27/11/2007

Zarabatana: a trajetória da caçula das editoras de quadrinhos

Faz um ano que “O Prolongado Sonho do Sr. T”, do espanhol Max, começou a ser vendido. 

 

O álbum marcava a entrada da Zarabatana no mercado brasileiro de quadrinhos.

 

O sonho que dá nome à obra sintetizava um outro sonho, o de criar uma editora de quadrinhos.

 

O dono e editor da Zarabatana, Cláudio Martini, conta que o desejo publicar quadrinhos é antigo. O nome da editora,  diz, tinha sido definido em 1993.

 

Ele gostou da sonoridade da palavra "Zarabatana" e do fato de o termo iniciar e terminar com os extremos do alfabeto.

 

Nesse primeiro ano, a editora formou um catálogo com sete títulos, até então pouco conhecidos no país.

 

Entre as obras, estão dois dos melhores lançamentos do ano, "Mulheres" e "Pyongyang - Uma Viagem à Coréia do Norte" (leia mais aqui e aqui).

 

Um oitavo título, "Escombros - Crumble: O Status de Knucle", está programado para dezembro (capa abaixo).

 

 

As obras são produzidas em Campinas, no interior paulista, cidade onde Martini mora. Nasceu no município vizinho, Valinhos, há 52 anos.

 

A dedicação à editora não é exclusiva. Publicitário por formação, trabalha em paralelo com projetos editoriais, principalmente para revistas.

 

Ele também assina uma coluna sobre quadrinhos no portal Terra (acesse aqui).

 

Na coluna virtual, ele dá dicas do quanto entende e se interessa por publicações estrangeiras alternativas, características que se tornaram a alma da Zarabatana.

 

A festa de um ano da editora é nesta terça-feira à noite, na  “HQMix Livraria”, no centro de São Paulo (leia mais aqui).

 

Mas, antes de viajar para a capital paulista, Martini conversou com o blog, por e-mail.

 

O bate-papo virtual teve ares de balanço.

 

Qual o saldo que a caçula das editoras de títulos adultos de quadrinhos faz do atual mercado?

 

Há mercado para tantos quadrinhos, de novas e de antigas editoras?

 

As respostas ajudam a entender um pouco melhor a situação atual dos quadrinhos no Brasil do privilegiado ponto de vista do editor.

 

 

                                                        ***

 

Blog - Qual o saldo que você tira desse primeiro ano da editora?

Cláudio Martini - A recepção que os livros tiveram na mídia especializada (e na não especializada também, que começa a dar mais espaço para os quadrinhos) foi muito boa. Como estamos editando histórias em quadrinhos de autor, que eu classificaria como alternativos, o leitor de quadrinhos e mesmo o que não costuma ler habitualmente quadrinhos – que também esperamos atingir – ainda precisa descobrir estas obras. E tenho certeza de que vai gostar muito.

 

Blog - Financeiramente, a editora já tem lucro com o material que lança?

Martini - Estamos na fase de investimento e formação de um catálogo de títulos consistente, o que creio que vai levar pelo menos mais um ano.

 

Blog - A Zarabatana é nova no mercado. Houve uma espécie de "bloqueio" das demais editoras de quadrinhos para os seus lançamentos?

Martini - Não tive conhecimento de nada nesse sentido.

 

Blog - Houve obras da Zarabatana que chegaram a ser expostas com destaque em pelo menos uma grande livraria de São Paulo. Como tem sido a inserção dos títulos nesse mercado?

Martini - A Livraria Cultura da [Avenida] Paulista expôs durante vários meses nossos primeiros lançamentos em suas vitrines. Nossos títulos estão presentes na maioria das lojas virtuais, mas ainda estamos batalhando para construir uma distribuição mais eficiente para as livrarias.

 

Blog - Você acredita que começa a existir uma overdose de lançamentos e de editoras com olhos apenas nas livrarias? Ou há mercado para todas?

Martini - Creio que havia uma lacuna de décadas que está sendo finalmente preenchida. Só que as livrarias não estavam preparadas para isso e nem tinham espaço em suas prateleiras para essa quantidade de lançamentos que estamos presenciando. Se há mercado para todas, creio que é cedo para responder.

 

Blog - Aproveitando o gancho sobre mercado: qual a leitura que você faz do atual momento editorial brasileiro?

Martini - O Brasil ficou muitos anos sem ter acesso a grande parte do que vinha sendo criado de melhor em histórias em quadrinhos no mundo. Agora estamos pondo isso em dia, e também tendo um grande número de lançamentos de ótima qualidade de artistas brasileiros. Espero que não seja apenas um “momento”, mas algo que veio para ficar.

 

Blog - Para onde você acredita que esse mercado vá migrar em 2008?

Martini - O cenário de dois anos atrás era muito diferente do que temos hoje, e creio que ninguém imaginaria como estaria o mercado hoje. Portanto, temos que esperar para ver.

 

Blog - O que você tem programado para o ano que vem? Algo nacional?

Martini - Por enquanto, temos como certo o livro de tirinhas Underworld, do norte-americano Kaz; Clara de Noche (Clara da Noite), de Bernet, Trillo e Maicas; outros volumes da coleção de mangá de terror de Hideshi Hino. Obras nacionais, talvez a médio prazo.

 

Blog - Voltando às origens, como surgiu a idéia de criar a editora?

Martini - Minha vida sempre foi ligada aos quadrinhos, e era um sonho de muitos anos ter uma editora de histórias em quadrinhos (o nome Zarabatana, eu já tinha desde 1993). Havia muitas obras que eu lia e achava que deveriam ser publicadas no Brasil, hoje estou realizando este sonho, juntando minha experiência como designer gráfico com minha paixão pelas histórias em quadrinhos.

 

Blog - E como você faz para selecionar o material?

Martini - Para estes primeiros títulos lançados me baseei na qualidade do trabalho (desenhos e roteiro), em meu gosto pessoal, ineditismo no mercado brasileiro e disponibilidade dos mesmos para negociação de direitos de publicação.

Escrito por PAULO RAMOS às 16h27
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07/11/2007

Nanquim Descartável revela lado mais pessoal de Daniel Esteves

Nos lançamentos semanais de quadrinhos deste ano do "Jeremias o Bar", no centro de São Paulo, Daniel Esteves batia cartão sempre.
 
Nesta quinta-feira, é dele o destaque. O escritor de 25 anos lança em São Paulo, cidade onde nasceu, a revista "Nanquim Descartável", projeto pessoal dele, custeado com dinheiro próprio.
 
A publicação -associada ao selo independente Quarto Mundo- é o primeiro trabalho de destaque dele desde que venceu o Troféu HQMix deste ano na categoria roteirista revelação.
 
O prêmio foi por uma história publicada na "Front" (álbum que reúne trabalhos de diferentes quadrinistas).
 
O texto de Esteves ganha diferentes interpretações nas 26 páginas da história.
 
Muito disso se dá por ser desenhada por diferentes artistas: Wanderson de Souza, Júlio Brilha, Alex Rodrigues, Wagner de Souza, Mário Mancuso e Bira Dantas.
 
 
A história tem como protagonistas duas universitárias da USP (Universidade de São Paulo), Ju e Sandra. As duas têm na amizade e na paixão pelos quadrinhos o ponto que as une.
 
Sandra, por exemplo, é fanática por mangás. O lado introspectivo dela na trama é representado visualmente no estilo de desenho dos quadrinhos japoneses, recurso de metalinguagem que obra apresenta.
 
Esteves já pensa num segundo número. Pretende lançar outra edição até o fim do ano.
 
"A proposta da revista é ser uma série com personagens fixas", diz Esteves, também ele um "uspiano" (cursou História na USP).
 
