Museu do Humor Gráfico e o Prêmio Quevedos. Este último é bienal e já premiou nomes como Quino, Mingote, Chumy Chumez e El Roto. Por conta da criação da Cátedra de Humor Gráfico, foi estabelecido um convênio entre a Editorial Milenio (de Lleida, comunidade de Barcelona), com a Universidade de Alcalá para estabelecer um projeto editorial conjunto, objetivando criar a biblioteca básica desta Cátedra. Serão 16 volumes, cada um versando sobre um país da comunidade Ibero-Americana (alguns serão conjuntos, como Honduras e El Salvador) e realizados por pesquisadores de Humor Gráfico em cada um desses países. Já foram editados os livros sobre México, Portugal, Espanha, Venezuela e Brasil. Para o do Brasil, eu fui o autor convidado devido ao trabalho que já vinha desenvolvendo em relação às origens do Humor Gráfico em nosso país através dos salões e festivais que organizo desde 1983, do livro "Humor Diário" -sobre a ilustração humorística no Diário de Pernambuco entre 1914 e 1995 (publicado em 1997 e premiado como melhor livro teórico no HQMix daquele ano)- e palestras que realizo já há algum tempo.
 
- Imagino que seja difícil determinar um ponto de partida para começar a história do humor visual brasileiro. Qual momento, segundo sua pesquisa, pode ser visto como o marco inicial? 
- Defendo a opinião do historiador Alfredo de Carvalho, que considera a ilustração humorística na capa d´O Carcundão -jornal independente de três números, publicado entre abril e maio de 1831, no Recife- como sendo a primeira manifestação do Humor Gráfico feita no Brasil. Antes, já haviam sido publicadas na Europa algumas gravuras -inclusive de Honoré Daumier- que registravam fatos ligados ao Brasil, como a disputa entre os irmãos Pedro (D. Pedro I) e Miguel pela coroa portuguesa, mas não são obra de brasileiros nem editadas no Brasil. A ilustração do Carcundão, na verdade uma charge em dois tempos, faz uma sátira política ao Partido Restaurador e à Sociedade Colunas do Trono -que defendia a volta de D. Pedro I- e, apesar de ser de autor anônimo (tanto o desenho como o texto), é, sem dúvida alguma, um trabalho de humor político e não apenas uma ilustração avulsa, sendo, portanto, o primeiro trabalho de Humor Gráfico realizado e impresso no Brasil. No ano seguinte, é publicado O Cangaceiro, jornal satírico escrito pelo Padre Lopes Gama, também em Recife, onde se pode supor que o autor do Carcundão era o referido padre, segundo minha opinião e de outros historiadores pernambucanos, como Leonardo Dantas Silva. A partir do número sete, o Carapuceiro traz em seu frontispício um desenho humorístico satirizando a classe dominante pernambucana. O trabalho de Humor Gráfico que tem sido apresentado como sendo o primeiro do Brasil tem sido o de uma litografia atribuída a Manuel de Araújo Porto Alegre, publicada em folha avulsa no Rio de Janeiro em 1837.
 
- Em comparação com outros países, há diferenças com relação ao humor brasileiro? Há algo que o torne diferente ou peculiar?
- A descrença no sistema e no governo é uma constante no humor político brasileiro. Há uma exaltação do anit-herói e uma indignação permanente contra a corrupção e a inoperância do sistema. É um humor extremamente partidarizado e, regra geral, de oposição. Em alguns momentos, ele se alinha com o sistema dominante, porém por pouco tempo, pois a capacidade de percepção do autor brasileiro é aguda e não se deixa levar pela propaganda por muito tempo. No entanto, como é um humor partidarizado, tende a relevar os erros dos partidos ao qual o cartunista está alinhado e exagerar os erros dos partidos que considera adversário.
 
- Houve alguma conclusão de seu trabalho?
- O livro demonstra que existe um vasto campo para a pesquisa séria sobre a iconografia e a transversalidade do Humor Gráfico como elemento de compreensão do processo sócio-político brasileiro. Praticamente cada um dos capítulos que estruturei no livro (veja na postagem abaixo) seriam capazes de fornecer material para um livro individual, pois ocorreram em contextos sócio-políticos extremamente diversos, considerando os diferentes regimes políticos que o Brasil atravessou.

Escrito por PAULO RAMOS às 18h49
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HQMANÍACOS - PARTE I

Eles não vivem de quadrinhos. Vivem para os quadrinhos. Chamam a si próprios de hqmaníacos, nome dado ao site que mantém na internet(www.hqmaniacs.com.br). É também o nome da editora, que lançaram este ano. De fanáticos por quadrinhos, tornaram-se empresários da área. De onde vieram os recursos? Fizeram uma "vaquinha" e adquiriram os direitos de publicação. Simples assim.

