27/04/2006

CASTELO & RAFAEL SICA

 
O lançamento do álbum "Seis Mãos Bobas", divulgado ontem aqui no blog, levantou uma dúvida. A capa mostra três cachorros colados -ou presos- pelo traseiro. A tira Nestor & Laika, lançada semana passada na internet (clique), também traz cachorros na mesma situação. Com a palavra, os criadores de Nestor & Laika, Rafael Sica e Castelo.
 
- Como vocês viram a coincidência do álbum "Seis Mãos Bobas" ter um desenho parecido com o de vocês?

Sica - Há algum tempo já vinha trocando uns mails com o Castelo. Admiro muito os escritos dele e ele sinpatiza com os meus desenhos. Acho que a semelhança fica só no fato de serem cães colados, mas não passa disso. Vi mesmo como uma grande coincidência. Também porque tô desenhando já há um tempão e achei um pouco chato chamar a atenção pro meu trabalho logo com isso que é um projeto paralelo. Tenho um trabalho autoral que venho desenvolvendo no meu blog e espero que isso não atrapalhe. 
Castelo - Apesar de ser um agnóstico dialético, dou espaço para a superstição, senão a vida  fica muito chata. Por causa disso acho que faz muito sentido aquele lance do Registro Acásico - a memória cósmica. As idéias humanas vão todas pra esse lugar no Universo. Aí o artista, que é a antena da raça, capta o que vem do Registro. Muitas vezes eles podem captar a mesma idéia, na mesma hora. Aí acontece isso do "Nestor & Laika" e da capa do livro "Seis Mãos Bobas". Bom estar na mesma sintonia do Angeli, do Glauco e do Laerte.

- De onde surgiu a idéia de criar "Nestor & Laika"?

Sica - Mais ou menos no começo deste mês, o Castelo veio com essa idéia de fazer piadas de relacionamento com dois cães de rua colados. Gostei da idéia e das piadas que ele escreveu e desenhei uns protótipos. Mas a idéia veio dele. Ele pode responder melhor.
Castelo - Quando eu era moleque devorava Pato Donald, tinha o Manual do Tio Patinhas e o do Mickey. Mais velho, passei a curtir histórias elaboradas, como a do "Spirit", de Will Eisner. Na faculdade de jornalismo passei a ler sem as figurinhas correspondentes e entrei de cabeça nos romances "cabeça". A paixão meio infantil, meio adolescente pelos quadrinhos, no entanto, subsistiu. Num jornal que editei ainda no meio acadêmico (chamado "O Matraca") criei uma tirinha de um papagaio meio italianado do Brás, chamada Oberdan - em homenagem a um jogador do antigo Palestra Itália. Foi o primeiro contato, ainda nos anos 80, com a criação de texto pra quadrinho. Com a minha entrada no mundo dos blogs, passei a conhecer pessoas que desenhavam. Um deles foi o Rafael Sica. Uma amiga me enviou o "link" de uma de suas histórias. Achei o material de grande personalidade. Uma mistura de niilismo e agressividade que me agradam muito no humor. Pois não é que passaram-se uns dias e o Sica me manda um e-mail dizendo-se admirador dos meus textos? E mais: pedia que eu escrevesse um roteiro que ele queria quadrinizar.  Enviei a história no ato e, no meio do papo, sugeri os cãezinhos (estavam na minha cabeça fazia tempo já, eu só não sabia como materializar a idéia). Sica foi gentilíssimo, topou fazer na hora, agregou detalhes importantes. Dei o nome da Laika e ele sugeriu o do Nestor.

Escrito por PAULO RAMOS às 08h58
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26/04/2006

ROBERTO ELÍSIO DOS SANTOS

Ele é professor universitário do IMES e pós-doutorado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. A pesquisa que fez na USP foi sobre os quadrinhos da Circo Editorial, que publicou nos anos 80 os trabalhos de Angeli, Laerte e Glauco, relançados agora pela Devir/Jacaranda. É um especialista no assunto.


- Qual o papel das criações de Angeli, Laerte e Glauco (entre outros) na Circo Editorial na história do quadrinho nacional?

O trio acima (sem esquecer Luiz Gê e outros artistas importantes da época) forma a trindade da Circo Editorial, responsáveis por títulos como Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Striptiras e Geraldão. Eles eram capitaneados pelo editor Toninho Mendes, responsável por essas publicações. Esses artistas conseguiram traduzir o que foi a história do país (e, por tabela, do mundo) nas décadas de 1980 e 1990.


- Era uma época pós-ditadura (segunda metade dos anos 80). É por isso que há uma fixação por temas censurados até então, como sexo?

Os quadrinhos do trio tiveram seu auge na Circo Editorial durante o processo de redemocratização do país (o primeiro lançamento da editora foi no dia da votação, e derrota, da emenda da eleição direta para presidente). Naquele momento histórico, o foco do humor havia mudado da crítica política para a sátira comportamental, especialmente da classe média e das elites do mundo urbano. Não se pode esquecer que o tema sexo já estava presente nos trabalhos de Henfil e Ziraldo dos anos 1970, mas o enfoque era mais político.


- Não há hoje, quase vinte anos depois, uma produção semelhante a que o trio fez lá nos anos 80. Foi algo marcado por uma época específica e difícil de ser repetida?

Hoje, além do trio, há outros artistas que procuram refletir em seus quadrinhos, cartuns e charges o atual momento. Gosto muito dos trabalhos do Caco Galhardo e do Alan Sieber.


- Qual o legado que o trio deixou?

A produção de Angeli-Laerte-Glauco das décadas de 1980 e 1990 ajuda a entender o mundo naquela época (as conquistas e frustrações das mulheres, evidenciadas por Rê Bordosa e Dona Marta, as modas, o medo da guerra nuclear, as mudanças na família, nas atitudes, no relacionamento amoroso, na política...). Personagens como o engajado Meiaoito e os velhos hippies Wood e Stock mostram como idéias que marcaram a juventude há pouco tempo ficaram deslocadas, antiquadas, obsoletas, diante de uma nova realidade.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h36
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