"A idéia é criar uma série com uma dinâmica mais de seriado de TV, em que as edições podem ser lidas de forma independente sem criar uma cronologia que exija do leitor o conhecimento das edições passadas."
 
Mas, segundo ele, quem ler em seqüência, terá uma visão mais abrangente da personalidade das protagonistas.
 
 
Ju, estudante de jornalismo e escritora, é mais extrovertida. A amiga, desenhista e fã de mangás, é o oposto: introspectiva e com complexo de gordura.
 
Há na história um espírito de "Estranhos no Paraíso", série criada pelo norte-americano Terry Moore e publicada atualmente no Brasil pela editora HQM.
 
Esteves admite a inspiração de Moore, mas diz que bebe de outras fontes.
 
É neste ponto que começa a entrevista do Blog feita com ele, por e-mail.
 
                                                               ***                                                                 
 
Blog - Há muita semelhança com "Estranhos no Paraíso": duas protagonistas, amigas, moram juntas, cabelos parecidos com as personagens de Terry Moore. Há até uma menção rápida à série norte-americana na história. Você é fã da série? 

Daniel Esteves - Sou fã, sim, da série, mas eu não colocaria essa “semelhança” como algo tão claro. Tem influência, assim como tem influencia de outras coisas. O fator “duas protagonistas, amigas que moram juntas” é pura coincidência. Mas tenho outras influências pra esse tipo de material, como por exemplo, os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, "Love and Rockets" [dos irmãos Hernandes], Harvey Pekar e outras histórias alternativas ou independentes (tem um lançamento recente da Devir que vai nessa linha que eu achei muito bom: "11 Razões para Amá-la"). Essa questão de trabalhar com personagens reais e histórias cotidianas é bem presente nos quadrinhos no caso de tramas curtas sem continuação. Porém, em séries essa forma não é tão presente, o que me entristece e me impulsiona a criar algo assim. Acho que uma semelhança muito grande com Estranhos no Paraíso é o lado da amizade. Assim como a série do Terry Moore, a minha também tem como tema principal esse assunto. Mas daí isso não pode ser considerado uma semelhança no que concerne à trama, pois é o tema da história, e eu poderia tratar desse tema em outros tipos de tramas: policiais, espaciais, de terror, heróis etc.

 

 

Blog - Há um recurso de linguagem bem legal na história que é a inserção do estilo dos mangás ao se referir a uma das personagens. Como surgiu a idéia?

Esteves - Essa idéia foi “roubada” de desenhos animados e quadrinhos japoneses ou com influência de mangás. Acho um recurso interessante, mas não combina necessariamente com os desenhos de todos os artistas. No caso do Wanderson, Wagner e Alex, ficou muito bacana. Já com o Mancuso pediu uma ajuda, pois não achou que ficaria bom com o traço dele e a cena onde aparece essa distorção foi feita pelo Wanderson. Com o Julio, ele optou por deixar normais as cenas originalmente indicadas no roteiro com essa distorção e no final achei até melhor, pois destoaria muito do estilo dele.

 

Blog - Uma das protagonistas menciona na história que as melhores idéias surgem dirigindo ou no banheiro, durante o banho. Foi o seu caso com esta série?

Esteves - A série em si, não. Mas um grande trecho original da segunda história nasceu num banho. E exatamente por eu ter colocado um bloco de papel no box pra não perder idéias é que acabei jogando essa fala na história. Como digo posteriormente, a personagem Ju é baseada em mim, então eu realmente me sinto inspirado andando de carro ou tomando banho.

 

 

Blog - Os personagens são baseados em mais alguém real?

Esteves - Todos os meus personagens têm sempre algo de pessoas que eu conheço ou de mim mesmo. Porém, nessa série tenho aí uma personagem me representando de fato. Como no começo a idéia era uma dupla de quadrinistas, obviamente, querendo ou não, a roteirista começou a carregar características minhas. Mais pra frente, percebi que ela me representava na história em quadrinhos. Ela é roteirista, tem meus gostos de leitura, musicais e meu jeito. Lógico que ela tem diferenças, pois é uma personagem, mas, conforme vou escrevendo, mais e mais coisas vão se aproximando... até mesmo um pequeno detalhe que me diferencia bastante dele, quando se aproximou da minha vida pessoal me fez colocar novos elementos na personagem. A Sandra é mais um contraponto. Tem características de um ou outro amigo, assim como minhas, mas não é alguém específico. As características delas vieram mais para criar uma interação interessante com a outra personagem. Já o Tuba [redução de "Tubarão", jovem com fama de conquistador que cruza o caminho das personagens] é parcialmente inspirado num amigo meu. Tanto visual quanto algumas características psicológicas. Não posso dizer que é tudo, pois ele não faz quadrinhos e várias outras coisas que aparecem não são da personalidade desse amigo. O mendigo Malaca, que aparece na história, no visual é uma homenagem ao cartunista Bira [Dantas]. Na verdade, o mendigo que mora perto da casa delas tinha esse lado de ter feito quadrinhos, daí eu quis homenagear alguém e o fiz com o Bira (meio estranho dizer que um mendigo é homenagem a alguém, mas é!).

 

Serviço: o lançamento de "Nanquim Descartável" é nesta quinta-feira, às 19h30, na HQMix Livraria (Praça Roosevelt, 142, centro de São Paulo).

Escrito por PAULO RAMOS às 20h00
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05/11/2007

Pesquisa da Federal do Paraná analisa literatura em quadrinhos

O estrondo do ressurgimento das adaptações literárias em quadrinhos dá os primeiros ecos na universidade. Uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná é um dos primeiros estudos do país a dar respostas científicas para o tema.
 
O mestrado, de autoria de Lielson Zeni, foi defendido na semana passada.
 
A pesquisa comparou o clássico "A Metamorfose", do tcheco Franz Kafka (1883-1924), com a adaptação em quadrinhos homônima feita pelo norte-americano Peter Kuper (lançada no Brasil pela Conrad).
 
A escolha do livro, trabalho mais lembrado de Kafka, surgiu da necessidade de abordar uma obra que aliasse quadrinhos e literatura de modo "inegável", nas palavras de Zeni.
 
 
Zeni tentou estudar o trabalho de Lourenço Mutarelli, passou para outro tema ("que recebeu o conselho de troque") até chegar à história de Gregor Samsa, homem que acordava metamorfoseado num inseto gigante (enredo da obra de Kafka, mostrado acima na versão em quadrinhos).
 
"Escolhi uma [obra] com que eu tivesse alguma afinidade e interesse no autor", diz ele, que mora há sete anos em Curitiba. "Além do mais, poucas coisas são mais canônicas que Kafka."

Zeni é publicitário, mas mantém um braço na área de letras e literatura, onde fez a pós-graduação. Nascido há 27 anos na cidade paranaense de Francisco Beltrão, defende que não há adaptação sem transformação.
 
É uma das conclusões do mestrado "A Metamorfose da Linguagem: Análise de Kafka em Quadrinhos", nome dado à pesquisa, que ficou com pouco mais de 150 páginas.
 
Nesta entrevista, feita por e-mail, Zeni detalha um pouco mais o estudo e fala como vê o ressurgimento do gênero literatura em quadrinhos no Brasil.
 
                                                              ***

Blog - O que você procurou mostrar em seu estudo?
Lielson Zeni - Que a linguagem necessita de transformação quando é passada para um outro meio. O mito da fidelidade absoluta é um paradoxo: se mantivermos tudo que existe em um livro na adaptação cinematográfica, perderemos a eficiência do meio texto escrito e não teremos as habilidades do cinema. Algumas coisas necessitam ser transformadas para termos uma pretensa fidelidade da recepção. Se é que há o interesse por essa fidelidade.
 