Os cinco proprietários (Artur Tavares, Carlos Costa, Fábio Ribeiro, Leonardo Vicente e Rogério De Simone) sabem que o retorno do investimento é a longo prazo. Mesmo assim, não parecem desanimar. Já lançaram "Invencível" (de Robert Kirkman e Cory Walker), já pensam num segundo volume, pretendem publicar "Estranhos no Paraíso" (premiada criação de Terry Moore) e colocam hoje à venda "Os Mortos-Vivos", escrita pelo mesmo Kirkman e desenhada por Tony Moore (veja a capa e uma prévia do material na postagem do dia 22.05). Essa última obra é vendida nas lojas especializadas ou pelo e-mail osmortosvivos@hqmaniacs.com O e-mail foi uma forma de contornar os problemas de distribuição. Bancas não se interessam por tiragens pequenas, contam.

O Blog dos Quadrinhos conversou com dois hqmaníacos -Artur Tavares e Leonardo Vicente- há dois sábados. Nesta primeira parte da entrevista (leia o restante na postagem a seguir), eles falam sobre o surgimento da editora.

- Como é deixar de ler quadrinhos e virar editor de quadrinhos?

Artur - Era uma coisa que a gente queria fazer há mais de um ano. Talvez tenha sido o caminho natural. Ia chegar uma hora em que a gente publicaria quadrinhos. Não foi uma opção mercadológica. Foi por curtição. É diferente você trabalhar com jornalismo de quadrinhos e com uma editora de quadrinhos.

- No que é diferente?

Leonardo - Na verdade, é uma coisa que foi mudando com o tempo. Quando começa é aquela empolgação de fazer, é bom. Depois, quanto mais tempo passa, a gente percebe que tem de se aprimorar, ficar um pouco mais profissional. A gente começa a ver de um outro jeito as coisas. Curte do mesmo jeito. Mas começa a ver de um hjeito profissional.

- Quando surgiu a idéia da editora?

Leonardo - Faz mais ou menos uns dois anos que a gente está pensando nisso. No começo, era só uma idéia, que a gente mesmo não levava a sério. Um dia vamos fazer? Vamos...

Artur - Acho que a primeira vez que eu ouvi sobre isso foi em fevereiro do ano passado...

Leonardo - No começo do ano passado foi quando a gente parou pra valer para fazer...

Artur - Foi quando eu falei: lança o "The Walking Dead" (nome original de "Os Mortos-Vivos")

- O que deu certo e o que deu errado no primeiro lançamento ("Invencível")?

Leonardo - Ainda é um pouco cedo para analisar. Por enquanto, a gente vê que está dando tudo certo. Algum escorregão em adaptação, coisa que a maioria das pessoas nem percebeu, mas que estamos aprimorando.

- O primeiro lançamento já se pagou?

Leonardo - Ainda não, mas está se pagando.

Artur - Está se pagando.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h41
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HQMANÍACOS II

Daria um filme a forma como os cinco hqmaníacos se conheceram. Começou como amizade virtual. O ponto de encontro eram salas de bate-papo sobre quadrinhos. Surgiram aí os apelidos que levam até hoje: Artur é Billy Batson (alter-ego do Capitão Marvel); Carlos Costa, o criador do site "hqmaniacs", é Spider (referência ao nome original do Homem-Aranha, Spider-Man); Fábio Ribeiro é Inumano (menção aos Inumanos, personagens da Marvel Comics); Leonardo Vicente é Buddy Baker (nome do Homem-Animal, da editora americana DC Comics). Rogério De Simone é o único que teve a identidade secreta revelada. Assume que é Rogério (um dia já foi Titã nas listas), forma como assina atualmente.

Um dia, resolveram revelar as identidades secretas um ao outro. Foi num encontro real. O primeiro de muitos e o início de uma amizade que já dura cinco anos e que é percebida -ou lida- no site que mantêm. As atualizações são feitas no pouco tempo livre que sobra. Geralmente, durante a madrugada. Deixam claro: "o site não sustenta a gente". Pelo contrário. "A gente acaba gastando mais ainda", brincam, com uma grande dose de verdade.

O sustento para si e para as leituras vem de outros empregos. Dois trabalham em fórum Fábio e Carlos), um é publicitário (Leonardo), outro lida com a área financeira (Rogério) e o último a aderir ao quinteto estuda jornalismo (Artur). De quando em quando, abandonam a profissão para assumir os codinomes diante dos fãs do site, em encontros reais, com chamadas virtuais.