Blog - Você chegou a algum tipo de conclusão?
Zeni - Uma das conclusões é que a análise de uma adaptação ajuda muito a entender a obra original. É um excelente instrumento pedagógico. Outra conclusão que tirei é que toda adaptação recupera em grande parte a história, a sinopse dos eventos de seu original e que ela tem a intenção de se parecer com o original, de lembrar o original, de criar uma ponte de contato com ele. E, talvez a mais importante, que uma adaptação é uma leitura da obra original e não a leitura definitiva.
 
 
Blog - No caso de "A Metamorfose", quais as diferenças entre a versão letrada e a feita em quadrinhos?
Zeni
- Bem, tem um problema interessantíssimo de saída: Franz Kafka não queria que nenhuma imagem da criatura na qual Gregor Samsa se transformou fosse mostrada. Aqui já temos uma diferença obrigatória de intenção entre os dois artistas. Como eu esperava, muitas das leituras que podemos fazer a partir da prosa desaparecem ou perdem destaque na versão em quadrinhos. E -uma característica muito típica dos quadrinhos, sobretudo dos quadrinhos norte-americanos- a versão em quadrinhos é mais veloz. Os eventos acontecem de modo muito mais rápido que no
texto, o que causa uma outra percepção da história.
 
Blog - Qual -ou quais- a diferença que você vê no processo de adaptação em quadrinhos? Há algum tipo de perda ou ganho nessa transposição?
Zeni - Ao mudar de meio, muda-se a linguagem obrigatoriamente. Ao mudar uma história que está em um meio para outro, haverá perdas e haverá ganhos. No caso específico de adaptar para quadrinhos, um elemento que será comum para adaptações oriundas de qualquer meio é a imagem estática que, ao lado de outra imagem estática, cria um movimento imaginado, com provável presença de texto e imagem conjugados.
 
 
Blog - O gênero literatura em quadrinhos voltou a ganhar destaque no país. Com base em seu estudo, como você analisa as adaptações que foram feitas de um, dois anos para cá?
Zeni
- A
cho que tem muita coisa boa sendo criada. Mas, no geral, elas ainda são muito paradidáticas. Poucos se aventuraram a mexer um tanto no texto. Parece um tipo de respeito pelos figurões da literatura. Fazer uma coisa bem simples, como usar um traço menos realista, como em "A Relíquia", do Marcatti. O resultado foi excelente. Tem também o trabalho do "Domínio Público", mas, como ainda não vi, prefiro não falar muito. Mas a proposta é a de fazer algo mais livre, o que é bastante interessante. Acredito que, com o tempo, teremos mais adaptações com essa intenção, o que acho muito bom, pois valoriza ainda mais a obra adaptada.
 
Blog - Muito se discute se quadrinhos são literatura. Você abordou o assunto na dissertação? Defende algum ponto de vista a respeito?
Zeni - Não abordei propriamente o tema, mas fica claro na minha dissertação que considero que quadrinhos e literatura são duas artes diferentes, pois são meios diferentes que usam linguagens diferentes para expressar. Creio, porém, ser possível usar instrumental teórico de literatura, teatro, cinema para analisar histórias em quadrinhos com os devidos cuidados de especificidade de cada um desses meios.
 
 
Blog - O governo federal tem priorizado adaptações literárias em quadrinhos no PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola). No seu entender, é mais eficiente o aluno ter um primeiro contato com a obra original ou com a versão em  quadrinhos?
Zeni - U
ma abordagem ao texto literário mediado por adaptações dele é um processo bastante interessante e revelador. Se o foco de análise é o texto literário. Creio que a leitura deve se concentrar primeiramente em analisar esse texto texto literário e só então partir para as adaptações. Nesse caso, a adaptação será tratada como paradidática.
 
Blog - Você sentiu alguma resistência na Federal do Paraná para estudar quadrinhos de um ponto de vista literário?
Zeni - Tive algumas dificuldades, sobretudo no começo. Um professor confundiu charge com tiras e disse ser impossível tratar do tema pelo viés da literatura. Mas, depois que passei a tratar com adaptação, não tive mais problemas.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h07
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25/10/2007

Livro de tiras revela um outro lado de Marcelo Campos

O leitor que conhece o trabalho do brasileiro Marcelo Campos feito com super-heróis vai estranhar o livro de tiras "Talvez isso...", editado pela Casa 21.

A obra, que tem lançamento nesta sexta-feira em São Paulo, é diferente de tudo o que o desenhista já fez. Parece até um outro artista.

São 72 tiras não cômicas. O tema é o lado existencial e filosófico do ser humano.

Em vários momentos, as histórias se assemelham às "tiras filosóficas" que o cartunista Laerte produziu para o caderno "Ilustrada" da "Folha de S.Paulo".

O desenhista de 42 anos diz que, na verdade, esse é o eu verdadeiro dele, escondido enquanto realizava outros trabalhos.

A válvula de escape para essa nova produção foi por meio de um blog que criou em 2006.

A página virtual, hoje, não se limita só a tiras. Apresenta experimentações dele em outros formatos também.

Campos ficou mais conhecido do leitor brasileiro, curiosamente, por causa dos trabalhos feitos para editoras norte-americanas.

Começou no mercado externo em 1989. Em 1991, já desenhava para a DC Comics, editora de Super-Homem e Batman.

Em poucos meses, Marc Campos, como assina à época, assumiu a arte da revista mensal da Liga da Justiça, uma das principais da DC.

Por ser um dos primeiros brasileiros a atuar nos Estados Unidos, recebeu muitas críticas de outros desenhistas à época.

A acusação mais ouvida é que havia se "vendido" (ele comenta a polêmica aqui).

Paralelamente, criou por aqui o personagem Quebra-Queixo, lançado em mais de um álbum.

Hoje, ele divide o tempo entre os desenhos e a direção da Quanta, academia de desenho que mantém em São Paulo, onde mora (o trecho não ambíguo: ele mora na escola).

Separado, vive um novo momento de vida.

O desenhista sul-mato-grossente -nasceu em Três Corações- fala sobre essa nova fase, pessoal e profissional, na reveladora entrevista a seguir, feita por e-mail.

Ele comenta o que o motivou a fazer uma produção mais existencial, fala sobre as semelhanças com as tiras filosóficas de Laerte e que pretende, daqui para a frente, evitar outros tipos de produção.

                                                             ***

Blog - Seu novo livro mostra um outro Marcelo Campos, algo diferente de tudo o que você já fez. Por que essa mudança? 

Marcelo Campos - Na verdade, este sou eu. Nunca me identifiquei com o que fazia em quadrinhos, tanto que não tenho nada do que produzi até hoje, seja como ilustrador, animador, ou desenhistas de quadrinhos para o mercado nacional ou de fora. Com exceção do Quebra-Queixo, que ainda guardo porque, apesar de ele não ter muito a ver comigo, é um personagem que eu criei. Minhas reais influências são outras e acho que aqui elas aparecem mais. Leio sobre filosofia, antropologia, religião, ciência... A Quanta – minha escola de artes – tem esse nome porque leio muito sobre física quântica. Mas todos esses temas são lidos de uma maneira muito diferente, sempre procurando uma outra perspectiva de entendimento, mais subjetiva, paralela. Como as tiras. Vejo isso porque cada amigo que lê uma tira a entende de maneira diferente, inclusive da minha. Acho isso fantástico! Aí percebi que estava no caminho certo.

 

Blog - Em geral, temas assim são abordados em histórias mais longas. Por que a escolha das tiras, que possuem um formato mais reduzido?

Campos - Foi uma coisa muito natural. Tinha idéias bem concisas sobre pensamentos a respeito da vida e do que vejo como existência que acabaram saindo por essa vertente. Não foi um direcionamento consciente. Apenas aconteceu. Tenho produzido alguns outros materiais mais longos agora que estão no meu blog. Páginas... No mesmo tom das tiras, mas onde posso trabalhar melhor alguns pensamentos.

 

 

Blog - Há alguma semelhança com as "tiras filosóficas" de Laerte. Você se pautou nelas para produzir as suas?

Campos - Gosto muito das tiras filosóficas do Laerte, adoro o trabalho dele. Mas não foi isso, não. Quando comecei o blog com este material, o Laerte me mandou um e-mail dizendo que tinha curtido muito as tiras. Foi um elogio e tanto pra mim. Mas isso tudo foi uma coisa muito natural pra mim, mesmo. Eu não queria mais fazer quadrinhos. Não queria mais trabalhar com “linhas narrativas” no sentido em que elas são aplicadas normalmente. Queria algo diferente, mas nada foi “pensado”, planejado. Quando vi, tinha um monte dessas tiras, e fiquei contente com isso. Mostrava só pros amigos, e eles me convenceram em abrir o blog. 

 

Blog - Os temas existencialistas deste novo trabalho casam com um novo momento pessoal vivido por você?

Campos - Certamente. É um momento muito especifico da minha vida. Muitas coisas aconteceram comigo nos últimos 13 anos, pelo menos. Muitas delas bastante dolorosas em termos de vivência, o que me fez direcionar minha vida para outras estradas, ou pelo menos ser “obrigado” a ver minha vida e toda essa questão de existência de outra maneira.

 

Blog - Esse lançamento foi uma surpresa. Como se deu a negociação do livro? Como chegou até a editora Casa 21?

Campos - Bom, isso aconteceu quando o David Lloyd [desenhista da minissérie "V de Vingança"] esteve aqui na Quanta, em uma de suas visitas. O Roberto Ribeiro [editor da Casa 21] me perguntou o que eu andava fazendo e eu disse que não estava mais trabalhando pros Estados Unidos, estava cuidando da escola. Ele me perguntou se eu tinha parado mesmo de desenhar e tal. Eu disse que estava fazendo umas tiras estranhas. Ele me pediu pra ver. Gostou delas e disse que tinha interesse em publicá-las. Foi assim. A partir daí, começamos a negociar. Nunca fui tratado tão bem por um editor como foi com o Roberto. Conversávamos sobre as tiras, seus significados e tudo mais. Não era um papo sobre como lançaríamos, mas sobre os conceitos envolvidos. Achei isso honesto como as tiras. Foi isso. Duas outras editoras viram o material, mas acabei fechando com o Roberto.

 

 

Blog - Daqui para a frente, para onde procura direcionar sua produção?

Campos - Eu não sei. Não planejo absolutamente nada na minha vida. Tenho feito estas outras páginas no meu blog e também estou escrevendo um livro pra mim. Só mostrei pra uns amigos... Só pra ver se é muito ruim! Não tenho a pretensão de publicá-lo. Ele é muito maluco pra isso. Acho que nenhum editor publicaria isso!

 

Blog - Quebra-Queixo e super-heróis nunca mais?

Campos - Eu não digo nunca, mas... se eu puder evitar, vou evitar. Isso tudo é uma questão de escolha de como quero viver. Eu larguei tudo. Tenho ofertas de trabalho o tempo todo, mas estou cuidando da escola e pra mim isso está legal. Não tenho dinheiro e moro na minha escola. Tudo é uma questão de escolha, e estou escolhendo viver agora. Trabalhei muito... Muito mesmo. Batalhei por uma porrada de coisas e agora estou livre de certos conceitos. É assim que me sinto... estou vivendo. Apenas. 

Clique aqui para ter mais detalhes sobre o lançamento de "Talvez isso...".

Escrito por PAULO RAMOS às 09h03
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18/09/2007

A história de Dom Quixote, segundo Bira Dantas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cena da adaptação em quadrinhos do romance de Miguel de Cervantes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O desenhista Bira Dantas luta contra o calendário. Ele tem pouco menos de três meses para terminar a adaptação em quadrinhos do romance “Dom Quixote”.

 

O desafio aumenta quando se sabe que o clássico do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) soma cerca de 600 páginas.

 

A história do cavaleiro idealista foi publicada em dois volumes, lançados em 1605 e 1615, respectivamente.

 

A adaptação em quadrinhos, que será lançada pela Escala Editorial, vai ter um volume só. Dantas prevê por volta de 120 páginas.

 

As imagens desta e da próxima postagem mostram trechos das primeiras páginas da obra. Os desenhos são feitos com aquarela em sulfite.

 

Parte das referências visuais vem de ilustrações, fotos e recortes cedidos por um amigo de Campinas, cidade do interior paulista onde Dantas mora.

 

“Está sendo muito legal trabalhar na obra original, pois estou descobrindo preciosidades que nenhuma adaptação ainda tinha mostrado, pelo menos as que eu li”, diz o desenhista de 44 anos.

 

“Cervantes trata a vida de Dom Quixote como algo real, como se o fidalgo tivesse realmente existido e fosse Cervantes um biógrafo da sua vida.”

 

O convite para adaptar a obra partiu da própria editora. Dantas já tinha trabalhado em outra adaptação da Escala, lançada no início do ano.

 

Ele fez os desenhos de “Memórias de um Sargento de Milícias”, romance de Manoel Antônio de Almeida (1831-1861).

 

O desenhista paulista divide o trabalho na adaptação com outras produções visuais. Entre elas, estão as charges, onde expressa um olhar positivo sobre a atual administração federal.

 

O lado contestador o acompanha há quase três décadas. A primeira charge foi para o jornal do Partido dos Trabalhadores, em 1981.

 

No ano seguinte, começou a fazer desenhos em jornais sindicais, nos quais atua até hoje.

 

O início, no entanto, foi em 1979, com um estágio nos estúdios de Ely Barbosa, autor de quadrinhos que faleceu em janeiro deste ano (leia mais aqui).

 

Em pouco tempo, Dantas assumiu os desenhos da extinta revista dos Trapalhões, uma das feitas pelo estúdio.

 

Hoje, ele mantém o ritmo de produção. Tem outras histórias prontas. Uma delas, “Qual é o desejo?”, integra o próximo volume da “Front”.

 

A publicação, da editora Via Lettera, reúne histórias curtas de diferentes quadrinistas nacionais.

 

Foi por causa da “Front” que ele fez uma das cenas mais memoráveis da cerimônia de entrega do último Troféu HQMix, principal premiação de quadrinhos do país.

 

Ele e os integrantes da revista foram receber o prêmio de melhor publicação de quadrinhos.

 

No palco, Dantas sacou uma gaita, instrumento que aprendeu a tocar sozinho.

 

E aprendeu bem. Tocou um “Asa Branca” que silenciou e emocionou os cerca de 800 convidados.

 

A música era uma homenagem a Conceição Cahú, uma das primeiras desenhistas brasileiras. Cahú, morta no ano passado, era uma das homenageadas do troféu (leia mais aqui e aqui).

 

Entre a correria na criação das páginas de “Dom Quixote” e a atualização das 19 páginas virtuais que mantém, Dantas arrumou um tempo de conversar por e-mail com o Blog.

 

Na entrevista, ele fala um pouco mais da adaptação da obra de Cervantes, de como vê a literatura em quadrinhos e sobre a gaita que calou a festa do HQMix, em julho.

 

(Continua na próxima postagem). 