Nesta segunda parte da entrevista (leia o primeiro trecho na postagem anterior), dois dos hqmaníacos, Artur Tavares e Leonardo Vicente (ou Billy Batson e Buddy Baker) comentam o que esperam do lançamento do segundo título da editora que criaram, "Os Mortos-Vivos", vencedor de um dos prêmios dos British Eagle Awards deste ano. Falam também da forma "original" como arrecadaram a verba para a edição.

- Qual a expectativa para "Os Mortos-Vivos"? E que a resposta não seja "a melhor possível"...

(Risos)

Artur - A gente espera que faça mais sucesso que "Invencível".

Leonardo - O título pega um nicho de mercado que estava um pouco morto por aqui, que é o de quadrinhos de terror. Na década de 70, 80, havia muita editora produzindo material nacional. E era muito popular. O problema maior de terem acabado os quadrinhos de terror foi econômico, não falta de interesse. As editoras nacionais não tinham como manter a produção. É um vácuo nos quadrinhos.

- Vocês fizeram uma "vaquinha" e compraram os direitos?

Artur - Foi.

Leonardo - Foi isso mesmo.

Artur - Eu fui o último a entrar... mas foi isso mesmo (risos).

Escrito por PAULO RAMOS às 06h21
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10/05/2006

MARCO AURÉLIO LUCCHETTI

O primeiro encontro de Valentina com Marco Aurélio Lucchetti foi no dia 23 de novembro de 1971, uma terça-feira. Ele, ainda criança, esperava a chegada do pai, o escritor R. F. Lucchetti. O pai entrou em casa acompanhado. Trazia nas mãos a revista Grilo. Na capa, um rosto feminino, de cabelos escuros e curtos. O título "Valentina chegou". Lucchetti -o filho- foi fisgado na mesma hora.
Valentina virou um fascínio. Lucchetti passou a comprar tudo o que saiu no Brasil sobre a personagem. Era pouco. Comprou também originais, em italiano. O interesse pela personagem rendeu um doutorado na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, defendido em 1999. A tese foi compilada no livro Desnudando Valentina - Realidade e Fantasia no Universo de Guido Crepax, lançado no ano passado (Opera Graphica, R$ 84).
A tese é o trabalho de uma vida. O professor universitário é um dos maiores especialistas na personagem.
 
- Os leitores de Valentina são mais antigos. Há público para a personagem?
- Sim. O leitor natural é o que acompanha a personagem desde os anos 70. Vai haver um novo público atraído pelo "erotismo", termo que prefiro entre aspas. Mas não vai captar todo o referencial da personagem.
 
- Qual foi o objetivo de Crepax com a personagem?
- Contar o dia-a-dia dela. Na verdade, Valentina é um grande romance em quadrinhos. Só se percebe isso quando a história é lida em seqüência. A maioria pensa que ele fez uma história erótica. Isso ficou em segundo plano. O mais importante são as referências culturais. A cada vez que é lida, percebe-se algo novo.
 
- É uma criação que prioriza a estética ou a história?
- O primeiro impacto do leitor é pela estética. Valentina não tem aquela paginação normal dos quadrinhos. Foge totalmente à diagramação tradicional. Esse é o primeiro nível de leitura. Depois, vem a história. É um fiozinho. Não possui muita aventura ou drama (quem lê só super-heróis vai detestar). A intenção de Crepax foi contar o dia-a-dia de uma mulher normal, com profissão própria [é fotógrafa] e filho.
 
- E é válido deixar a história num segundo plano?
- É válido. Acontece em todos os campos da arte: no cinema, na música e em outros. O que mais importante á a forma. A gente nunca lembra uma história completa. Lembramos partes dela. A intenção de Crepax é essa. Fixar as partes, não a coerência da narrativa. Ele não era um bom contador de histórias. É o inverso de Hugo Pratt [criador de Corto Maltese]. O forte [de Crepax] eram os referenciais e a diagramação.
 
- O que tornou Valentina um personagem tão forte e duradouro?
- Ela é a personagem que melhor representa a mulher liberal, independente, que é várias coisas ao mesmo tempo. É intelectual, mãe, fotógrafa, independente, amante e comunista (embora, com o temo, ela mude o referencial político).

Escrito por PAULO RAMOS às 07h45
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05/05/2006

ALEXANDRE BARBOSA

Ilustrador e professor universitário, é dele a pesquisa mais recente sobre quadrinhos defendida na USP (Universidade de São Paulo). Em abril, obteve o título de mestre na Escola de Comunicações e Artes. A dissertação era sobre quadrinhos produzidos na década de 50, que abordavam temas históricos. Alexandre Barbosa -ou somente Bar- analisou o tipo de narrativa empregado pela EBAL (Editora Brasil-América, que já não existe mais). 