Escrito por PAULO RAMOS às 19h40
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A história de Dom Quixote, segundo Bira Dantas - II

Entrevista: Bira Dantas

 

Blog - Já houve outras adaptações da obra de Cervantes, como a de Caco Galhardo e a de Will Eisner. O que a sua terá de diferente?
Bira Dantas
- Quando fui convidado para desenvolver o projeto pela Escala Educacional, me  perguntei exatamente isso: por que quadrinizar esta obra.  Ora, pensei com meus pincéis, canetas e gaitas, primeiro porque me encomendaram, segundo porque será a minha versão e terceiro, pelo desafio. Eu sou um aficionado pelos detalhes e a obra de Cervantes, é  extremamente detalhada. Não só na forma, no texto arcaico, mas no conteúdo, nas citações, nas ambientações, na construção de personagens, nas confusões emaranhadas que se formam do nada. Eu adoro isso. Eu já tinha lido e adorado a adaptação do Caco, mas achei que conseguiria fazer algo um pouco menos centrado no cavaleiro, mostrando mais os movimentos e ações em volta dele do que as promovidas pelo fidalgo. Também queria esmiuçar outras passagens do livro original.

 

Blog - Há uma nova onda de adaptações literárias em quadrinhos no Brasil. Qual a sua leitura dessa tendência?
Dantas
- Acho fantástico. É um desafio para o artista e acho incrível perceber como cada um se vira de um jeito diferente para resolver alguns problemas comuns. Acabei de ler “A Relíquia”, do Marcatti, [Conrad], e quase chorei. É ducacete! O final do livro é totalmente sui-generis.

 

Blog - Fazendo um paralelo com o personagem Dom Quixote, qual o seu grande moinho?
Dantas
- Ótima pergunta. Eu acho que é a luta de classes. Essa bendita luta me deixa doido dia a dia. Em pleno século 21, com um mundo globalizado, internetizado, fábricas automatizadas, produtos baratos made in Taiwan, Hong Kong e China, camelôs high-tec que vendem ipods e toda a parafernália informatizada, continuo desenhando para sindicatos, levantando bandeiras de luta contra os gigantes da comunicação. Criando blogs e fotologs para falar das minhas influências e da história passada que nosso povo sempre esquece. Eu sou um chargista quixotesco. Minha filha de sete anos, Thaís, já me disse que é muito legal ter um pai meio louco e que ainda gosta de gibis.


 

 

 

 

 

 

 

Bira Dantas (à dir.) toca sua gaita durante entrega do Troféu HQMix

 

 

 

 

 

 

 

Blog - A inspiração foi Conceição Cahú, mas o que o motivou a tocar Asa Branca na cerimônia do HQMix? E o que achou da reação da platéia?
Dantas
- Eu sou filho de nordestinos, meus pais são do Rio Grande do Norte, e cresci ouvindo muito Luiz Gonzaga, Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro, Marinês... Quando comecei a tocar gaita "de ouvido", há cerca de 10 anos, tirar alguns clássicos do forró foi um caminho natural. Quando reencontrei a Cahu na Merlin [loja de quadrinhos de São Paulo, que já fechou], uma das músicas que toquei foi Asa Branca. E ao tocar Asa Branca lá no HQ Mix, acabei homenageando todos nordestinos lá presentes. Dona Lourdinha, minha mãe, se derreteu em lágrimas.

 

Bira Dantas mantém um blog dedicado exclusivamente aos bastidores da adaptação de Cervantes.

 

São de lá as imagens da obra reproduzidas nesta postagem e na anterior.

 

Para acessar, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 19h35
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04/09/2007

Antologia de Fortuna: as memórias do pai pelas mãos da filha

O cartunista Fortuna, um dos principais da história do país, vai ganhar uma antologia.

A obra será publicada pela editora Desiderata e deve ser lançada no ano que vem.

O livro é organizado pela filha dele, Anna Fortuna. É uma espécie de presente póstumo ao trabalho do pai.

A obra vai ter desenhos das diferentes produções feitas por Fortuna, morto em setembro de 1994, aos 63 anos.

A seleção inclui cartum, charge, caricatura, capas de revista e, claro, Madame e Seu Bicho Muito Louco, criação em quadrinhos mais famosa dele (abaixo, uma das histórias curtas dela).

"Já que é uma antologia, acho importante ter algumas histórias da Madame e Seu Bicho Muito Louco", diz Anna Fortuna, por e-mail.

"São seus únicos personagens, fora o Professor Reginaldo, que é um personagem de texto."

Fortuna –o pai- trabalhou nas principais produções de humor que surgiram no país a partir da década de 1960 (e que ilustram esta postagem).

Teve participação da revista "Pif-Paf", de Millor.

Depois, integrou o time fundador do jornal alternativo "Pasquim", uma das principais vozes de resistência à ditadura militar brasileira (1964-1985).

Criou na década de 1970 a revista em quadrinhos "O Bicho", que também trazia as histórias da Madame, personagem homenageada com a estátua do Troféu HQMix de 2006 (leia aqui).

Paralelamente, atuava na grande imprensa. Passou por "Folha de S.Paulo", "Jornal do Brasil", "Veja", "IstoÉ", "Playboy".

E ainda arrumava tempo para estudar a produção do Barão de Itararé.

Lançou três livros: "Aberto para Balanço", com charges, "Diz, logotipo!", em que dava outra interpretação a logos famosos (veja ao lado) e "Acho Tudo Muito Estranho (Já o Professor Reginaldo, Não)", com ilustrações e textos de humor.

Fortuna –a filha- herdou de Fortuna –o pai- a veia humorística. Ela estreou com textos no "Pasquim 21" com a personagem "Mulher-Cartum". Mantém um blog com material dela (leia aqui).

Ela também é uma das colaboradoras da "Revista M...", que traz trabalhos de humor (leia aqui).

A carioca Anna Fortuna tem no gene outra característica do pai: a diversidade de campos de atuação.

Fez dança contemporânea, teatro, educação artística, atuou como terapeuta ocupacional, é blogueira, colunista, escritora.

E faz planos mais planos. Quer criar uma loja virtual só com produtos de humor. Inclusive os do pai.

Entre uma atividade e outra, ela arrumou tempo para conversar com o Blog.

Na entrevista, ela dá mais detalhes da obra, releva um lado pessoal pouco conhecido de Fortuna e conta como ficam as memórias da filha organizando a memória viva dos trabalhos do pai.

Leia a entrevista na próxima postagem.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h18
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Antologia de Fortuna: as memórias do pai pelas mãos da filha - Parte II

Entrevista: Anna Fortuna
 
Blog - Como você imaginou a obra que vai ser lançada pela Desiderata?
Anna Fortuna - A Martha Batalha, editora da Desiderata, me propôs uma antologia. Então, eu imagino uma seleção mesmo dos seus trabalhos, abrangendo toda a sua carreira; cartuns, charges, ilustrações, caricaturas, capas de revistas, jornais e livros, pôsteres, frases e textos, de forma a mostra a sua versatilidade. Alguns cartuns/charges seus são antológicos, como o do general despachando sentado em cima de um cavalo. Gostaria de colocar também seus primeiros trabalhos publicados, com um traço completamente diferente, ainda sem a influência do Steinberg (leia aqui) e usando pseudônimo.
 
 
Blog - Como fica a cabeça da filha mexendo com trabalhos que resgatam a memória do pai?
Anna - É um pouco complicado, muitas vezes não dá pra não se emocionar ao mexer em seu material, relembrá-lo trabalhando, conversando, suas teorias (ele tinha teoria de tudo!). Mas, quando eu tomei a resolução de não deixar a sua obra morrer e fazer o que fosse possível para que a nova geração conhecesse seu trabalho, sabia que ia ter que encarar isso. Mas, ao mesmo tempo, eu me divirto, apesar da grande responsabilidade que é. Espero fazer a coisa certa.
 
Blog - Qual é a primeira lembrança que você tem do trabalho de seu pai?
Anna - Eu gostava de observá-lo trabalhando na prancheta, principalmente quando ele desenhava com nanquim. Era interessante também quando ele usava materiais estranhos, como palitos de fósforos e algodão, para dar acabamento ao seu trabalho. Assim, de publicações, me lembro de, ainda bem criança, já curti demais a revista "O Bicho", que ele editava.
 
 
Blog - Como você descreveria o seu pai e o trabalho dele?
Anna - Muitos já falaram, mas é verdade: era um perfeccionista, podia ficar dias em cima de um mesmo trabalho. Acho incrível o seu traço. A junção entre o traço e a idéia é perfeita. Era um intelectual no sentido pleno da palavra, um pensador. Sofisticado, como o seu traço, mas, ao mesmo tempo, simples e cordial. Vejo-o também como uma espécie de pioneiro em muitas das suas criações. Gostava muito de conversar. Era também muito engraçado quando nos mostrava seus próprios trabalhos e ria pra valer deles. Sua gargalhada era contagiante.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h12
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01/09/2007

Álbum mostra causos do sertão brasileiro

Os quadrinhos nacionais têm seu "Sagarana". "Estórias Gerais" faz uma narrativa de 158 páginas sobre "causos" do serão brasileiro da década de 1920.

O álbum começou a ser vendido nesta semana (Conrad, R$ 24). Na verdade, é um relançamento, com novo tratamento editorial. A história foi lançada de forma independente em 2001.

Na época, já ganhou destaque. A história foi premiada em 2002 com dois HQMix (melhor roteirista e graphic novel nacional) e dois Angelo Agostini (roteirista e desenhista).

Os dois prêmios são da área de quadrinhos.

A obra é o escrita pelo mineiro Wellington Srbek, de 32 anos. Ele possui outros trabalhos em quadrinhos, mas "Estórias Gerais" é o que teve maior destaque.

O álbum mostra o conflito armado entre os jagunços do insensível Antônio Mortalma e os de Manuel Grande.

O fio condutor da história principal é ladeado por outras narrativas. São "causos" do sertão e de seus ricos personagens, que nome dá à obra.

O roteiro é um dos atrativos do álbum. Há outro: o traço de Flavio Colin (1930-2002), um dos mais conceituados desenhistas brasileiros.

Apesar a sintonia entre palavra e imagem vista na obra, Srbek e Colin (auto-retrato ao lado)curiosamente nunca se encontraram.

A produção deste e de outros trabalhos da dupla foi toda feita à distância.

Esse é um dos bastidores da produção que Srbek conta na entrevista a seguir, feita por e-mail.

Ele divide a atividade de roteirista com as pesquisas na área de quadrinhos.

Srbek tem doutorado sobre humor nas histórias de Henfil defendido na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Parte do estudo foi publicado no livro "O Riso que Liberta", lançado em junho deste ano (leia mais aqui).

Leia a entrevista na postagem abaixo.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h57
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Álbum mostra causos do sertão brasileiro - II

Entrevista: Wellington Srbek

Blog - Qual foi sua inspiração para criar o texto? Guimarães Rosa? Outro? 

Wellington Sbrek - Tem havido alguma imprecisão em torno desta questão, pois o "Estórias Gerais" não é “inspirado em Guimarães Rosa”, tampouco é uma “adaptação de Grande Sertão: Veredas” (coisas que eu não teria o direito de fazer). Na verdade, o que aconteceu é que a leitura da obra-prima de João Guimarães Rosa motivou-me a criar uma história em quadrinhos com elementos daquele universo ficcional dos jagunços e senhores de terras das Gerais. Mas outras obras, como "Auto da Compadecida", de Ariano Suassuna, e "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, tiveram um papel na origem de "Estórias Gerais", sem falar em autores como Luiz Gonzaga, Sérgio Buarque de Hollanda e Dias Gomes, que são citados em minha introdução para o livro.

 

Blog - Como surgiu a possibilidade de reeditar a obra?
Srbek - Quando conheci o Rogério Campos, [dono e diretor editorial] da Conrad, em 2002, ele me disse que o "Estórias Gerais" era um dos melhores “gibis” que ele tinha lido nos últimos dez anos e que gostaria de publicá-lo no futuro. Quando nos reencontramos no FIQ [Festival Internacional de Quadrinhos de Pernambuco] de 2005, ele me perguntou sobre o álbum e, já que a primeira edição estava esgotada, deixamos “palavrada” esta reedição. E o livro saiu agora numa reedição muito caprichada.

 

 

Blog - Especificamente sobre Colin, como foi a entrada dele no projeto original?

Srbek - No início de 1997, eu mandei para o Colin exemplares das revistas Solar e Caliban, que eu publicava. Ele gostou do trabalho e escreveu uma carta bastante incentivadora. Fomos mantendo contato e combinamos de fazer uma HQ juntos. Quando surgiu a idéia para "Estórias Gerais", em fins de 1997, Colin foi o único desenhista em que pensei. Na época eu pude fazer uma boa proposta financeira e ele aceitou desenhar o álbum para mim.

 

Blog - Como se deu o processo de criação entre vocês? ele já pegou o roteiro pronto ou houve troca de experiências?

Srbek - Tecnicamente, o processo com Colin foi semelhante a minhas parcerias com todos os outros desenhistas. Eu enviei a ele esboços e textos explicativos sobre os personagens e todas as páginas do roteiro já esboçadas, com o texto à parte. Claro que Colin trouxe muitíssimo para o projeto, não apenas com seu estilo único mas também com o extenso conhecimento visual que tinha, pois ele sabia desenhar coisas como estribo, arreio, sela e cavalo sem ter que olhar em livros de referência.

 

 

Blog - Como foi o contato com ele nesse álbum?

Srbek - Foi sempre muito prazeroso e recompensador, pois Colin tinha um ótimo papo e nos tornamos amigos. Para além disso, embora não conseguisse trabalho entre os grandes editores, o saudoso mestre queria muito fazer quadrinhos, e tenho orgulho de poder ter propiciado a ele um trabalho de qualidade por uma remuneração adequada – o que infelizmente não é comum na história dos quadrinhos brasileiros.

 

Blog - Há algum bastidor sobre o trabalho dele, algo ainda não revelado?

Srbek - Algo interessante a se contar é que eu e ele produzimos as [mais de] 150 páginas de "Estórias Gerais" e as 40 páginas de nossos outros trabalhos (publicados em "Fantasmagoriana", "Mirabilia" e "Mystérion") sem jamais termos nos encontrado pessoalmente.

Srbek pretende colocar outros bastidores da produção de "Estórias Gerais" no site Mais Quadrinhos, página virtual com trabalhos dele.

Segundo Srbek, o material entra no ar na segunda-feira. Para acessar, clique aqui.

Escrito por PAULO RAMOS às 11h51
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24/08/2007

Personagem de tira é usada em semana temática sobre lesbianismo

 
 
 
 
 
 
 
Cartão com Katita, personagem lésbica criada por Anita Costa Prado
 
 
 
 
 
 
 
 
Uma personagem de histórias em quadrinhos estampa um cartão postal, que vai ser distribuído na Semana da Visibilidade Lésbica. O evento começa nesta sexta-feira à noite em São Paulo.
 
Katita é a personagem-título de uma tira criada pela escritora paulistana Anita Costa Prado, uma militante de causa sociais e homossexuais. A protagonista da tira é lésbica.
 