- Qual foi a principal conclusão?
A conclusão é que os artistas tinham uma narrativa engessada. A criação teve um direcionamento ideológico, o que diminuía a criatividade dos artistas e afetava não só o texto mas também a estética dos quadrinhos, distanciando a linguagem empregada naquilo que hoje conhecemos como uma narrativa de história em quadrinhos, em que texto e imagem se mesclam.  
 
- Costuma-se dizer que há uma resistência no meio científico sobre os quadrinhos? É verdade ou é lenda? Você sentiu isso?
Sim, existe uma certa resitência quando eu digo que minha dissertação é sobre quadrinhos. Mas, quando começo a descrever o trabalho e a explicar a importância de desvendar esse tipo de narrativa, as barreiras diminuem. Esse posicionamento em relação às histórias em quadrinhos está diminuindo, graças a livros e artigos acadêmicos. 
 
- Há uma pesquisa que mostra um sensível aumento no número de dissertações e teses sobre quadrinhos na USP (ver notícia aqui no Blog). A que você credita isso?
Não posso falar com exatidão. Mas, no meu entender, é resultado de um processo em que as pessoas descobriram nos quadrinhos uma literatura diferente e mais condizente com a influência que a imagem tem na vida de todos. Talvez os pesquisadores tenham percebido certas transições na comunicação, em que histórias em quadrinhos e sua literatura sejam capazes de gerar respostas e caminhos.

 

Escrito por PAULO RAMOS às 11h04
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04/05/2006

WALDOMIRO VERGUEIRO

"A luta pela legitimação acadêmica e científica das histórias em quadrinhos é uma batalha ainda inconclusa."

Ele é professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Núcleo de Pesquisa de Histórias em Quadrinhos da USP. Organizou os livros "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" e "O Tico-Tico: 100 Anos da Primeira Revista Infantil Brasileira". É um dos maiores especialistas em quadrinhos no país.

O Blog dos Quadrinhos ouviu Waldomiro Vergueiro sobre o aumento no número de produções acadêmicas sobre quadrinhos na USP.

- Por que houve esse aumento no número de pesquisas sobre quadrinhos?
- Não temos uma única razão para isso. Acredito que podemos vislumbrar várias possibilidades nesse sentido: por um lado, a diminuição dos preconceitos contra as histórias em quadrinhos fez com que fossem mais bem aceitas como objeto de estudo na Universidade, enquanto, ao mesmo tempo, mais alunos se sentiram motivados a propor temáticas relacionadas com os quadrinhos. par disso, não posso descartar o efeito do trabalho de várias décadas de alguns pesquisadores da Universidade no estudo de quadrinhos - entre os quais eu me incluo -, que tem seus frutos agora brotando e recebendo maior visibilidade científica.

- Quais os temas mais estudados?
- Parte significativa dos trabalhos de pesquisa realizados na USP enquadra-se na categoria que denominamos "estudos de conteúdo", ou seja, trabalhos que visam identificar e discutir os possíveis significados presentes nas histórias em quadrinhos, analisando personagens (Horácio e Turma da Mônica), autores (Laerte), gêneros ou formatos específicos (humor, shojo mangá, quadrinhos eróticos e quadrinhos Disney).

- Vocês têm notícia se essa é uma tendência da USP ou de outras universidades do país?
- Esta será uma pesquisa a ser desenvolvida no futuro, mas temos indícios que apontam um crescimento da pesquisa em quadrinhos no país como um todo.

- No exterior, ocorre o mesmo comportamento?
- O número de pesquisas acadêmicas sobre quadrinhos também vem crescendo no exterior. A constituição de cadeiras específicas sobre o tema, em várias universidades norte-americanas, se torna cada vez mais freqüente de alguns anos para cá. A chamada "comics scholarship" já é uma realidade indiscutível nos meios acadêmicos, tendo publicações especializadas (como a International Journal of Comic Art) e listas de discussão acadêmicas (como a Comix Scholars List) bastante atuantes.

- Sempre houve uma espécie de preconceito acadêmico sobre os quadrinhos. Esse preconceito diminuiu?
- Não tenho dúvidas de que esse preconceito diminuiu substancialmente. No entanto, ele absolutamente não chegou a desaparecer, aparecendo praticamente a todo momento. A luta pela legitimação acadêmica e científica das histórias em quadrinhos é uma batalha ainda inconclusa.

Escrito por PAULO RAMOS às 10h08
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