Anita diz que a relação com a Cads (Coordenaria de Assuntos de Diversidade Sexual), que organiza a semana temática, é antiga, vem desde 1995. O órgão é ligado à prefeitura paulistana.
 
"Em 95, [a Cads] fez uma exposição para os dez anos da Katita", diz a escritora. "No ano passado, fez um postal que foi muito bem recebido."
 
Para este ano, Katita vai estar também em uma cartilha e em jogos de passatempos, distribuídos na semana sobre lesbianismo (leia a programação aqui).
 
Katita começou a ganhar mais projeção no ano passado. Um livro da editora independente Marca de Fantasia reuniu uma série de tiras da personagem. A obra foi lançada em junho de 2006 (leia aqui).
 
"Katita - Tiras sem Preconceito", nome da obra (capa ao lado), foi o principal destaque do 23º Prêmio Angelo Agostini, promovido pela Associação dos Quadrinistas e Caricaturistas do Estado de São Paulo.
 
O livro, desenhado pelo cearense Ronaldo Mendes, foi escolhido como melhor lançamento de 2006 e Anita, a melhor roteirista (leia mais aqui).
 
Nesta entrevista, feita por e-mail, Anita dá mais detalhes da participação da personagem na Semana de Visibilidade Lésbica e fala da vontade de tornar a personagem mais conhecida do grande público.
 
Blog - Como será feita a distribuição do cartão?
Anita Costa PradoKits contendo o postal, cartilhas sobre a saúde da mulher e a publicação de jogos e passatempos, além de informativos serão distribuídos nas intervenções que ocorrerão em diversos estabelecimentos e nos eventos.
 
Blog - No seu entender, o que representa a inserção de um personagem de quadrinhos em um evento como esse?
Anita - Representa um espaço valioso para divulgar uma personagem que, por sua orientação sexual, sofreu preconceito editorial e pessoal, Hoje a Katita é premiada e reconhecida, mas sempre serei grata ao coordenador da Cads, Cássio, e um anjo nipônico chamado Takeo, pessoas que me apoiaram antes mesmo de ter um livro da Katita publicado. E, no que se refere a quadrinhos especificamente, é uma afirmação de que a história em quadrinhos pode ser um veículo utilizado em diversos setores, como propagação de idéias, conceitos ou mero entretenimento. 

 

Blog - Quais os próximos planos para a Katita?
AnitaA Katita foi publicada pela editora Marca de Fantasia, que não possui pontos de venda nem distribuição ampla. Assim sendo, os planos incluem uma publicação que consiga chegar a um número maior de pessoas.

Escrito por PAULO RAMOS às 15h24
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14/08/2007

Estudo desvenda identidade do brasileiro nas charges de Jeca Tatu

Parte 2

Entrevista: Márcio Malta
  
Blog - Quem é o Jeca Tatu, segundo sua pesquisa?

Márcio Malta - Existem vários Jecas, pois trabalho com o conceito de metamorfoses do personagem. O personagem foi criado por Monteiro Lobato e se define prioritariamente pela preguiça e abandono pelo Estado. Com o passar do tempo a sua popularização foi moldando o Jeca Tatu, sendo adaptado em vários campos, como na música, no cinema e nas charges – objeto da minha pesquisa.

 

Blog - Você entende que essa identidade é uma metáfora do brasileiro da época? Se sim, de quais brasileiros?

Malta - O Jeca, nas charges, a princípio representava um tipo, o caboclo, o indivíduo desvalido do meio rural brasileiro, principalmente do Vale do Paraíba. Com o passar dos anos o Jeca passou a representar todo brasileiro, independente de classe ou região geográfica.

 

 

Blog - O Jeca foi criado em livro de Lobato, não em charge [as primeiras referências estão em dois artigos de 1914, reunidos no livro "Urupês", cuja primeira edição é de 1918]. O quanto a charge contribuiu para a criação dessa identidade?

Malta - Essa pergunta pode ser observada por dois ângulos. Acredito que o fato de Monteiro Lobato ser desenhista o facilitou a criar a imagem do Jeca, desde o seu início muito visual e carregada de humor. Por outro lado, dialeticamente, os chargistas tiveram em suas mãos um prato cheio para desenhar. O pesquisador Antônio Cândido [professor emérito da Universidade de São Paulo] definiu o Jeca muito sabiamente como um tipo “caricatural”, o que realmente contribuiu para não só os chargistas como ilustradores explorarem a figura do Jeca. 

 

Blog - Em vários momentos da pesquisa, você menciona que se tratava de "caricaturas" do Jeca. Algumas são charges, não?

Malta - Na pesquisa dou prioridade em dar o tratamento aos desenhos como charges políticas. A definição é importante, pois os pesquisadores da área não fazem a distinção. A charge política pode ser vista como um desenho humorístico em cima de um fato e é o que trabalho a partir das capas da revista "Careta" (mais de 500 com o Jeca, no período que vai de 1919 a 1960). O termo caricatura foi utilizado algumas vezes, pois assim era classificada a charge antigamente, indistintamente. 

 

 

Blog - E quais eram os temas abordados?

Malta - Com o levantamento das imagens, pude constatar que alguns temas eram recorrentes, tais como,  identidade nacional, a preguiça do Jeca, o povo opilado e o comunismo. Inflação e custo de vida são dois temas intimamente ligados e recorrentes nas charges sobre o personagem.  Mas, sem dúvida, o tema campeão em aparições nesse segmento é o que apresenta o Jeca esfomeado.

 

(Continua na próxima postagem)

Escrito por PAULO RAMOS às 20h14
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Estudo desvenda identidade do brasileiro nas charges de Jeca Tatu

Parte 3

Blog - Na pesquisa, você menciona que houve mudanças no perfil do Jeca. Quais foram essas alterações?

Malta - No início, o Jeca foi retratado especialmente ao lado do político e jurista Rui Barbosa [1849-1923], pois o mesmo o citou em um de seus discursos à presidência da república, o que acabou por popularizar ainda mais o personagem. Essas charges iniciais [a vista ao lado, de abril de 1920, é de J. Carlos] lidavam principalmente com a temática de oposição do intelectual com o povo ignorante e preguiçoso. Com o correr dos anos, já na década de 1920, o Jeca ganhou contornos de oposição a figuras como do Tio Sam e defensor das riquezas nacionais. A passividade que é marca do personagem também deu lugar a uma atitude mais matreira e crítica aos desmandos das elites políticas brasileiras.

 

Blog - O foco de sua pesquisa foi investigado na revista "Careta", material raríssimo no país. Como você contornou esse problema?

Malta - A pesquisa das fontes primárias se deu por meio do acesso ao acervo da Biblioteca Nacional, que foi digitalizado e está disponível no site da entidade. Também tive acesso ao material físico no acervo da Biblioteca Estadual do Rio de Janeiro.

 

Blog - O Jeca interpretado por Mazzaropi no cinema, contribuiu de certa forma para a fixação do personagem no imaginário coletivo do brasileiro?

Malta - O comediante Amâncio Mazzaropi [1912-1981] foi um dos muitos artistas que manusearam o personagem ao seu bel-prazer, o que conferiu ao Jeca uma grande carga de vida. Até hoje o Jeca é relembrado e encontra-se fortemente localizado na memória nacional, servindo para designar costumes populares como moda e comidas classificadas como Jeca.

 

(Continua na próxima postagem) 

Escrito por PAULO RAMOS às 20h11
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Estudo desvenda identidade do brasileiro nas charges de Jeca Tatu

Parte 4

 

Blog - Sua dissertação de mestrado traz à tona um lado pouco conhecido de Lobato, o de desenhista. Seu levantamento mostrou que ele chegou a produzir exatamente o quê?

MaltaA minha pesquisa busca lançar luzes para um lado pouco explorado de Monteiro Lobato, o de apaixonado pelo desenho de humor. Normalmente são citadas apenas as aquarelas do autor – excepcionais, diga-se de passagem – mas Lobato chegou a colaborar em revistas de grande importância como a "Fon-fon", no ano de 1909. Foi ainda estudioso e pesquisador do desenho de humor, chegando a escrever importantes artigos, tais como “A Caricatura no Brasil”, onde mapeia a caricatura no Brasil e no mundo; e o artigo “O Rei de Congo”, no qual propõe o uso das charges como recurso e fonte para a historiografia.

 

Blog - Outro ponto é o lado editorial de Lobato, que buscava vender os livros em novos mercados, como farmácias. Ele não estava na vanguarda? Não se vê o mesmo hoje [com a coleção pocket da L&PM, para ficar num exemplo]?

Malta - Monteiro Lobato sempre foi muito prático. Ao tornar-se editor constatou que não existiam pontos de venda de livros no Brasil. Assim resolveu cria-los. Enviou cartas-proposta a comerciantes de pequeno porte e teve ampla recepção. A sua atitude realmente ficou de exemplo, sendo contudo pouco explorado ainda.  

 

Blog - Ele chegou a desenhar o Jeca Tatu?

Malta - Não existem registros de Lobato ter desenhado o Jeca Tatu. O que merece registro é que Monteiro Lobato ilustrou o seu primeiro livro, “Urupês”. 

 

BlogA pesquisa foi feita na área de Ciência Política, algo raro de se ver na academia. Houve algum tipo de barreira ou preconceito a ser superado?

MaltaEm princípio, houve um certo estranhamento e até mesmo falta de condições dos profissionais da área em compreender a importância do tema. Normalmente a charge é pouco aproveitada na academia por conta de alguns fatores: a supervalorização do texto, em detrimento da imagem; o não-reconhecimento do humor como válido cientificamente; e por último a multiplicidade de interpretações que a charge pode ter – o que é a sua riqueza – e normalmente é visto com um certo temor pelos dogmáticos.

 

Blog - Já houve vários símbolos do brasileiro, do índio ao Jeca, citado por você. No seu entender, há um símbolo atual do brasileiro, neste início de século?

MaltaConcluo o meu trabalho com a menção de que o posto de identidade nacional encontra-se vago. As chances de aparecer um personagem que nos represente são cada vez menores, pois vivemos uma conjuntura de neo-liberalismo, onde as identidades nacionais encontram-se cada vez mais diluídas.

Escrito por PAULO RAMOS às 20h08
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12/08/2007

Gibizada: os bastidores de um blogueiro de quadrinhos

O blog é um recurso midiático relativamente novo no Brasil. O blog jornalístico, mais novo ainda. Mas se firma nos grandes portais a passos largos.

Na área de quadrinhos, ainda há poucos blogs jornalísticos. Um dos pioneiros é o Gibizada, mantido pelo carioca Telio Navega (clique aqui).

A página completou dois anos no último dia cinco. Tempo suficiente para fazer dela uma das principais referências na área de quadrinhos no Brasil.

O blog está hospedado no portal de "O Globo", jornal onde Telio trabalha na área de diagramação. Ele se define como um designer gráfico de formação que se transformou em jornalista.

Navega foi um dos indicados do último Troféu HQMix na categoria melhor jornalista especializado em quadrinhos.

Os dois anos à frente da página virtual já renderam outros frutos, como uma coluna mensal sobre quadrinhos no "Megazine", suplemento jovem de "O Globo".

As resenhas de lançamentos mais adultos ficam para outro caderno do jornal, o "Prosa e Verso", onde também escreve esporadicamente.

A repercussão está atrelada a muito, muito esforço, como ele mesmo conta neste bate-papo, feito por e-mail.

Um dos maiores desafios, diz o blogueiro de 38 anos, é equacionar a falta de tempo com a necessidade de atualizações constantes da página virtual.

Blog - Quais as principais dificuldades de se manter um blog sobre quadrinhos no ar?
Telio Navega - Acho que blog tem que ter atualização diária. Ou quase. Não dá para ser semanal ou mensal. Senão já era, não tem leitura constante. Essa é a dificuldade: manter a atualização diária, já que o blog não é minha atividade principal, meu ganha-pão. Sou designer de formação e esta é minha profissão. Um designer de jornal que acabou se transformando também em jornalista, porque jornal vicia, você sabe.

Blog - Como é o seu ritmo de trabalho no blog?
Navega - Bem que eu tento escrever algo antecipadamente, deixar pronto e só "subir" no dia, mas não consigo. Se escrevo antes ponho logo no ar. Acabo usando minha "pilha" natural para passar madrugadas escrevendo. E escrever um blog de quadrinhos tem que ser bonito, tem que ter uma bela imagem. Selecioná-la nunca é fácil. Mas escrever também não é.

Blog - Sobra tempo para outras coisas?
Navega - Tem que sobrar, né? Tempo para filhos, mulher e trabalho. Fora cinema, livros e gibis. E ainda ver séries de TV, pois agora, além do Gibizada on-line e Gibizada no Megazine na última terça de cada mês, ainda escrevo a seis mãos-com os amigos jornalistas Bruno Porto e Tom Leão- a coluna "Seriais" na "Revista da TV". Sai todo domingo também no "Globo".

Blog - De dois anos para cá, o que mudou no seu dia-a-dia por causa da página virtual?
Navega - Muita coisa. Não escrevia nada, só uma resenha para o "Prosa e Verso" uma vez ou outra. Agora é todo dia, ou quase. Mas fiquei todo orgulhos de ter o meu nome incluído entre os melhores jornalistas especializados em quadrinhos no último HQ Mix. Faz bem ao ego e só tinha gente boa ao meu lado. Gente como você e o Sidney [Gusman, do site Universo HQ], que leio há muitos anos, desde que eu era moleque (ele vai odiar isso) e comprava "Sandman" na banca.

Blog - No aniversário de primeiro ano, você comentou que, depois da criação do Gibizada, encontrava pouco tempo para ler quadrinhos. Isso melhorou?
Navega - Não, só piorou. O volume de lançamentos só tem aumentado, é assustador. Vivemos um momento histórico de títulos em livrarias e gibiterias. Uma pena que a banca sai prejudicada. Para a pobrezinha só vão super-heróis. E isso é muito pouco no fabuloso e amplo universo das histórias em quadrinhos.

Blog - Que lição você tira dessa experiência? 
Navega - A melhor possível, mesmo fazendo isso por amor. Acho que os quadrinhos hoje são tratados com um pouco mais de dignidade. O aumento de títulos conseqüentemente trouxe um aumento de caras especializados no segmento. Temos sites como o Universo HQ, Omelete, Bigorna, Blog dos Quadrinhos, HQ Maniacs. E sujeitos como o Gonçalo Junior [autor do livro "Guerra dos Gibis" e colunista de quadrinhos da revista "Cult"], Pedro Cirne [crítico de quadrinhos da "Folha de S.Paulo], o Diego Assis [jornalista de cultura do site G1], o Claude Bornél [da coluna Seqüencial, do jornal "O Povo", de Fortaleza] e o Cláudio Yuge [colunista de quadrinhos do portal "Bonde"]. E pérolas como o Nona Arte, de André Diniz. Volume de informação que não existia há alguns anos. Boa parte desse material, na verdade, também existe graças à internet.

Escrito por PAULO RAMOS às 14h33
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